Historicamente, a imagem foi conhecida por vários nomes: o Salvador na Pano, a Toalha Sagrada, o Salvador no Linho e o Santo Mandilion. Em 16/29 de agosto de 944, a relíquia, trazida da cidade de Edessa, foi colocada na igreja relicária do Grande Palácio em Constantinopla. Sua veneração generalizada começou a partir de então; em todo o Oriente cristão, a Imagem Não Feita por Mãos Humanas era reverenciada como uma grande relíquia sagrada.
Em 1204, os cruzados saquearam Constantinopla e levaram a Imagem Não Feita por Mãos Humanas para fora do Império Bizantino. Seu destino posterior permanece desconhecido. Segundo alguns relatos, a imagem sagrada afundou junto com um dos navios dos cruzados.
Acredita-se que o rosto na imagem original media cerca de dezenove centímetros de comprimento — o tamanho de um rosto humano — e essa dimensão era considerada sagrada. Correspondia ao tamanho de um ícone destinado à oração privada em casa ou para ser colocado em um analoi, e muitas cópias foram feitas com essas dimensões. No século XIV, também havia uma tradição de representar o rosto de Cristo em tamanho natural. Mesmo no início do período, a imagem foi pintada em estilo monumental, ditado pelo costume de carregar esse ícone em grandes procissões por Constantinopla; foi pintada de forma que a imagem pudesse ser claramente discernida a qualquer distância.
Após 944, foi composta a História da Imagem Não Feita por Mãos Humanas. Essa obra tornou-se a principal fonte popular para a história da imagem. A fonte mais antiga, no entanto, é o relato na História Eclesiástica de Evágrio, datada de 594. Um capítulo à parte na história da imagem sagrada trata de sua presença em campanhas militares.
Em 586, antes da batalha contra os persas na planície de Solachon, um comandante bizantino, segundo o historiador Teofilacto Simocatta, levou à frente das tropas a imagem “não feita por mãos do Deus-Homem”. A batalha ocorreu na estrada para Edessa, a cerca de 200 quilômetros a leste da cidade. O pai do futuro imperador Heráclio se destacou nessa batalha e, posteriormente, estabeleceu como regra levar um ícone do Salvador Não Feito por Mãos Humanas em campanhas militares. A partir de então, surgiu uma tradição bizantina de representar a imagem do Salvador em estandartes militares durante as campanhas imperiais. Sabe-se que um ícone desse tipo acompanhou o príncipe André Bogolhubsky em sua campanha contra os búlgaros do Volga. Mais tarde, a “grande imagem do Salvador” apareceu no estandarte de São Dmitry Donskoy e, seguindo seu exemplo, no de Ivan, o Terrível, durante a conquista de Kazan. Até a época de Pedro, o Grande, sempre que o czar ia para campanha, uma imagem do Salvador o acompanhava. A Câmara de Armas abrigava inúmeros estandartes com a Imagem do Salvador Não Feito por Mãos Humanas: eles eram restaurados antes de novas campanhas e preservados no local. Até hoje, a coleção da Câmara de Armas do Kremlin de Moscou contém vários desses estandartes. Sob o imperador Nicolau II, a Imagem do Salvador Não Feito por Mãos Humanas voltou a figurar nos estandartes de todos os regimentos de infantaria. Apesar do surgimento, nos tempos modernos, de muitos novos estandartes militares com diversos ícones do Salvador, da Mãe de Deus e dos santos, a antiga tradição de representar o Salvador Não Feito por Mãos Humanas como o principal “portador da vitória milagrosa” foi preservada nos exércitos ortodoxos até o século XX.
Existem duas tradições principais sobre a origem da Imagem Não Feita por Mãos Humanas: uma está associada a Abgar, governante de Edessa, e a outra à oração do Salvador no Jardim do Getsêmani. A principal imagem venerada é pequena e está associada ao governante Abgar. Segundo a tradição, o toparca Abgar passou a crer no Salvador e enviou-Lhe uma carta pedindo que viesse curá-lo. Ele também enviou um pintor para fazer um retrato de Cristo. O Salvador enviou a Abgar a Sua bênção e, juntamente com ela, o Seu próprio retrato: depois de lavar o rosto com água e, em seguida, “enxugar a umidade com uma toalha, dignou-se, de maneira divina e inefável, imprimir as Suas feições sobre ela”. O tecido foi enviado para que o governante pudesse ser curado de sua doença. Após ser curado da lepra, Abgar colocou a Imagem Não Feita por Mãos Humanas em um nicho acima do portão da cidade, fixando o tecido a uma tábua e adornando-o com ouro. O Mandilion foi colocado sobre uma tábua e coberto com uma lâmina de ouro — uma cobertura ornamental que posteriormente se tornou uma espécie de cânone para reproduções da relíquia em forma de ícone.
No século XV, surgiu no Ocidente uma lenda sobre Santa Verônica em diversas versões. Segundo a versão mais conhecida, uma mulher chamada Verônica enxugou o rosto de Cristo sofredor com um pano, no qual permaneceu impressa a imagem de Seu rosto. Essa tradição encontrou expressão em inúmeras obras literárias europeias da era moderna.
