Que tipo de pessoa faz isso?
Essa é uma pergunta simples — uma que toca o cerne do pensamento moral ortodoxo. Para alguns, a “moralidade” é uma questão do que é certo e do que é errado. A perspectiva ortodoxa é muito mais profunda: saber distinguir o certo do errado tem pouca utilidade, a menos que você seja o tipo de pessoa que quer e é capaz de fazer o que é certo. A moralidade revela-se, então, uma questão de caráter, e não uma construção jurídica (surpresa!). Isso aponta para o problema mais profundo da catequese: saber o que fazer não é o mesmo que tornar-se o tipo de pessoa capaz de fazê-lo.
Ao ler as *Catequeses* de São Cirilo de Jerusalém (meados do século IV), descobre-se que elas possuem um caráter fortemente moral. A “teologia” é bastante simples e direta. O longo período de catequese (muitas vezes com duração de três anos) visava transformar pagãos romanos em cristãos crentes. Os hábitos do coração (outro termo para “caráter”) levam tempo para mudar ou ser formados. Eles são, de fato, o produto de uma vida inteira.
Agora, já na casa dos setenta anos, posso olhar para trás e observar a formação do meu caráter ao longo das décadas. Não é sempre uma retrospectiva agradável, nem é um processo que tenha chegado perto de uma conclusão. Muita coisa que me parece clara agora só começou a ganhar nitidez quando eu já estava na casa dos sessenta anos.
Quem acompanha meus escritos sabe que costumo falar sobre as “feridas” da alma. Minha compreensão desses assuntos baseia-se na própria vivência. O período que vai da infância à adolescência é fundamental para a formação do caráter. Com frequência, essa fase é marcada por episódios dolorosos. Meu livro sobre a vergonha (*Face to Face: Knowing God Beyond Our Shame*) é, em certa medida, uma exploração dessas feridas e dos mecanismos subjacentes a elas. O conceito de “vergonha tóxica” refere-se, precisamente, a uma experiência de vergonha intensa o suficiente para gerar transtornos de personalidade — manifestações do eu moldadas pela ferida (uma espécie de mecanismo de autoproteção).
A vergonha é uma experiência universal, embora a vergonha tóxica o seja em menor grau (graças a Deus). No entanto, ela faz parte de um conjunto de feridas que tendem a alimentar o que classicamente chamamos de “pecados de estimação” — aqueles hábitos de personalidade que geram problemas “morais” (seja em que nível for). Tais feridas contribuem para consolidar um “caráter” do qual gostaríamos muito de nos livrar (ou que desejaríamos reformar).
Quando falamos em “teosis”, imagino que seja exatamente esse tipo de coisa que a maioria das pessoas tem em mente. Queremos ser “uma versão melhor de nós mesmos”. Minha própria experiência (especialmente como confessor) mostra que, de modo geral, nossas lutas persistem ao longo dos anos. Muitas vezes, suas origens permanecem desconhecidas e, salvo pela Confissão repetida dos mesmos pecados, elas continuam sem cura.
O caráter é algo profundo.
Suspeito também que não sabemos qual será a nossa aparência quando a “teosis” estiver completa. Para começar, não creio que seja alguma versão de nós mesmos desprovida de nossas feridas (o que, a experiência me ensina, é uma das nossas fantasias mais queridas).
Há um caráter — a palavra grega remete à marca deixada por um selo em cera macia — que está sendo impresso em nós; ele não destrói a experiência de toda uma vida, mas a transforma. Até mesmo o pecado (que nos fere tão profundamente) é transformado. Deparei-me recentemente com um eco desses pensamentos ao ler a mística medieval ocidental Juliana de Norwich: “É por meio deste remédio [Confissão e Penitência] que toda alma pecadora precisa ser curada, especialmente dos pecados que são, em si mesmos, mortais. Embora alguém carregue as cicatrizes de feridas curadas, quando essa pessoa se apresenta diante de Deus, tais marcas não a desfiguram, mas a enobrecem…”
A recompensa que receberemos lá não será pequena, mas grande, esplêndida e gloriosa. E assim, toda vergonha se transformará em glória e em alegria ainda maior.
A história de um Santo não está completa se omitir seus pecados e falhas. São Pedro não seria o mesmo sem sua jactância e impetuosidade, sua negação de Cristo, sua discussão vergonhosa com Paulo e sua aceitação final do martírio. Dois mil anos depois, ainda recordamos e narramos essas histórias, ao mesmo tempo em que celebramos em hinos a sua glorificação.
Nada se perde na glória de Deus.
Nós, pessoas modernas, fomos criados no coração de um grande projeto, e a marca de “gerentes de projetos” foi profundamente gravada em nós. Esperamos que a nossa própria salvação seja uma espécie de projeto e que nós devamos ser os seus gerentes. Como é frustrante ouvir que “ainda não se manifestou o que havemos de ser”. Como podemos gerenciar o projeto da nossa salvação se não sabemos para onde estamos caminhando? Como podemos saber se estamos mais perto? Nossa mentalidade moderna foi moldada para esperar um movimento ascendente — o progresso. Mas São Sofrônio ensinou que “o caminho para cima é o caminho para baixo”.
Dois pensamentos me ocorrem ao considerar esse caminho de salvação não moderno. O primeiro é que nossos instintos resistem ao “caminho para baixo”. São Sofrônio refere-se ao caminho da humildade, descrito como “suportar um pouco de vergonha”. Nossos instintos resistem à vergonha. Imagino que vislumbrar um caminho que consiste em passar de um pouco de vergonha para outro pouco de vergonha seria insuportável (para mim, é). Em Sua misericórdia (este é o segundo pensamento), Cristo nos diz para “não nos preocuparmos com o dia de amanhã”, acrescentando que “a cada dia basta o seu mal” (Mt 6,34).
Em meus escritos, tenho sugerido que “façamos a próxima coisa boa”. Essa é uma maneira positiva de manter o foco no que é pequeno e imediato. Da mesma forma, devemos resistir à tentação de transformar Cristo em um objetivo distante ou em um ponto de chegada final. Cristo é o próximo ponto, o Bem na próxima coisa boa.
Tudo vai bem.
Sacerdote Stephen Freeman
tradução de monja Rebeca (Pereira)







