APOCALIPSE: REMOVENDO O VÉU – PARTE IV

POIS O TEMPO ESTÁ PRÓXIMO…

Em questões de fé que nos são transmitidas por meio da palavra de Deus, por meio das Sagradas Escrituras, podemos ser absolutamente firmes. Deus o diz, o Evangelho o diz, Cristo o diz — não há o que discutir. “Amarás o Senhor, teu Deus” (Mc 12,30) — não sou eu quem diz, é Deus. Posso me equivocar em minhas palavras; você pode contestar-me. Sou um ser humano, e é muito provável que eu cometa erros. Todos nós precisamos aceitar que cometemos erros — tanto em nós mesmos quanto nos outros. Não se surpreenda tanto quando alguém cometer um erro. Não há nada de surpreendente nisso. A natureza humana é imperfeita; portanto, é próprio dela cometer erros, pecar e apresentar falhas.

Os verdadeiros servos de Deus podem ser reconhecidos pela humildade (o selo da verdade é a humildade) e pela pureza de coração. Assim, o homem aceita o que Deus diz; ele acolhe a revelação divina com um coração puro e humilde. Deus concedeu uma revelação a Jesus Cristo para mostrar aos Seus servos o que aconteceria em breve. Alguém poderia perguntar: “Então, tudo isso vai acontecer. E por que precisamos saber que isso vai acontecer? Como devemos enfrentar isso? Pode chegar o dia em que comecem a impor às pessoas o selo do Anticristo, o número 666; e quem não tiver esse selo não poderá fazer nada — nem comprar, nem vender, nem se locomover, e assim por diante. De qualquer forma, isso vai começar. E o que devemos fazer? Lutar? Resistir?”

Tudo isso acontecerá, mas não devemos baixar a cabeça e nos comportar como um cordeiro levado ao matadouro (Is 53,7); não devemos aceitar tudo isso de forma negligente. Cada um de nós é responsável por si mesmo. É importante mantermos a nossa consciência e não aceitarmos o que não é bom, segundo os ensinamentos do Santo Evangelho e das Sagradas Escrituras. O fato de que isso inevitavelmente acontecerá não significa que devamos simplesmente aceitar tudo.

E, certamente, isso não significa que aqueles que agem sejam instrumentos nas mãos de Deus — como ocorre, por exemplo, em tempos de perseguição. Houve perseguições nos primeiros séculos da Igreja: cristãos foram perseguidos, milhões de pessoas foram torturadas durante os três primeiros séculos. Nero matou milhares de cristãos. Mas o fato de ele ter destruído tantos cristãos — fazendo com que o Paraíso se enchesse de santos — não significa, de modo algum, que Nero tenha sido um instrumento da providência divina e que ele também irá para o Paraíso. Não. Ele pôde encher o Paraíso de mártires, mas ele próprio irá para o inferno por tê-los matado. Aqueles que realizam as obras de Satanás — atos malignos, obras que não provêm de Deus — não se tornam justificados pelo simples fato de que, indiretamente, contribuíram para a salvação de outros, participando da providência divina.

Muitos dizem a respeito de Judas: “Que culpa tem Judas? Afinal, estava previsto que Cristo seria traído. Ele serviu exatamente ao plano de Deus. De que é culpado esse pobre homem?”. Mas não é bem assim. Judas não agiu dessa forma apenas porque estava planejado. O fato de uma profecia ter sido registrada há muito tempo não significa que ela precise se cumprir por si mesma; na verdade, ela foi escrita porque ele traiu. Foi algo previsto. As profecias existem porque certos eventos hão de ocorrer — e não o contrário, como se, pelo simples fato de existir uma profecia, o evento tivesse de acontecer obrigatoriamente. Aqueles que contribuem para a realização do que foi previsto — e que cometem tais atos — carregam total responsabilidade por suas ações. Aqueles que, no futuro, destruírem o universo e puserem fim a este mundo serão, de fato, responsáveis ​​por isso. Não se pode dizer que eles cumpriram o plano de Deus. Você é responsável pelos crimes e pelo mal que comete. E os profetas simplesmente previram isso.

Quero que você compreenda esta sutileza a respeito das profecias de Deus. Deus não determina o que acontecerá; pelo contrário, porque algo vai acontecer, Deus o prediz para evitar que as pessoas sigam esse caminho e para protegê-las. Cristo tentou impedir Judas muitas vezes — como sabemos pelo Evangelho — para que ele não cometesse esse mal, mas Judas quis fazê-lo. Ele é responsável por isso e pela forma como terminou sua vida.

Assim, as palavras sobre o que “deve acontecer em breve” (Ap 1,1) significam que tais coisas ocorrerão — e é por isso que estão sendo registradas. Contudo, aqueles que participarem e cometerem esse mal arcarão com total responsabilidade.

