Perto do final de novembro de 2024, circulou pela mídia mundial a notícia de que o Parlamento australiano havia aprovado uma legislação que proíbe o uso de redes sociais por menores de 16 anos. Essa decisão representa um avanço encorajador para todos os intelectuais que refletem criticamente sobre o uso das novas mídias. Contudo, é preciso ter em mente que as redes sociais constituem apenas uma peça — ainda que vistosa — no mosaico extremamente complexo da influência exercida pelas tecnologias baseadas em código binário. Fragmentos, por maiores que sejam, não bastam para compreender o problema em sua totalidade, o qual, neste caso, é muito mais amplo e grave.
A essência do desafio que enfrentamos pode ser sintetizada pelo termo — raramente utilizado — “screenocracia”, que designa, com a maior precisão possível, um determinado “regime” de ocupação da mente humana por meio de estímulos audiovisuais transmitidos via telas. O termo “tela”, no entanto, deve ser entendido em um sentido condicional: aparelhos de televisão, monitores de computador, tablets e, sobretudo, smartphones são, hoje, as “alavancas de poder” da screenocracia; amanhã, porém, serão substituídos por óculos inteligentes, hologramas e, quem sabe, outras tecnologias. A questão, portanto, não reside tanto no tipo de tela que nos transforma em servos, mas sim no conteúdo eletrônico sedutor que exerce uma influência profundamente nociva quando consumido sem senso crítico.
Uma característica fundamental da screenocracia — sem a qual é impossível compreender seu poder — é o seu método de escravização. Ela conduz os indivíduos à servidão por meio de seu consentimento livre — ou, para ser mais preciso, voluntário. Sua principal arma é o efeito narcótico: ela não escraviza por meio de força bruta, coerção ou dor, mas de forma sutil, valendo-se do prazer e da gratificação (a dor surge muito mais tarde, como consequência do vício). A estimulação contínua da liberação de dopamina e endorfina é o mecanismo estratégico central pelo qual a screenocracia mantém seus súditos em um estado de submissão permanente. É justamente esse choque hormonal induzido eletronicamente que, nas últimas duas ou três décadas, tem dado origem a distúrbios psicofísicos graves e inesperados, especialmente entre os mais jovens. O aumento endêmico de casos de dislexia, disgrafia e transtornos de atenção entre crianças; A prevalência, em escala epidêmica, de depressão, ansiedade e alienação social entre os jovens — somada às formas cada vez mais bizarras de dependência, crises de identidade e automutilação em todas as faixas etárias — constitui apenas alguns dos desvios alarmantes com os quais já nos deparamos. Nesse contexto, enquanto este texto era escrito, uma das principais notícias na mídia sérvia dizia respeito a ferimentos sofridos por vários adolescentes nos Bálcãs após participarem do desafio “Superman Voador” (“Flying Superman”), que surgiu na plataforma de redes sociais TikTok. Lamentavelmente, isso é apenas o começo, visto que cada geração sucessiva é exposta à influência hipnótica das telas a partir de uma idade cada vez mais precoce e por períodos cada vez mais prolongados. E, se os anos pré-escolares são preenchidos por tablets, podemos razoavelmente supor que a adolescência — em um número significativo de casos — acabará sendo preenchida por tablets de um tipo diferente; ou seja, medicamentos, necessários para sustentar o hábito, já adquirido, de buscar constantemente uma estimulação intensificada.
Concordo plenamente com os especialistas que argumentam que estamos diante de uma onda de dependência — uma espécie de viciamento — em larga escala, alimentada pela exposição às novas mídias logo nos primeiros anos da infância. Acredito, portanto, que é preciso declarar uma guerra aberta contra a “screenocracia” (o domínio das telas): sem hesitação, sem concessões e sem recuos. Não se trata de um apelo à destruição física das telas — o texto não deve ser interpretado erroneamente como uma defesa do neoludismo (afinal, o próprio artigo que você está lendo foi escrito diante de um monitor de computador; defender a simples rejeição das telas seria, portanto, profundamente hipócrita). Trata-se de algo diferente: um esforço deliberado, sistemático, conceitualmente coerente e inabalável para expulsar a influência das telas dos espaços mais íntimos do nosso ser. Nessa guerra defensiva, o objetivo principal é proteger as crianças, e o grosso do exército é composto pelos pais.
Resta, contudo, uma pergunta: como mobilizar esse “exército”? Embora a maioria dos pais tenha, em certa medida, consciência da dimensão do problema, na prática, muitos não se mostram dispostos a fazer um esforço significativo para proteger seus filhos. Eles podem até reconhecer que tais alertas são fundamentados; no entanto, por força do hábito, continuam a “entregar” seus filhos — como uma espécie de “imposto de sangue” tecnológico — em nome da conveniência. A lógica do conforto exige, de forma descarada, que se entregue uma tela à criança para que, por exemplo, os pais possam assistir à sua série favorita ou ouvir um podcast sem serem incomodados. O paradoxo — triste e não menos trágico — é que a maioria dos pais não nega os perigos aqui apontados, mas, ao terminar a leitura, simplesmente continua agindo como antes.
Mas e quanto à minoria disposta a agir? Para esses indivíduos corajosos e conscientes, a primeira frente de batalha situa-se no nível microssocial: a retomada do “território” do lar por meio de uma contraofensiva baseada no cultivo de bons hábitos. Se a “escrenocracia” se consolidou por meio de hábitos nocivos — adquiridos ao nos expormos indiscriminadamente às telas —, então, para reverter esse paradigma de poder, é necessário estabelecer hábitos saudáveis e mantê-los com constância. Como ponto de partida, aqui estão algumas sugestões práticas:
1. defina situações em família nas quais as telas devam ser desligadas, guardadas fora de vista ou — preferencialmente — ambas as coisas (por exemplo, durante refeições em conjunto, conversas particulares e momentos de brincadeira);
2. estabeleça períodos em que nenhuma tela permaneça ligada em qualquer parte da casa (especialmente no período noturno);
3. determine quais tipos de conteúdo podem — e quais não podem — ser exibidos nas telas (ou seja, adote uma política de tolerância zero em relação a tabloides, reality shows e qualquer forma de vulgaridade na mídia de massa);
4. estabeleça uma proporção entre o tempo passado diante das telas e o tempo dedicado a atividades físicas ou analógicas (comece, por exemplo, com uma proporção de um para um);
5. faça uso do botão “mudo” (especialmente quando surgirem propagandas indesejadas);
6. abandone o hábito de deixar telas ligadas ao fundo (pois devemos aprender a apreciar o silêncio no ambiente doméstico); e
7. sempre que possível, dê preferência à leitura de textos impressos em vez de hipertextos. Existem muitas outras recomendações, mas a simples implementação destas poucas já trará resultados tangíveis de forma notavelmente rápida.
Ao adquirir novos hábitos, vencemos uma batalha muito importante, mas não a guerra contra a «screenocracia». Trata-se de um adversário resiliente demais para ser derrotado por uma única contraofensiva. A vitória exige o cultivo, a longo prazo, de um modo de vida ascético, o desenvolvimento de uma consciência crítica e uma reflexão profunda sobre a natureza da tecnologia. E, se Deus quiser, essa tríade será discutida com mais detalhes em outra ocasião…
Rev. Dr. Oliver Subotich
tradução de monja Rebeca (Pereira)







