Cristo está no meio de nós, meus caros leitores!
Hoje (domingo, 29 de junho), na Divina Liturgia, ouvimos as palavras marcantes — quase paradoxais — do santo Apóstolo Paulo: Libertados do pecado, fostes feitos servos da justiça (Romanos 6,18).
Essas palavras podem inquietar a nossa orgulhosa razão terrena. Ser libertado — e imediatamente tornar-se servo novamente? É esse o tipo de liberdade para a qual o Evangelho nos chama? No entanto, nessa aparente contradição reside uma das mais profundas verdades teológicas e antropológicas sobre a alma humana.
Escrevendo aos cristãos de Roma, que haviam sido resgatados da atmosfera sufocante do vício pagão, o Apóstolo apresenta um diagnóstico espiritual preciso da humanidade: fora de Cristo, o homem é escravo. Isso não é uma mera metáfora.
Fora de Cristo, o homem é escravo. Isso não é uma mera metáfora.
Pergunte a qualquer pessoa que tenha passado anos lutando contra a ira, a inveja ou vícios destrutivos. Ela lhe dirá: “Eu não queria fazer isso, mas fiz”. O pecado nunca pede permissão. Ele entra na casa da alma silenciosamente, por meio de pequenas concessões, e então tranca a porta por dentro. O homem imagina que está apenas flertando com o mundo, enquanto, na realidade, está construindo uma prisão invisível ao seu redor.
Os antigos mestres da Igreja compararam, com razão, essa condição a uma doença grave. Assim como uma pessoa escravizada pelo vício perde o domínio sobre o próprio corpo, também o pecador entrega sua mente e sua vontade a um poder destrutivo. É uma paralisia espiritual.
Mas é precisamente na escuridão desse cativeiro que o Salvador entra. No Mistério do Batismo, ocorre algo muito maior do que o perdão jurídico dos pecados; há uma renovação radical da nossa própria natureza. Como o Pai misericordioso, o Senhor nos encontra feridos em uma terra distante, liberta-nos e nos conduz à Sua própria Casa.
Por que, então, o Apóstolo ainda chama esse estado bendito de “escravidão”? São Paulo usa deliberadamente essa expressão contundente por condescendência à nossa imaturidade espiritual. Para uma mente acostumada a satisfazer a carne, uma vida vivida segundo a justiça de Deus parece, inicialmente, uma restrição, até mesmo uma espécie de violência contra si mesmo. Precisamos nos forçar. Oramos em meio à aridez de nossos corações; Perdoamos mesmo sentindo a dor de uma ofensa profunda; ajudamos o próximo apesar do egoísmo e do cansaço. Esta é a etapa difícil e ascética da vida espiritual.
No entanto, oculto nesta santa luta está o mistério da nossa transformação. Pouco a pouco, a graça divina remodela o homem interior. O que começou como um ato de autodisciplina torna-se uma profunda necessidade interior. A oração transforma-se no próprio fôlego da alma, e a misericórdia torna-se a sua alegria natural. Os santos viviam de tal maneira que simplesmente não podiam agir de outra forma. A justiça não era um fardo que lhes fora imposto — ela havia se tornado a sua nova natureza. Esta é a plenitude de ser “servos da justiça”: quando a própria bondade passa a fazer parte de quem você é. Isso, e somente isso, é a verdadeira liberdade.
Mas como preservar esse dom em um mundo onde as tentações surgem constantemente nas telas de nossos smartphones e tentam ditar as regras pelas quais vivemos?
Primeiro, lembre-se de que a escravidão ao pecado sempre começa com algo pequeno — com um pensamento descuidado, com uma concessão aceita. É preciso vigilância no primeiro passo em direção à água, e não quando você já está se afogando.
Segundo, a justiça é construída por meio de uma ação constante. Não espere por euforia espiritual ou milagres extraordinários. Aja apesar da relutância. Cada esforço deliberado da vontade, cada palavra gentil, cada ato de misericórdia torna-se mais uma pedra assentada no alicerce do seu templo espiritual.
Por fim, nunca se esqueça a quem você pertence. Fomos comprados por um preço elevado: o Sangue do Deus Crucificado. Isso faz com que o pecado não tenha qualquer direito legítimo sobre nós. Como ensina São João Crisóstomo, numa guerra terrena um homem pode ser feito prisioneiro contra a sua vontade, mas na batalha espiritual ninguém pode torná-lo escravo, a menos que você, voluntariamente, passe para o lado do inimigo. A escolha de a quem servimos permanece sempre conosco.
A “escravidão da justiça” é o cativeiro paradoxal que não nos dá correntes, mas asas. É a vida na qual a alma cessa a sua peregrinação inquieta e encontra o seu descanso em Deus. Sim, este caminho exige esforço, mas o seu fim é a santidade e a vida eterna. O fim do caminho do pecado, porém, é a morte.
Cada um de nós deve fazer a sua escolha hoje. O pecado promete liberdade de forma enganosa, apenas para nos reduzir à escravidão. Cristo, por sua vez, chama-nos para o Seu serviço bendito e concede-nos a verdadeira liberdade. Escolhamos, pois, essa santa servidão que nos torna filhos livres do nosso Pai Celestial.
Metropolita Luka (Kovalenko) de Zaporozhye e Melitopol
tradução de monja Rebeca (Pereira)