“Em breve” — o que isso significa? Tudo acontecerá em um único dia? Precisamos entender que Deus age fora do tempo, e os eventos do Apocalipse não se referem apenas aos “tempos do fim”. O livro descreve acontecimentos que já haviam ocorrido quando foram relatados pelo santo Apóstolo João, bem como aqueles que viriam a ocorrer mais tarde. A Igreja sempre viveu na expectativa da ressurreição dos mortos, do “último dia”. Lemos: “Vem, Senhor Jesus!” (Ap 22,20). A Igreja vive na expectativa da Vinda de Cristo, na expectativa da chegada do Reino de Deus. “Venha o Teu Reino” (Lc 11,2), dizemos em nossas orações. Pedimos pelo Reino de Deus, tanto em nossos corações quanto de modo geral. Cada pessoa na Igreja aguarda a vinda do Reino de Deus. Não se sabe quando isso acontecerá. E, por mais que tentemos calcular prazos, não teremos sucesso — Deus jamais nos revelará isso, pois Ele não age movido pela curiosidade humana, mas de uma maneira completamente diferente.

Ele o manifestou por meio de Seu anjo ao Seu servo João (Ap 1,1). Deus mostrou tudo isso ao servo de Deus, João, por intermédio de um anjo. João era um servo fiel de Deus — humilde, puro, irrepreensível —, possuindo tudo o que é necessário para que um homem receba uma revelação divina. Ele deu testemunho da palavra de Deus, do testemunho de Jesus Cristo e de todas as coisas que viu (Ap 1,2). O apóstolo e evangelista João testemunhou o que viu, o que sentiu, o que vivenciou junto a Cristo e a respeito da palavra de Deus.

E, então, ele diz: Bem-aventurado aquele que lê, bem como aqueles que ouvem as palavras desta profecia e guardam as coisas que nela estão escritas, pois o tempo está próximo (Ap 1,3). Isso significa que o Apocalipse foi escrito para ser lido pelas pessoas. Bem-aventurado aquele que lê. Bem-aventurados e felizes são aqueles que leem e estudam o livro do Apocalipse e as Sagradas Escrituras, bem como aqueles que escutam o ensino e a interpretação da palavra desta profecia. Portanto, não há nada de errado em ler as palavras da profecia. Basta que isso seja feito corretamente: com espírito de humildade e disposição para aprender, seguindo as interpretações dos Santos Padres da nossa Igreja, com o único propósito de observar o que ali está escrito. Não devemos ler para satisfazer nossa curiosidade, como fazem as pessoas que adoram ler horóscopos para saber o que devem fazer hoje ou amanhã. Algumas pessoas — muitas vezes até sérias — não conseguem viver sem ler o seu horóscopo. É curioso notar que diferentes jornais publicam horóscopos distintos que não coincidem entre si, obrigando a pessoa a escolher qual deles ler. Que bobagem!

Pois o tempo está próximo. Você pode dizer: “Pai, já se passaram 2.000 anos e o fim ainda não chegou”. De fato, ainda não chegou. Poderiam passar outros 2.000 anos e ele ainda não chegar. Mas é absolutamente certo que o fim virá. Daqui a 5, 10 ou 100.000 anos, ele virá. Não há dúvida quanto a isso. Pode ser que você não viva até esse momento, mas chegará a hora em que você deixará este mundo. Portanto, é importante ler e guardar o que está escrito no Apocalipse — não porque você vá, necessariamente, presenciar esse dia pessoalmente. Alguns viverão para ver e encontrar o anticristo, e testemunharão tudo o que ali está escrito. Mas nós, que provavelmente não estaremos vivos naqueles tempos, precisamos lidar, dia após dia, com diferentes acontecimentos — reconhecendo aqueles que provêm do espírito do anticristo, os quais surgem da transgressão dos mandamentos, do pecado e da renúncia a Deus. Há muitos eventos ao nosso redor que nos desafiam e nos incitam a violar os mandamentos de Deus.

Ao chegarmos ao fim de nossas vidas — ao nosso fim biológico —, nos depararemos com tudo o que fizemos e pensamos. Nossa vida, queiramos ou não — infelizmente (ou talvez felizmente) —, tem um limite, um fim. E, um dia, esse fim chegará. Às vezes chega mais cedo, às vezes mais tarde; mas, de uma forma ou de outra, ele virá. Pois o tempo está próximo. Pode-se argumentar que não viveremos para ver o anticristo, mas a hora de nossa partida deste mundo chegará; momento em que estaremos diante de Deus e veremos o que fizemos — e o que deixamos de fazer. Não devemos viver sob medo ou opressão. O Apocalipse e o Evangelho não foram escritos para nos intimidar ou para nos forçar a crer em Deus por medo — é um erro crer em Deus apenas por receio. Eles foram escritos para que amemos a Deus e creiamos n’Ele de verdade, com amor. pois ali vemos como Deus ama o mundo, e que Ele preparou para nós a possibilidade de vivermos com Ele na eternidade. Deus nos chama para o Reino Eterno e para a manifestação eterna do Seu amor.


Metropolita Atanasios de Limassol
tradução de monja Rebeca (Pereira)

Facebook
Twitter
WhatsApp
Telegram
Picture of Aurora Ortodoxia

Aurora Ortodoxia

Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

Picture of Aurora Ortodoxia

Aurora Ortodoxia

Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

5 visualizações

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Recentes