AS POTÊNCIAS CELESTES ESTÃO PRESENTES CONOSCO NA IGREJA!

HOMILIA NA FESTA DA SANTA PROTEÇÃO

Que esta festa seja uma das mais jubilosas — pois ela manifesta a intercessão da Mãe de Deus por nós junto a Deus —; que, por esse mesmo motivo, devamos dedicar o dia de hoje a obras de piedade e amor cristão, a fim de nos tornarmos dignos da proteção da Santíssima; e que todos aqueles que negligenciam a própria salvação — enquanto não se emendarem — não podem nutrir qualquer esperança legítima de que Ela interceda por eles junto a Deus: estas verdades, importantes e necessárias, são, sem dúvida, conhecidas, em maior ou menor grau, por cada um de nós. Voltemos, portanto, nossa atenção para outro ponto: para a própria imagem da Proteção da Mãe de Deus, a fim de verificar se nela podemos encontrar algum novo ensinamento.

Lembrai-vos, irmãos, de como ocorreu o glorioso acontecimento que celebramos? A habitual Vigília de toda a noite, própria de um sábado, estava sendo celebrada na Igreja de Blaquerna, em Constantinopla; entre os presentes, encontrava-se Santo André, o “louco por Cristo”. Em meio aos hinos e orações, na quarta hora da noite, este homem de Deus contemplou, de repente, no ar, a Mãe de Deus, acompanhada pelo Precursor de Cristo e por São João, o Teólogo, além de uma multidão de anjos e santos. Ela intercedia pela humanidade, cobrindo o povo reunido na igreja com o Seu puríssimo omoforion. Transbordando de alegria espiritual, o vidente voltou-se para o seu amigo e discípulo em espírito, Santo Epifânio, e perguntou-lhe se ele via o milagre. “Vejo, pai”, respondeu Epifânio, “e estou tomado de temor”. Ao tomarem conhecimento do milagre, os demais presentes na igreja foram arrebatados por um tremor de alegria. Com o coração compungido, começaram a agradecer a Deus e a glorificar a Protetora de todos; o piedoso imperador Leão e o santo patriarca Tarásio instituíram, então, uma comemoração anual deste acontecimento consolador.

O primeiro ponto em que devemos deter a nossa atenção é a própria aparição da Mãe de Deus, acompanhada pelos anjos e santos.

Não é, portanto, em vão que cremos que os seres celestiais participam ativamente dos acontecimentos do mundo humano — que os nossos irmãos mais velhos, no céu, zelam pela salvação de nós, pequeninos, aqui na terra! Para que outra finalidade utilizariam eles o seu poder e a sua proximidade junto ao trono da graça, senão para socorrer a nós, que lutamos em meio ao mar de infortúnios e preocupações mundanas? Se nós, apesar de toda a frieza dos nossos corações terrenos, não conseguimos contemplar os menos afortunados sem sentir compaixão e sem lhes estender a mão, como poderiam os seres celestiais permanecer como meros espectadores passivos da nossa pobreza espiritual e corporal, sem estender sobre nós o seu manto abençoado?

Não é em vão, portanto, que cremos que as Potestades Celestiais estão presentes conosco na igreja! Onde poderiam estar de forma mais constante senão ali, onde o seu Rei e Senhor está presente de modo especial? Não as vemos, pois o esplendor da glória celestial é insuportável ao olho mortal; contudo, elas nos veem, bem como tudo o que possuímos — até mesmo os nossos pensamentos e desejos. Chegará o tempo em que as veremos. Se formos considerados dignos, entraremos em sua comunhão resplandecente. Até lá, devemos crer em sua presença invisível e, nessa fé, frequentar a igreja o mais assiduamente possível. Mas, se desejamos estar na igreja junto aos anjos, então, irmãos, devemos também permanecer na igreja como os anjos, “deixando de lado todas as preocupações terrenas”. Caso contrário, o tentador poderá surgir até mesmo no Paraíso; e, mesmo no Paraíso, poderemos atrair sobre nós a terrível sentença: “Certamente morrerás!” (Gn 2,17).

