Lemos a última página do livro sagrado, cujo conteúdo exala inocência e piedade do começo ao fim. Ao simples olhar para este livro, até mesmo os críticos mais cruéis, carregando o peso do preconceito e da parcialidade, pararam em silêncio e, após lê-lo do início ao fim, partiram com os corações suavizados e os espíritos renovados. Fechado agora está o livro que começou com as palavras: “Na cidade judaica de Nazaré viviam o ancião Joaquim e sua esposa Ana, que não tinham filhos…”
Quão brilhantes são as primeiras páginas desta história, verdadeiramente iluminadas por este terno e sereno rubor do sol poente, de modo que, após a noite, possa brilhar no oriente. Quem não se alegra com a felicidade deste casal idoso, que os visitou apenas em sua partida deste mundo para acrescentar uma gota de mel à sua vida tão envenenada pela tristeza?
As almas de Joaquim e Ana se encheram de uma alegria paradisíaca indizível ao verem sua pequena Filha entrar no templo de Deus acompanhada por Suas amigas, sendo recebida com uma saudação modesta, porém solene. A alegria dessas almas idosas e piedosas era ainda mais pura e perfeita porque esses pais nem sequer suspeitavam que aquele seria o primeiro e o último momento de alegria para seu fruto tão desejado. A jovem Maria ficou órfã ainda jovem, sem pai nem mãe. Por sua piedade, Deus poupou Joaquim e Ana, para que não vivessem para ver a ininterrupta sequência de calamidades e sofrimentos que sua filha teria que enfrentar para alcançar Sua recompensa, verdadeiramente grandiosa e inatingível por qualquer outra: sua Filha seria chamada a Mãe do Filho de Deus.
Joaquim e Ana repousaram, confortados por terem deixado sua Filha sob a proteção do templo, sob o escudo de Deus. Quem, então, poderia ter previsto a vida turbulenta dessa jovem que passou toda a Sua juventude no templo, em paz, jejum e oração? Contudo, as tempestades do mar da vida dilaceraram impiedosamente Esta órfã, arrastando-A para terras desconhecidas, mergulhando-A à força da inspiração no medo e vice-versa. O choque da súbita anunciação do anjo sobre a grande misericórdia de Deus e a designação desta Virgem para dar à luz o Salvador do Mundo teria sido mais do que suficiente para esta terna alma virginal.
Mas para Maria estavam preparadas provações muito mais árduas, que poderiam ter quebrado até o espírito mais forte e esmagado a maior coragem. Após Seu primeiro sorriso materno para o Seu Divino Filho, que alegrou a Sua alma [exausta] pelo alarme e pela difícil passagem pela escuridão da noite e da chuva, Ela teve que fugir rapidamente [da Palestina para o Egito] sem olhar para trás, a fim de salvar o Seu precioso e altíssimo Filho. Foi precisamente assim, pois o Rei Herodes temia o Seu Filho que jazia na palha, e a inveja humana privou o Filho de Deus de toda a paz, mesmo na gruta, aquele humilde refúgio.
Dominada pelo medo e pelo tremor, Ela fugiu pelas planícies da Palestina, agarrando Seu filhinho junto ao peito, incansavelmente correndo dia e noite por florestas e desertos, sem conhecer estradas nem caminhos, apenas para salvá-Lo da espada dos executores do rei. De fato, não vacilou nem fraquejou ao longo do caminho, nem desmaiou de ansiedade e exaustão, encorajando-se com o pensamento de que o Senhor Deus é o grande Rei sobre todos os deuses e que em Suas mãos estão os altos montes e os vales da terra (cf. Sl 49,1; 45,3-4), pois desde tenra idade havia implantado em Sua alma o ensinamento do sábio Pregador: Lembra-te do teu Criador nos dias da tua mocidade, antes que venham os maus dias, e cheguem os anos em que dirás: Não tenho neles prazer (Ec 12,1).
Ela suportou tudo isso com fé em Deus e nem sequer suspeitou que o nome da Mãe de Deus lhe traria mais amargura do que alegria. Sim, e poderia Ela ter pensado diferente depois da magnífica saudação do Arcanjo Gabriel? E poderia sequer ter ocorrido a alguém que as pessoas saudariam seu Emissário Celestial e Salvador com inimizade?