A história continua com o surgimento de um novo tipo iconográfico do Salvador Não Feito por Mãos Humanas. O bisneto de Abgar retornou ao paganismo, e o bispo da cidade ordenou que a imagem do Salvador fosse escondida — selada dentro da muralha da cidade — com uma lamparina de óleo acesa diante dela. A imagem não foi lembrada até meados do século VI, quando a cidade foi sitiada pelos persas. Ela foi descoberta intacta, com a lamparina de óleo ainda acesa diante dela. Mas, além da imagem no pano, o rosto do Salvador também havia sido impresso na superfície interna da telha. Assim surgiu o “Salvador na Telha”, ou Santo Keramidion. Na catedral do Monastério de Mirozh, as imagens do Salvador Não Feito por Mãos Humanas, no pano e na telha, são representadas frente a frente nos arcos transversais leste e oeste. Há também uma tradição referente a outro “Salvador na Telha” venerado em Hierápolis. Durante uma viagem de Jerusalém para Edessa, o Apóstolo Ananias escondeu o Santo Pano em meio a uma pilha de telhas. Durante a noite, uma luz semelhante a fogo emanou dele, após o que o Apóstolo descobriu que a imagem de Cristo havia sido impressa em uma das telhas.
No Sétimo Concílio Ecumênico, a Imagem Não Feita por Mãos Humanas foi um dos argumentos mais importantes apresentados pelos defensores da veneração de ícones: a cura do Príncipe Abgar e a subsequente veneração da imagem foram ambas relembradas. Os participantes do Concílio são representados erguendo a Imagem. Essa representação reflete a tradição constantinopolitana, segundo a qual o ícone da Santa Face era solenemente elevado na Festa do Triunfo da Ortodoxia.
As representações mais antigas mostram Cristo com uma barba longa, como se estivesse molhada, e mechas de cabelo dispostas de maneira semelhante, que, juntamente com a barba, caem quase na mesma linha. Esse tipo iconográfico é representado na iconografia por inúmeras variações: nas imagens antigas, o rosto, juntamente com o cabelo, é frequentemente inscrito com precisão dentro do círculo da auréola. Às vezes, o rosto era representado com o pescoço. Em certos períodos, maior atenção foi dada ao aspecto material da imagem. Nos séculos XIII e XIV, por exemplo, os iconógrafos demonstraram particular interesse em representar o próprio tecido. Suas dobras podiam ser pintadas horizontalmente, como se o tecido estivesse esticado sobre a superfície do ícone, ou verticalmente, como se estivesse pendurado. O tecido era embelezado com bordas e padrões ornamentais e, às vezes, decorado com franjas. Em outras ocasiões, o rosto de Cristo era representado dentro do círculo da auréola, sem o tecido, contra um fundo monocromático ou colorido.
A imagem tornou-se extraordinariamente difundida. Além de ícones e estandartes, era frequentemente reproduzido em ícones de bronze fundido feitos pelos Velhos Crentes de Pomorye¹ e tornou-se uma espécie de sua “marca registrada”. Existem, por exemplo, ícones de bronze nos quais o Salvador Não Feito por Mãos aparece como a imagem principal, enquanto a mesma imagem do Salvador se repete no remate, ou “orelha”, no topo. Em raras ocasiões, o Salvador Não Feito por Mãos aparece no centro da Deesis — por exemplo, em aërs bordados.²
Na obra de Simon Ushakov,³ a Imagem Não Feita por Mãos Humanas tornou-se um tema central e definidor. Os mestres da Câmara da Armaria trabalharam nos afrescos da Catedral Superior do Salvador, construída no Kremlin pelo czar Mikhail Feodorovich. Simon Ushakov pintou repetidamente ícones do Salvador Não Feito por Mãos Humanas para serem oferecidos como presentes ao czar Alexei Mikhailovich. Embora preservando o layout iconográfico tradicional, seus ícones exibiam um estilo distinto: Ushakov trabalhava na nova tradição da zhivopodobie, ou representação realista.
Imagens do Salvador Não Feito por Mãos Humanas também foram produzidas em pequena escala, de caráter íntimo. No centro de algumas cruzes peitorais dos séculos XIV e XV, preservadas no Museu Andrei Rublev, a imagem do Salvador Não Feito por Mãos Humanas aparece no lugar da Crucificação. Mais tarde, ícones devocionais em esmalte de Rostov, levados de Rostov por peregrinos e viajantes, apresentam imagens coloridas do Salvador Não Feito por Mãos Humanas, às vezes com anjos segurando o pano pelos dois nós superiores.
A imagem do Salvador Não Feito por Mãos Humanas era, ao mesmo tempo, a principal esperança dos soberanos ortodoxos, um ícone carregado por peregrinos e usado em casamentos, uma imagem central no canto dos ícones da casa ortodoxa e um ícone na iconostase da igreja, colocado acima das Portas Reais.
________________
1 A região costeira do Mar Branco, no norte da Rússia.
2 O aër é o pano ornamental usado para cobrir e ser segurado sobre as Sagradas Obras durante a Grande Entrada.
3 Famoso iconógrafo russo que trabalhou durante o período das reformas da Igreja do Patriarca Nikon.
Zhanna Kurbatova
tradução de monja Rebeca (Pereira)