O segundo aspecto digno de piedosa atenção na aparição da Mãe de Deus é a maneira como Ela surgiu, nos ares, diante daqueles que A contemplavam. Sendo a Mãe do Rei Celestial, poderia ter aparecido sentada em um trono, derramando bênçãos sobre a humanidade a partir de sua elevada posição; contudo, ela aparece em oração! Por quê? Compreendamos que há um único Soberano supremo sobre todas as coisas — no céu e na terra, no tempo e na eternidade —: Deus Pai! Há um único Redentor, o Arauto da vontade divina, Legislador e Juiz, que tem o poder de salvar e de destruir (Tg 4,12): Deus Filho! Há um único Consolador e Doador de dons repletos de graça, Santificador dos pecadores arrependidos: Deus Espírito Santo!

E quanto à Virgem Santíssima? Ela é a herdeira preeminente da graça e a primeira intercessora, junto ao trono d’Ele, em favor da humanidade. Quem Lhe dirige orações com esse espírito estará agindo em conformidade com o desejo d’Ela. Pelo contrário, honrar Seu nome de maneira excessiva — a ponto de compará-lo ao nome de Deus, em detrimento do respeito que devemos ao nosso Criador e Redentor — não é honra, mas sim um insulto Àquela que, ao autodenominar-se “serva do Senhor” (Lc 1,38) enquanto estava na Terra, certamente não abandonou essa humildade no Céu. “Não faças isso!”, disse certa vez o anjo ao apóstolo João — que provavelmente o confundira com o Deus-Homem e desejava prestar-lhe uma honra divina. “Não faças isso! Sou teu conservo… Adora a Deus” (Ap 22,9). A Santíssima Virgem dirá o mesmo — e com ainda mais ênfase — àqueles que, por falta de discernimento, venham a prestar-lhe uma adoração equivalente à que é devida a Deus.

Mas será que hoje precisamos nos preocupar, de modo especial, com um zelo excessivo pela Santíssima Virgem? Infelizmente, em nossos tempos, deveríamos temer, na verdade, a falta dele! A própria Mãe oferecerá ao Filho, em nosso nome, aquilo que Lhe pertence. Aprendamos, antes, com Ela aquilo de que mais necessitamos: a oração.

Se nada pode ser realizado no céu sem a oração — se até mesmo Aquela que é mais honrada que os Querubins e incomparavelmente mais gloriosa que os Serafins necessita da oração —, quão necessária, então, não é a oração para nós, irmãos! Portanto, quanto perdem aqueles que negligenciam esse dom de Deus! E muitos o negligenciam! Há pessoas que não rezam de modo algum. Outras rezam, mas por obrigação, com dificuldade. Para elas, a oração parece um tributo pesado, como um trabalho forçado imposto por um senhor. E, de fato, é difícil rezar quando não se sente a necessidade disso, quando não se sabe por que rezar nem o que pedir.

Mas de quem é a culpa se o maná celestial se torna amargo em nossa boca? A verdadeira oração é doce e nutritiva; não há quem reze que não tenha experimentado essa doçura. Se a oração se torna amarga, é porque o nosso paladar espiritual está corrompido. É-nos difícil elevar os olhos ao céu porque eles estão cobertos pela poeira das preocupações terrenas. Assim como alguém que padece de fome clama por alimento ao ver outra pessoa, e alguém que se afoga agarra-se a qualquer objeto — ainda que inanimado —, da mesma forma, quem sente fome espiritual percebe seus lábios se abrindo espontaneamente em oração; quem se vê no abismo dos pecados sente seus olhos e mãos se elevarem, involuntariamente, em direção ao céu.

Como podemos despertar em nós mesmos o sentimento dessa fome, desse perigo? Como podemos nos levar a enxergar a necessidade de Deus? Prestando muita atenção a nós mesmos e às nossas vidas. Tente refletir por algumas horas — para não dizer dias — sobre como viemos ao mundo, por que existimos nele e o que nos aguarda para onde iremos depois. Tal reflexão não pode deixar de culminar com o nosso olhar voltado para o céu, com um suspiro profundo diante do Deus Onisciente, que mantém a nossa existência e a nossa vida em Sua mão destra. Quanto mais você repetir essa boa experiência — refletindo sobre o seu destino eterno, examinando a sua vida e reconhecendo os seus pecados e a sua impureza —, mais sentirá a necessidade do auxílio e da misericórdia celestiais. A oração tornar-se-á mais necessária e mais agradável; com o tempo, você adquirirá aquela santa disposição de estar sempre na presença de Deus — o que o Apóstolo chama de oração incessante (1 Ts 5,17).

