Cristo está no meio de nós, caros leitores!
Hoje, lancemos um olhar sobre as profundezas misteriosas da existência humana. Toda a tragédia do nosso mundo caído tem sua raiz em uma única fonte: o nosso “eu”, no qual, desde a infância, habitualmente encerramos tudo, transformando a nossa alma em uma fortaleza impenetrável. Contudo, o Cristianismo autêntico começa no ponto em que a pessoa realiza um grande salto existencial; onde ela supera a força de atração do seu próprio egocentrismo e volta-se ao encontro de Deus.
É nesse ponto de intersecção — entre a dimensão vertical da alma, que busca o seu Criador, e a dimensão horizontal, que nos liga às pessoas ao nosso redor — que ocorre o milagre de um encontro verdadeiro. Ao nos afastarmos da autossatisfação, nossa alma encontra, face a Face, Deus e a Sua criação. Nosso mundo interior é iluminado por uma fé invisível; contudo, essa fé é posta à prova externamente, por meio de uma constante luta ética. A vida nos coloca diante de uma questão decisiva: estamos buscando apenas os nossos próprios interesses, ou estamos dispostos a oferecer ao mundo uma vida de sacrifício, em prol do bem do nosso próximo?
A orientação apostólica de hoje é extremamente precisa: que cada um de nós procure agradar ao próximo, visando ao seu bem e à sua edificação (Rm 15,2). Mas esse caminho esconde uma tentação espiritual muito sutil. O que significa “agradar”? O Cristianismo não é um conformismo servil. O ato de agradar é, por si só, neutro — ele pode tornar-se tanto uma ascensão à virtude quanto uma queda no pecado. Existe um abismo entre a liberdade metafísica em Cristo e a escravidão psicológica diante das opiniões desta época. O Apóstolo nos adverte severamente: “Se eu ainda procurasse agradar aos homens, não seria servo de Cristo” (Gl 1,10).
Onde está a linha divisória entre essas duas realidades? Quando buscamos o louvor, acabamos nos conformando aos vícios alheios em nome do nosso próprio conforto — caímos, assim, na escravidão de tentar agradar aos homens. Por outro lado, quando sacrificamos a nossa própria conveniência em prol da salvação eterna do nosso irmão, isso constitui um serviço de amor. Se o mundo nos arrasta para um compromisso com o mal, forçando-nos a mentir ou a ceder às nossas paixões, a Igreja responde de forma inabalável: não participem das obras infrutíferas das trevas; pelo contrário, denunciem-nas (Ef 5,11). O próprio apóstolo Paulo serve como um verdadeiro exemplo disso, ao dizer: «Assim como eu procuro agradar a todos em tudo, não buscando o meu próprio proveito, mas o de muitos, para que sejam salvos» (1 Cor 10,33).
Cada uma de nossas ações deve ser edificante e instrutiva, no sentido mais profundo da arquitetura espiritual. Aqui, devemos nos lembrar do perigo do falso zelo. Até mesmo a verdade absoluta, se for rigorosa e carente de compaixão, torna-se um instrumento de assassinato espiritual. Quando alguém, munido de correção dogmática ou moral, esmaga cruelmente e com orgulho o seu irmão mais fraco, essa pessoa não edifica a Igreja; pelo contrário, semeia o caos. A verdade sem amor é uma chama abrasadora, e não uma luz. Se a nossa crítica é ditada por uma dor sincera pela salvação do próximo, ela cura. Mas, se por trás dela se esconde o desejo secreto de nos colocarmos acima do outro e de pisoteá-lo, trata-se de um crime espiritual.
Existe também um abismo oposto: a falsa piedade e a tolerância infantil diante das fraquezas. Uma “ajuda” que isenta a pessoa da responsabilidade pessoal e do esforço transforma a edificação do espírito na sua destruição definitiva. Ao converter a “construção da casa” em sua demolição, corrompemos a alma do próximo, permitindo que ele se torne um parasita da bondade alheia.
Como evitar nos perdermos nesses labirintos das relações humanas? Cristo nos deixou critérios universais: “Pelos seus frutos os conhecereis” (Mt 7,16). Somos chamados a rejeitar o cumprimento mecânico dos mandamentos. Cada uma de nossas ações deve ser avaliada pelos seus frutos: a alma do nosso irmão torna-se mais forte, mais pura e mais próxima de Deus, ou a nossa “ajuda” torna-o mais fraco e o conduz às trevas?
A vocação cristã é, na sua plenitude, simples: responder à necessidade real e existencial de uma pessoa — dando pão a quem tem fome, vestindo quem está nu, consolando os que sofrem e orientando aqueles que buscam. Que o nosso serviço mútuo esteja livre do desejo de agradar aos homens; que seja pleno de sobriedade e de um amor sacrificial, voltado exclusivamente para a edificação do Corpo místico de Cristo.
Metropolita Luka (Kovalenko) de Zaporozhye e Melitopol
tradução de monja Rebeca (Pereira)