Pois, mesmo quando a glória de Seu Filho começou a ser proclamada em todo o mundo, pressentimentos dolorosos e preocupações nunca abandonaram Sua alma materna. Ela acompanhava Jesus continuamente, seguindo-O à distância em meio às multidões de curiosos, observando-O com apreensão e absorvendo Suas palavras, mas nunca resolveu Se aproximar d´Ele, com medo de incomodá-Lo. Ela conhecia Seu amor ilimitado por todas as pessoas, tinha ouvido Suas palavras: “Minha Mãe e Meus irmãos são aqueles que ouvem a palavra de Deus e a praticam” (Lc 8,21).
Ele deixara de pertencer somente a Ela e Se tornara a Fonte viva para o mundo inteiro, de modo que qualquer um que desejasse podia vir a Ele e saciar-se. Mas, novamente, Ele nunca foi tão querido por ninguém quanto pelo coração de Sua Mãe. Em meio àquela enorme multidão de pessoas que seguiam Jesus por toda a Palestina e O saudavam com tanto entusiasmo, dois olhos sempre O fitavam atentamente, dois lábios repetiam incessantemente Suas palavras sagradas e sussurravam orações por Ele. Essa era Sua Mãe.
Jesus caminhava firmemente à frente, sem olhar para trás, para a ira impenetrável dos pecadores que O encaravam. Nada O perturbava ou assustava. Ele era sempre igualmente magnífico e decisivo — como no Monte das Oliveiras, ao entrar em Jerusalém, e em outros momentos triunfantes, assim como na Última Ceia, ao Se despedir de Seus discípulos antes de Sua ascensão ao Gólgota. E apenas um coração atento ouvia o ranger de dentes contra Jesus, e uma alma previa as intenções dos ímpios, que buscavam enredar a alma do justo e condenar o sangue inocente (cf. Sl 93,21), e todos os dias Seu coração se enchia de apreensão com o que ouvia e sentia. Essa era Sua Mãe. Ela teria desejado ter ao menos uma noite a sós com Jesus para Lhe contar tudo o que Lhe chegara aos ouvidos, o que as pessoas diziam sobre Ele e o que estavam preparando para Ele; Ela queria muito informá-Lo, para que Ele fosse mais atento e cauteloso, embora soubesse que Ele sabia de tudo muito melhor do que ela. Mas nem mesmo à noite Ele tinha um momento de descanso, instruindo Seus discípulos e preparando-os para os trabalhos futuros. Ela ardia de desejo de estar ao menos à noite longe da vaidade mundana para falar um pouco com Ele e aconchegar Sua cabeça cansada contra Si. Contudo, Seu desejo não se realizaria, e assim Ela passou Suas noites também sem Seu Filho, contemplando o céu estrelado com os olhos cheios de lágrimas e direcionando para lá as palavras consoladoras do Rei David: “Em meio à multidão das minhas dores no coração, as tuas consolações trouxeram alegria à minha alma” (Salmo 93:19).
Mas todas essas angústias da alma, todas as preocupações e tristezas, toda a ira e o ódio das pessoas que Maria teve de suportar por causa de Seu Filho — tudo isso não era nada comparado ao terrível golpe que estava sendo preparado contra Jesus e contra a Sua própria alma. Pois Ela viu com os Seus próprios olhos o Seu Filho amarrado, cuspido e ensanguentado sob a coroa de espinhos, e ouviu aqueles gritos infernais: “Crucifica-O! Crucifica-O!” Ela O seguiu até o Gólgota, viu como Ele perdeu as forças e caiu sob a cruz; curvou-Se até o chão e recolheu o Seu sangue com a poeira. Ouviu também o som dos pregos sendo cravados em Suas mãos que outrora A abraçavam, viu-O na cruz, nu e sem forma, tendo suportado tormentos horríveis, coberto de suor e perdendo as últimas forças.
Oh, se Ela pudesse apenas se prostrar aos Seus pés ensanguentados, abraçá-Lo e beijá-Lo! Mas até isso foi impossível para a pobre Maria. Ó mães que choram por seus filhos doentes, lembrem-se de Maria, sofrendo aos pés da cruz na qual Seu Filho sofreu tormentos terríveis! Lembrem-se e fortaleçam seus corações com o que também A encorajou: a esperança na misericórdia divina!
Cristo entregou Seu espírito. Mas, em meio aos maiores sofrimentos, antes de entregar Seu espírito ao Pai, Ele Se lembrou de uma pessoa e olhou para a terra. Procurando Sua Mãe com os olhos, Ele A viu quebrada e debilitada. Ciente de mais um de Seus deveres para com Ela, voltou Seu olhar para Seu discípulo amado, João, e disse à Sua Mãe: “Mulher! Eis aí o Teu filho!”
