“Meus esforços espirituais não realizam nada; eles apenas me conduzem ao ponto em que sei que nada posso fazer, ao ponto em que estou totalmente nu diante de Deus!” — Sacerdote Silviu Bunta
Às vezes, deparo-me com uma citação que toca meu coração tão profundamente que me tira o fôlego. A citação acima é do Padre Silviu Bunta, professor associado de Antigo Testamento no Seminário St. Vladimir, extraída de uma palestra que ele ministrou durante um retiro na Igreja Ortodoxa de Santo Atanásio, em Nicholasville, Kentucky. Naquele mesmo fim de semana, eu estava em Loveland, Colorado, apresentando uma série de palestras sobre o papel da vergonha na vida espiritual. A nudez que acompanha nossa vergonha (desde o Gênesis) é um tema que caminha lado a lado com os esforços contínuos de Deus para nos “vestir” (também desde o Gênesis). Nossa nudez não nos revela como “maus”; ela revela quem e o que realmente somos. Estranhamente, o simples fato de existirmos é algo acompanhado pela vergonha. Grande parte do que chamamos de “civilização” não passa de esforços coletivos para nos revestirmos de várias máscaras que ocultam a realidade, proporcionando-nos, em vez disso, uma cultura de faz de conta — inclusive uma espiritualidade de faz de conta.
Há alguns anos, escrevi um artigo sugerindo que o aperfeiçoamento moral é, em grande medida, um faz de conta. Nada mudou minha opinião sobre o assunto. Pelo contrário, estou cada vez mais convencido de que o caminho descrito pelo Padre Silviu é extremamente preciso. São as nossas falhas morais — quando encaradas com honestidade e humildade — que nos permitem enxergar a verdade sobre a nossa impotência e a nossa dependência absoluta de Deus. São Sofrônio descreveu isso como “suportar um pouco de vergonha”. Entre os maiores erros das falsas ideias da modernidade está a noção de nossa autossuficiência e competência moral. Esses mesmos erros nos convencem de que somos capazes de fazer pelo mundo aquilo que ele se recusa a fazer por si mesmo. Cada nova crise traz consigo um coro de vozes que exigem ação, ignorando o fato de que cada nova crise é uma acusação recorrente da nossa própria incompetência e falha moral. O ato de voltar a atenção para o mal em meu próprio coração (assim como para o bem) é criticado por alguns como “quietismo”. Em contrapartida, surgem propostas fervorosas que nos convocam à ação (escreva ao seu deputado e salve o mundo). Sentimentos e ações morais nos são apresentados com a promessa de eficácia: se um número suficiente de nós agir, mudaremos o mundo. Isso não é verdade hoje, nem nunca foi. Sei que afirmar isso contraria a religião da modernidade. Acreditar que sentimentos e ações morais de fato mudarão o mundo significa aderir ao imaginário secular — que sugere (repetidamente) que a política pode nos salvar.
Nada pode ser mais perigoso neste mundo do que um Estado “moralizado”. Quando o projeto político consiste em tornar o mundo moral, não há limites para o exercício do poder. (Como poderia haver excesso de bem?) Em nossos Estados modernos moralizados, observamos uma pressão crescente para silenciar vozes dissidentes, vistas como ameaças à ordem moral. O Estado que se atribui um papel “moral” passa a se colocar no lugar de Deus. Somente Deus é bom (não o Estado).
A tradição da fé nos recorda — como defende o Ancião Zóssima, personagem de Dostoiévski — que cada um de nós é responsável pelos pecados de todos. Soljenítsin expressou a mesma ideia ao observar que a linha divisória entre o bem e o mal atravessa o coração de cada indivíduo, e não separa grupos de pessoas. Não existem pessoas “morais” e pessoas “imorais”. Cada um de nós é culpado por todos e por tudo (como diz o Ancião Zóssima).
Essa realidade impõe um fardo profundo à alma humana. Existe uma certa liberdade (ainda que ilusória) em poder transferir a culpa para os outros e apontá-los como bodes expiatórios. Imaginamos que tornar o mundo um lugar melhor é algo que se alcança corrigindo esses “bodes” (ou livrando-se deles). Em sua essência mais profunda, tal mentalidade não passa de inveja — o “mau-olhado” — e é a raiz de todo assassinato, seja individual ou coletivo.
