AUTORIDADE VERDADEIRA: DA DOMINAÇÃO AO SERVIÇO

Cristo está entre nós, queridos leitores!

Chega um momento na vida de cada pessoa em que lhe é confiada alguma medida de autoridade. Isso não significa necessariamente poder político ou uma posição formal de liderança. A autoridade existe onde quer que uma pessoa exerça influência sobre outra — na família, na amizade, no trabalho e, claro, na vida espiritual. A capacidade de guiar, orientar e até mesmo instruir os outros parece totalmente natural. No entanto, é precisamente aqui que encontramos a tênue linha que separa o que edifica do que destrói.

Em sua Primeira Epístola aos Coríntios, o apóstolo Paulo profere palavras que revelam a própria essência da vida cristã: “Contudo, não usamos desse poder; antes, suportamos tudo, para não impedirmos o evangelho de Cristo” (1 Coríntios 9:12).

Para apreciar todo o peso e a grandeza dessa declaração, devemos considerar a situação na Igreja de Corinto. Nessa comunidade, chegaram mestres que afirmavam sua autoridade por meio do poder e da dominação. No mundo antigo, isso era considerado perfeitamente normal. As pessoas estavam acostumadas a ver os fortes dominando os fracos, e aqueles que possuíam conhecimento ou status muitas vezes transformavam esses dons em instrumentos de controle. Tais mestres ofereciam aos coríntios uma hierarquia familiar, embora rígida: aqui está o mestre, e aqui está o subordinado.

Nesse contexto sombrio, o apóstolo Paulo os lembra de sua verdadeira posição. Ele foi quem fundou a Igreja de Corinto. Foi por meio dele que eles conheceram Cristo pela primeira vez. Sob todas as perspectivas humanas e espirituais, Paulo possuía um direito maior à autoridade e ao respeito do que qualquer um dos pregadores itinerantes que chegaram depois. Ele poderia ter insistido em seus direitos. Poderia ter exigido obediência. Em vez disso, escolheu livremente outro caminho. Paulo renunciou a seus privilégios legítimos. Ganhou a vida com o trabalho de suas próprias mãos, suportou dificuldades e recusou-se a dominar os outros.

Por quê? Sua resposta é surpreendente em sua simplicidade: Para que não impeçamos o evangelho de Cristo.

Aqui Paulo revela uma das leis mais profundas da vida espiritual: a dominação externa de uma pessoa sobre outra é fundamentalmente incompatível com a pregação da Cruz. Sempre que um pastor ou mestre começa a afirmar sua própria importância, a dobrar os outros à sua vontade ou a manipular almas, o Evangelho se cala.

A verdadeira proclamação de Cristo é a proclamação do Deus que Se humilhou e Se tornou obediente até a morte, e morte de cruz (Filipenses 2:8). Ele não viola a liberdade humana, mas busca pacientemente uma resposta amorosa do coração humano.

Sempre que a autoridade humana substitui Cristo no centro da comunidade, o Evangelho degenera em ideologia e a fé torna-se meramente um sistema de controle. A dominação humana inevitavelmente expulsa o Espírito Santo, pois onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade (2 Coríntios 3:17). A coerção e a manipulação podem produzir uma comunidade obediente, mas jamais poderão gerar filhos e filhas de Deus livres.

O apóstolo Paulo compreendeu a verdade essencial: a verdadeira força espiritual não reside na capacidade de subjugar os outros, mas na disposição de ceder e dar lugar a Deus. Renunciar à própria autoridade em prol da liberdade de outra pessoa é a mais verdadeira imitação de Cristo.

Esta lição não se dirige apenas ao clero e aos teólogos, mas a cada um de nós. Fala aos pais que são tentados a construir seu relacionamento com os filhos sobre a obediência inquestionável, em vez de lhes revelar a beleza do amor. Fala aos líderes e mentores que se esquecem de que sua principal vocação é promover o crescimento daqueles que lhes foram confiados, e não afirmar sua própria importância. Fala a todo cristão que, em discussões sobre a fé, busca subjugar o oponente por meio de raciocínio superior ou de uma postura de superioridade espiritual.

A Palavra de Deus nos chama a reconsiderar nossa própria compreensão de força. A verdadeira autoridade — na Igreja como na vida — jamais é conquistada pela pressão. Ela nasce do sacrifício, da disposição de suportar inconvenientes e de uma sincera reverência pela alma do outro.

Que as palavras do apóstolo Paulo se tornem a medida constante de nossas próprias intenções. Sempre que nos encontrarmos em posição de exercer autoridade, pressionar ou prevalecer sobre alguém, façamos a nós mesmos uma simples pergunta: Ao fazermos isso, estamos colocando um obstáculo no caminho de Cristo?

E que o Senhor nos conceda a sabedoria para sempre escolhermos não o caminho da dominação, mas o caminho do amor, da humildade e do serviço.


Metropolita Luka (Kovalenko) de Zaporozhye e Melitopol
tradução de monja Rebeca (Pereira)

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Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

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