Os discípulos de Cristo se espalharam pelo mundo inteiro para ensinar e salvar a humanidade. Deixaram seus lares e famílias natais e dedicaram todas as suas forças à pregação dos ensinamentos do Salvador. Eles já não tinham tanto medo como naquela noite em que Jesus foi preso, mas tornaram-se gigantes destemidos e poderosos, desprezando todo o perigo.
Enquanto estiveram na Palestina, a Santíssima Maria passou tempo com eles, ajudando-os a se firmar nos mandamentos do Salvador, encorajando-os a toda bondade e confortando-os. Mas quando os discípulos partiram da Palestina para terras distantes, estrangeiras e desconhecidas, Ela permaneceu na casa de João.
Ela não desperdiçou Seu tempo com trivialidades, mas usou cada minuto para o benefício da humanidade, a mesma raça humana que outrora crucificara Seu Filho inocente! Ela dedicou Seus trabalhos e cuidados a visitar os doentes e os presos; confortava, ensinava e instruía todos os que precisavam de apoio ou conselho. Ela viveu estritamente de acordo com os mandamentos de Seu Filho e, portanto, podia aliviar as dores das pessoas. Ela era uma fonte de cura e sombra, e todos os que bebiam dessa fonte sentiam renovação e alívio e eram fortalecidos pelo amor celestial. As boas obras às quais Se dedicou encheram Sua alma de grande bem-aventurança e consolo, que foram a recompensa pelas aflições e calamidades que suportou anteriormente. Pois somente após a ressurreição de Seu Filho Seus olhos se abriram para o que havia acontecido, e a esperança chegou.
Assim, chegara o momento de Maria fechar os olhos e entregar Sua alma a Deus. Isso ocorreu em paz e tranquilidade. Sua morte não provocou confusão ou perturbação. A Palestina, outrora testemunha de eventos tão turbulentos, frenética com a repentina e inesperada ocorrência dos acontecimentos, agora se acalmava e seguia tranquilamente com sua vida cotidiana, apenas ocasionalmente contemplando seu próprio rosto envolto em glória e escuridão no espelho de seu passado recente. O mundo segue apressadamente com suas atividades diárias e habituais.
A Theotokos repousa em Seu leito. Mas o mundo não sente nenhuma mudança, não percebe que a Mulher mais agradável a Deus partiu do seu meio. O mundo é sempre o mesmo — com sua tagarelice vazia e preocupações triviais com as necessidades corporais, rouba a santidade dos momentos mais solenes da história da humanidade. Enquanto os maiores lutadores por sua felicidade morriam em tormentos, o mundo, placidamente e com o incessante alvoroço de uma multidão de vozes, corria atrás do pão. Mas agora, enquanto a grande Benfeitora da humanidade jaz em seu leito de morte, o ruído das ruas e a cacofonia de vozes não se calam nem por um minuto.
Mas enquanto ela é levada ao seu lugar de repouso, enquanto os Apóstolos cantam os hinos fúnebres, memórias brilhantes ressurgem na alma deste mundo da Grande Mestra do amor e de Sua mansa e magnífica Mãe. E alguns serão encontrados, sem dúvida encontrados, que se unirão aos apóstolos e banharão com lágrimas calorosas o túmulo da exemplar Mulher Nazarena, e corrigirão suas vidas e ações segundo o Evangelho de Seu Filho. Subitamente, num piscar de olhos, o mundo esquecerá suas preocupações e renovará a memória de toda a vida desta Mulher que teve forte fé; e o próprio mundo se convencerá de que o Nome do Senhor é grande força; e os justos que a ele recorrem são exaltados (Provérbios 18:11).
Na casa do apóstolo João, reinam a paz e a tranquilidade. Nada perturba essa atmosfera reverente. Há um pequeno e modesto quarto iluminado por duas fileiras de lâmpadas dispostas ao redor do leito de morte. Poderíamos pensar que não havia ninguém no quarto, embora, na verdade, naquele momento, quase todo o exército de Cristo estivesse ali reunido. Ali estavam Seus apóstolos, que acabavam de chegar dos confins da terra para se despedir da Mãe de seu Mestre em Sua morada eterna.
Com a cabeça inclinada, eles se reúnem ao redor da Theotokos, e Ela repousa. Seu semblante resplandece com a marca da bondade e uma certa felicidade misteriosa que testemunha a ausência de toda tristeza, e seu último “Adeus!” está repleto de misericórdia e condescendência para com o mundo inteiro, que demonstrou tão pouca simpatia, hospitalidade ou amor por Ela e Seu Filho.
São Nikolai (Velimirovich)
tradução de monja Rebeca (Pereira)