E quanto ao mal no mundo? O que devemos fazer?
Inverta a questão e coloque-a diante de Cristo. Faça a pergunta a Ele. Jesus é um quietista? Ele Se recusou a fazer a diferença no mundo? Um mal comum de Sua época podia ser encontrado bem perto: um soldado romano obrigando cidadãos locais (incluindo mulheres e crianças) a carregar sua mochila militar. Essa era uma prática detestada pelos zelotes judeus. O mandamento(!) de Cristo foi: “Se alguém o obrigar a caminhar uma milha com ele, caminhe duas.” (Mateus 5:41) A “milha extra” não é um pequeno esforço adicional que fazemos por um amigo; é um ato radical de não violência diante de uma opressão injusta.
Por que Jesus teria dito tal coisa? Jesus é um pacifista? Acredito que essa seria uma conclusão equivocada. Não há aceitação do mal em Seu ensino, nem existe um mandamento de não violência que se sobreponha a todos os outros. Cristo não nos ordena sermos passivos diante de uma exigência injusta. Pelo contrário, a ordem de caminhar a “milha extra” é a aplicação radical da Cruz em uma situação de injustiça prática.
A Cruz não deve ser vista como um evento de pagamento divino, um arranjo que abre caminho para irmos ao céu. Nem a Cruz deve ser reduzida a uma mera disposição de sofrer pacientemente. A Cruz é um modo de vida e nos é constantemente apresentada ao longo de todo o Novo Testamento. Ela é a marca singular do cristão: “Aqueles que quiserem ser Meus discípulos devem tomar a sua cruz e seguir-Me.”
O que é a Cruz? A Cruz é ironicamente descrita nos hinos ortodoxos como a “Arma da Paz”. Embora possa parecer passiva aos olhos de observadores externos, ela é a ação de poder mais singularmente “ofensiva” à nossa disposição. A Cruz triunfa até mesmo sobre a morte. A Cruz é a nossa união de autovaziamento com Cristo Crucificado, na qual nos oferecemos “em nome de todos e por todos”. Ela é, ao mesmo tempo, oração e a moldagem interior de nossas respostas externas. Quando amaldiçoados, abençoamos. Quando golpeados, oferecemos a outra face. Não são ações simbólicas, mas atos de supremo poder espiritual que neutralizam o veneno gerado pelas ações malignas dos outros. São ações que “expiam”, no sentido de promoverem uma “reconciliação” — um tornar-se “um” — entre uma situação e Deus. A bondade, em qualquer aspecto, só pode surgir por meio da união com Deus, pois Ele é a única fonte de bondade.
O hesicasmo (o caminho do silêncio e da oração) não se confunde com o Quietismo ocidental (o simples não fazer nada). Ele é, na verdade, o próprio coração da vida espiritual ortodoxa, pois consiste na união interior com a vida ativa da Cruz. Aqueles que imaginam (ou acusam) tal prática de ser um modo de vida passivo apenas demonstram que ela lhes é estranha. Era comum, entre os Padres do Deserto, observar que Deus preservava o mundo graças à vida e às orações de apenas alguns poucos justos. Eles serviam como os “justos em meio a Sodoma”. Os críticos atuais do hesicasmo imaginam que o mundo é preservado por aqueles que possuem exércitos, assistentes sociais e armas nucleares, aliados aos seus compromissos “morais”.
Ó Deus, salva o Teu povo!
E abençoa a Tua herança.
Concede vitórias ao povo ortodoxo
Sobre os seus adversários.
E, pelo poder da Tua Cruz,
Preserva a Tua habitação.
Ao final, aprendemos que “nada podemos fazer”. No entanto, em união com Cristo, tudo podemos. Por Sua Cruz — mediante a qual reunimos em nós mesmos o mundo inteiro, o bem e o mal, os justos e os injustos, oferecendo-nos “em favor de todos e por todos” — refugiamo-nos na única vida que dá vida. Nenhum projeto moral, por mais bem-intencionado que seja, pode fazer o mesmo. Que Deus nos conceda a graça de abraçar tal fraqueza.
Sacerdote Stephen Freeman
tradução de monja Rebeca (Pereira)