Voltemos agora o nosso olhar para aqueles que foram considerados dignos de contemplar a Proteção da Santíssima Virgem. Havia muitas pessoas na Igreja de Blaquerna: o imperador, tido como sábio por seu vasto conhecimento; o Patriarca, mais tarde canonizado por sua vida santa; e diversas personalidades ilustres e abastadas. Contudo, nenhuma delas percebeu o que ocorria nos ares; apenas André e Epifânio — homens de condição humilde, frequentemente desprezados por muitos durante a sua vida terrena — foram considerados dignos de testemunhar o milagre. O céu está próximo e aberto a todos os que são dignos, por mais insignificantes que possam parecer aos olhos dos homens!

Nada, nas circunstâncias daquela aparição, sugere que Ela tenha sido revelada aos santos videntes de uma maneira especial, vinda do alto, ou que os seus olhos espirituais tenham sido abertos para a ocasião por meio de um poder extraordinário de Deus. Foi, na verdade, a vida ascética e a abnegação constante que refinaram de tal modo os seus sentidos espirituais, que a presença dos seres celestiais não pôde permanecer oculta a eles. É, via de regra, o que ocorre com os grandes ascetas: poucos deles carecem do dom da visão espiritual — dom que pertence a todos os seres humanos, mas que, nos não regenerados, encontra-se sufocado pelo peso da carne.

Um traço particularmente notável de Santo André é o fato de ele ter sido um «louco por Cristo»; isto é, por amor a Cristo, ele aparentava estar desprovido de razão. E eis que é justamente esse homem, desprovido de razão, quem primeiro contempla aquilo que transcende toda a razão! Não tiremos disso nada que deprecie a mente humana — faculdade concedida por Deus e verdadeiro ornamento de nossa alma —, nem extraiamos conclusões desfavoráveis ​​ao conhecimento humano; pois este, igualmente proveniente de Deus e santificado pela graça, não apenas contribui para o bem-estar terreno, como também nos auxilia na caminhada rumo ao Céu. Não podemos, contudo, deixar de notar aqui o que foi observado tantas vezes e que se encontra impresso com tamanha força na Palavra de Deus: que a sabedoria humana, devido aos seus erros quase constantes, é considerada por Deus como loucura (1 Co 1,20) e, portanto, está condenada à destruição (1 Co 1,19)!

Há algo na sabedoria terrena que a torna quase incapaz de receber percepções que vêm do alto; existe um lado sombrio na mente humana decaída que é hostil ao céu. O que seria isso? O que torna a sabedoria terrena — que, em si mesma, deveria ser louvável — algo que desafia a Deus? O que faz com que a razão humana, que por natureza possui um caráter divino, torne-se inadequada? Onde está a origem do mal? Naquilo que o Apóstolo chama de conhecimento que “incha” (1 Co 8,1), ou seja, a arrogância. Ao ser preenchida pela luz do saber, a mente começa, naturalmente, a brilhar; contudo, esse brilho — dada a fragilidade da visão intelectual no ser humano decaído — acaba, na maioria das vezes, por cegá-lo. Em vez de contemplar a luz na luz de Deus, com gratidão e humildade, a mente passa a acreditar que o brilho que ela emana é, na verdade, seu próprio.

Daí surge a perigosa sensação de autossatisfação e o esquecimento da nossa própria indigência; segue-se uma usurpação da onisciência, acompanhada de resistência às revelações e aos mistérios divinos; depois, o esquecimento de Deus, o desprezo pela Igreja e o desrespeito pela ordem social; em seguida, o enfraquecimento da consciência e a escravidão à sensualidade; surgem, então, dúvidas quanto às coisas sagradas — inclusive sobre aquilo que constitui a própria dignidade da natureza humana. Aqueles que começaram imaginando saber tudo e estar acima de tudo, frequentemente terminam por duvidar da sua própria existência, colocando-se no mesmo patamar dos animais irracionais! Assim, a sabedoria terrena torna-se loucura e autodestrói-se, mesmo antes de ser aniquilada pelo Deus do conhecimento (1 Sm 2,3).

