Para as pessoas do nosso tempo, a tristeza voluntária — e, especialmente, a tristeza profunda e avassaladora que também chamamos de luto — é algo inimaginável, sem sentido e considerado totalmente absurdo. Uma mentalidade mundana faz com que as pessoas sejam dominadas por uma atitude negativa e de rejeição em relação a qualquer coisa que as prive, ainda que temporariamente, da felicidade emocional. Elas choram apenas quando seus desejos não são satisfeitos, quando não conseguem obter algum “tesouro” que almejam ou quando se deparam inesperadamente com circunstâncias dolorosas.
O apóstolo Paulo escreveu aos Coríntios: “Porque a tristeza segundo Deus produz arrependimento para a salvação, que não traz pesar; mas a tristeza do mundo produz a morte” (2 Coríntios 7:10). A tristeza ou o luto de que o Senhor fala na segunda Bem-Aventurança certamente refere-se também ao pesar involuntário causado por circunstâncias e eventos externos. Mas, acima de tudo, refere-se ao sofrimento consciente e voluntário como um ato de arrependimento pelos nossos pecados.
O Senhor chama de bem-aventurados todos aqueles que choram por seus pecados, pois trabalham em sua salvação ao assumir a responsabilidade por suas ações e reconhecer suas falhas. Eles encontrarão o consolo e o descanso concedidos pelo Espírito Santo, o Consolador.
A Tristeza Mundana nos Afasta de Deus
A tristeza e o pesar pela falta de bens materiais nos afastam de Deus. Certamente, Deus não nos proíbe de adquirir o que é necessário e essencial para a nossa sobrevivência, visto que tudo o que Ele criou era “muito bom”. O problema começa quando buscamos obsessivamente prazeres que nos separam de Deus. A tristeza que sentimos ao sermos privados desses prazeres é, na realidade, um disfarce para o nosso ego ferido, decorrente da frustração de nossos desejos egocêntricos. Esse sofrimento, causado pela impossibilidade de satisfazer nossos desejos centrados no eu, deve-se sobretudo à maneira individualista como exercemos a nossa liberdade — um modo de vida agressivamente promovido por toda parte ao nosso redor.
O que caracteriza o nosso mundo é a desconexão de eventos, relacionamentos, coisas e até mesmo de nossas próprias vidas em relação a Deus. No entanto, a autonomia significa separação de Deus, pois tudo o que ocupa o lugar do nosso anseio por Deus torna-se um pecado que rompe a nossa conexão com a Vida.
Quando somos consumidos pelo frenesi e pela ansiedade angustiante de adquirir muitas coisas, deixamos de perceber que a nossa única necessidade fundamental é Deus. Transformamos nossas buscas e objetivos em deuses e, quando nossos esforços fracassam, vivenciamos profunda dor e tristeza. Culpamos a Deus, acusamo-Lo e voltamo-nos contra Ele.
Fracassos Emocionais
E, mesmo que sejamos “bons cristãos” que cumprem todas as obrigações religiosas, sentimo-nos perturbados e angustiados quando Deus não recompensa as nossas lutas e labutas diárias, quando Ele não satisfaz os nossos desejos ou quando não nos provê abundantemente com as coisas que poderiam tornar mais fácil a nossa existência terrena e passageira. As falhas em nossos relacionamentos com o próximo frequentemente se tornam motivo de choro e desespero. Somos tão egocêntricos que encaramos a outra pessoa como alguém que conquistamos pessoalmente, como uma possibilidade e uma oportunidade para investimento emocional e ganho psicológico.
Mas, quando tornamos um relacionamento absoluto — nele depositando toda a nossa esperança de vida e alegria, todo o nosso anseio por felicidade —, mais cedo ou mais tarde nos esgotamos e fracassamos. Quando a essência e a fonte de nossa alegria é outro ser humano, e não a graça de Deus, revelamos que negligenciamos a nossa necessidade mais profunda e verdadeira: Deus. É por isso que não encontramos descanso.
A ansiedade e as preocupações nos oprimem e dão origem a diversos problemas psicossomáticos. Contudo, até mesmo esse sofrimento psicológico — por nos tornar humildes — pode ter um efeito curativo e conduzir-nos ao arrependimento, desde que o desejemos. Recebemos a extraordinária possibilidade de encontrar Deus mesmo em meio a circunstâncias dolorosas, e até mesmo através de nossas próprias quedas. Deus, que ama a humanidade, sempre nos concede oportunidades de arrependimento. Mesmo quando nos desviamos do caminho certo, Ele nos oferece um meio de retornar, mostrando-nos a via de volta e apontando o remédio que traz a cura.
Arquimandrita Barnabé Iangos
tradução de monja Rebeca (Pereira)







