A leitura do Evangelho de hoje fala sobre os dois endemoniados, os dois homens possuídos por demônios. Muitas vezes, temos uma espécie de curiosidade ou fascínio peculiar por essa ideia ou fenômeno. É claro que nos parece estranho, mas também um tanto extraordinário, porém, na verdade, a ideia de possessão demoníaca deveria nos aterrorizar. Às vezes, é glamourizada em filmes de terror e na cultura pop, mas a possessão é um fenômeno sério e muito real, que não deve ser encarado levianamente.
Muitos livros foram escritos sobre esse assunto, embora a maioria não seja escrita sob a perspectiva cristã ortodoxa. Um desses livros é “O Exorcista do Papa”, do Padre Gabriel Amorth. Há também um filme com o mesmo nome, mas o filme é baseado em uma história específica da vida dele (que recebeu uma adaptação hollywoodiana), enquanto o livro é, na verdade, um resumo geral de seus ensinamentos sobre o tema de demônios e possessão. O Padre Gabriel foi o exorcista-chefe do Vaticano. Ele escreveu muito sobre o assunto, pois os casos mais difíceis eram frequentemente encaminhados a ele.
Em suas pesquisas e experiências, ele observou que aqueles que estavam possuídos por demônios eram frequentemente pessoas que consultavam médiuns ou bruxas para lançar feitiços sobre outros. Ele também mencionou aqueles que iam a leitores de tarô e aqueles que visitavam médiuns que afirmavam falar com os mortos. Em todos esses casos, o que poderia parecer inocente estava, na verdade, longe disso. Esses são portais que abrem nossas almas e dão permissão aos demônios para nos perturbar e afetar profundamente. O mesmo se aplicaria ao tabuleiro Ouija e outros “jogos” que estão longe de ser lúdicos.
A possessão demoníaca é relativamente rara. Uma das passagens sobre São Paisios, um homem de poderosa oração que podia curar possessões demoníacas, relata que ele acreditava que menos de 1% das pessoas que lhe eram levadas estavam possuídas por demônios. Ele aplicava um teste específico no qual segurava secretamente as relíquias de um determinado santo, e aqueles que estavam verdadeiramente possuídos por demônios reagiam imediatamente. Para o possuído por demônios, é impossível estar perto daquilo que é sagrado. É um fogo que lhe causa grande tormento e desconforto.
Contudo, embora não lidemos frequentemente com possessão demoníaca na vida da Igreja, certamente temos muitas batalhas espirituais e influências demoníacas em filmes, músicas, notícias, sites, redes sociais e fóruns. Toda a vida da Igreja, conforme relatada pelos Santos, Pais e Mães da Igreja, é comparada a uma guerra. É o aspecto de se tornar um cristão ortodoxo que é o mais surpreendente e menos confortável. Cada dia da sua vida é uma batalha, e o campo de batalha é o coração e a mente humana. É ali que a batalha acontece diariamente. Quer você preste atenção ou ignore, quer se dedique ou seja negligente, você já está em guerra.
Frequentemente, nossos catecúmenos se surpreendem ao começarem a encontrar ou perceber lutas e tentações com as quais nunca haviam lidado antes. Isso é comum, pois estão tentando se aproximar de Cristo e de Sua santa Igreja Ortodoxa. Esta é uma das atividades humanas que o diabo odeia mais do que qualquer outra. Ele odeia quando construímos igrejas. Ele odeia quando nos arrependemos. Ele odeia nossas Confissões oferecidas com simplicidade e humildade. Ele odeia quando batizamos e crismamos novas almas. Ele odeia quando nos reunimos para os Serviços Divinos e, especialmente, para a Sagrada Liturgia. Cada Liturgia é como uma bomba atômica da graça de Deus. O diabo também odeia quando amamos e perdoamos uns aos outros.
Resumindo, o que podemos aprender sobre a guerra espiritual com os Santos? Como ela se manifesta? São Teófano, o Recluso, escreve sobre isso em seu livro “Combate Invisível”. Nesta obra, ele nos oferece uma síntese do trabalho dos grandes ascetas e mestres espirituais. É um modelo do caminho para uma verdadeira luta cristã. Ele começa lembrando seus leitores do objetivo da vida cristã: “Direi-lhes claramente: a maior e mais perfeita coisa que um homem pode desejar alcançar é aproximar-se de Deus e viver em comunhão com Ele.” — Parte 1, Capítulo 1
Em seguida, ele nos apresenta quatro armas para nosso combate: 1) Nunca confie em si mesmo em nada. 2) Tenha sempre em seu coração uma confiança perfeita e ousada somente em Deus. 3) Esforce-se sem cessar. 4) Permaneça constantemente em oração.
Ele dedica grande parte do livro à prática da oração. “A oração é o teste de tudo; a oração também é a fonte de tudo; a oração é a força motriz de tudo; a oração também é a diretora de tudo. Se a oração estiver correta, tudo estará correto. Pois a oração não permitirá que nada dê errado.” — Parte 1, Capítulo 48
Sobre o tema das orações, ele dedica bastante tempo a nos ensinar a recorrer a Deus por meio da prática regular da Oração de Jesus. Ele vê a Oração de Jesus como algo que pode se tornar parte de quem somos e que este é um dos caminhos mais seguros e diretos para a santidade para um cristão ortodoxo. Ele também encoraja aqueles que tropeçam e caem. Ele nos diz que, quando tropeçamos, devemos nos arrepender imediatamente, levantar e recomeçar, sem dar ênfase à raiva, à vergonha ou ao desespero, pois esses são tipicamente sinais de que depositamos nossa esperança em nós mesmos e não confiamos verdadeiramente em Deus. Eu recomendo fortemente a leitura do livro “Combate Invisível” assim que você se tornar um cristão ortodoxo.
E quero lembrar que, como cristãos ortodoxos batizados, vocês são filhos e filhas de Deus. Todo o poder que o Senhor tem sobre os demônios, como demonstrado no Evangelho de hoje, também é dado aos Seus filhos. Mas é dado na medida e no grau em que nos empenhamos ativamente em nossa batalha espiritual e em usar fielmente todos os dons que Deus nos concedeu. O Senhor expulsou a legião de demônios com uma palavra e deixou os homens em perfeito juízo. Ele os curou e os tornou íntegros. É isso que Ele também oferece a cada um de nós por meio da vida da Igreja.
Que nos animemos nesta batalha e ouçamos novamente as palavras de São Teófano: “Sede sóbrios, vigiai e orai, e os inimigos nada vos farão”. Amém.
Sacerdote James Guirguis
tradução de monja Rebeca (Pereira)