Será, então, de se admirar que tal sabedoria esteja condenada à ruína? Embora essa progressão do conhecimento para a impiedade seja, por si só, algo antinatural — visto que a luz terrena deveria conduzir à Luz Celestial, e a mente humana deveria voltar o homem para a mente de Deus —, a corrupção dos seres humanos quase sempre produz o resultado oposto. Em vez de tentar discernir, de forma infrutífera, o que na sabedoria humana merece ser preservado e o que não merece, Deus estabeleceu esta regra: todo aquele que deseja a salvação deve renunciar à sabedoria terrena e tornar-se um “louco” por amor a Cristo. Se alguém entre vós se tem por sábio neste mundo, torne-se louco, para se tornar sábio (1 Coríntios 3:18).

O consentimento ou a recusa em renunciar à nossa própria sabedoria — sendo uma condição para a salvação — constitui também um sinal inconfundível de se alguém possui uma sabedoria verdadeira ou falsa. Aqueles que possuem a sabedoria verdadeira prontamente a trocam pela sabedoria da graça, estando sempre dispostos a tornar suas mentes cativas, em obediência à mente de Deus; por outro lado, aqueles cuja sabedoria padece da enfermidade da arrogância acharão extremamente difícil abrir mão dela. Contudo, esse ato de desapego pode manifestar-se de forma explícita ou oculta. Vemos a forma explícita nos “loucos por Cristo”: eles renunciaram completamente às suas próprias mentes — uma forma elevada de ascetismo, acessível a poucos. Isso ocorre não apenas porque é extremamente difícil, para nossos corações voltados ao amor-próprio, aceitar parecer desprovidos de razão, mas também porque, em tal ascetismo, o homem oscila constantemente entre dois perigos: trair o santo voto da loucura por amor a Cristo, ou violar o dever de amor ao próximo — seja escandalizando-o, deixando de oferecer-lhe um conselho necessário ou de qualquer outra maneira.

Mas também é possível ser um “louco por Cristo” sem parecer desprovido de razão, fazendo uso, inclusive, de todas as riquezas da sabedoria humana. O apóstolo Paulo foi um “louco por causa de Cristo” (1 Cor 4,10), mas pregou no Areópago! São Basílio, o Grande, São Gregório, o Teólogo, e São João Crisóstomo foram luminares de sua época e, ainda assim, não eram estranhos à “loucura por Cristo”. Tudo isso ocorre por meio da humildade em nome de Cristo; a humildade reconcilia a sabedoria terrena com a loucura por Cristo. Aqueles que são guiados pela humildade encaram todo o seu conhecimento, primeiramente, como um dom imerecido de Deus — razão pela qual não têm motivos para se vangloriar. Além disso, a própria sabedoria terrena, quando segue o seu curso correto, acaba por conduzir o indivíduo aos limites do conhecimento humano. Incapaz de ultrapassar essa fronteira, mas sentindo a necessidade de ir além, ela entrega o seu discípulo à fé; ou seja, cede o seu lugar à santa loucura de Deus (1 Cor 1,25).

Diante de homens como esses — sábios aos olhos do mundo e, simultaneamente, loucos aos olhos de Deus —, os mistérios do mundo espiritual foram revelados, como atestam as suas hagiografias, com a mesma naturalidade com que foram revelados àqueles que, por amor a Cristo, pareciam, aos olhos do mundo, completamente destituídos de juízo.

Poderíamos abordar, ainda, outros aspectos da aparição milagrosa da Santíssima Virgem, que celebramos neste momento: por que, por exemplo, a visão não foi percebida por alguém como o Patriarca Tarásio? Por que São André, ao contemplar a visão, sentiu-se repleto de alegria, enquanto São Epifânio foi tomado pelo temor? Eis um ponto para a reflexão de cada um de vocês. O propósito dos ensinamentos cristãos não deve ser o de transmitir tudo o que é possível sobre um determinado tema, mas sim o de despertar a reflexão naqueles que ouvem. Aqueles que acrescentam a sua própria reflexão ao que escutam extraem muito, mesmo de pouco; já aqueles que apenas ouvem, sem qualquer reflexão, acabam por considerar inútil até mesmo o que é abundante.

Portanto, em vez de uma conclusão, aceitem o meu pedido de que deem continuidade a isso com a sua própria reflexão.

Que a bênção do Senhor sobre uma obra tão boa esteja com todos vocês!

Amém.


Santo Inocêncio de Chersonege
tradução de monja Rebeca (Pereira)

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Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

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