A VIDA DE SÃO JOÃO BATISTA

São João Batista era filho do sacerdote judeu Zacarias. Sua mãe era Isabel, parente consanguínea da Santíssima Virgem Maria. Este casal justo não tinha filhos, pois Isabel era estéril. Eles oraram muito e por muito tempo; como verdadeiros israelitas, desejavam a consolação de serem abençoados com filhos, aspirando – mas neste caso com uma humilde e santa resignação – ao nascimento do grande Messias, que viria para salvar a humanidade e, como pensavam, para libertar e unir Israel. Embora Zacarias e Isabel lamentassem, em sua velhice, um dia que ultrapassava o limite natural da fertilidade, ainda assim continuaram a orar esperançosamente. As orações de fé deste sacerdote e de sua paciente esposa ascenderam aos céus, de onde desceu um anjo com a mensagem de que o Criador da natureza e o Deus das maravilhas se agradara em atender ao seu desejo. Assim, Isabel deu à luz um filho homem para seu marido Zacarias, a quem chamaram João.

Este João foi chamado por Deus para ser o precursor de Seu Divino Filho, para conduzi-Lo ao mundo e preparar a humanidade, pelo arrependimento, para receber o Redentor – Aquele que os profetas haviam predito à distância, em todas as épocas, desde o princípio do mundo, jamais cessando de incutir no povo de Deus fé e esperança n’Aquele por quem somente seriam salvos. Inicialmente, São João levou uma vida austera no deserto, dedicando-se à oração e à meditação sobre a elevada missão para a qual fora chamado. Aos trinta anos, João saiu de seu isolamento. Essa era também a idade em que os sacerdotes e levitas eram autorizados pela lei judaica a começar a exercer suas funções. Vestido com pelos de camelo e preso ao corpo por um cinto de couro cru, o homem do deserto, que desconhecia o luxo de uma casa nem o sabor da comida cozinhada, subsistindo de gafanhotos e mel silvestre, chegou às margens pouco povoadas do rio Jordão e pregou o arrependimento, batizando todos os que se aproximavam. “Endireitai o caminho”, disse ele, “pois vem Aquele a quem não sou digno de desatar as correias das sandálias; Ele vos batizará com o Espírito Santo e com fogo”. João foi recebido pelo povo como o verdadeiro arauto do Deus Altíssimo. Pessoas de todas as classes sociais vinham ouvi-lo. Entre elas, muitos fariseus, cujo orgulho e hipocrisia, que os tornavam indóceis e os cegavam em seus vícios, ele repreendeu severamente. Até mesmo os soldados e publicanos, ou cobradores de impostos, que geralmente eram pessoas endurecidas em hábitos de imoralidade, violência e injustiça, acorriam a ele. Ele exortava a todos às obras de caridade e à reforma de suas vidas, e aqueles que se dirigiam a ele com essas disposições, ele batizava no rio.

O batismo de João diferia completamente do grande Sacramento cristão do Batismo, pois o primeiro era um emblema dos efeitos de viver no temor da justiça de Deus, abstendo-se de más ações, enquanto o segundo nos liberta totalmente do pecado original e de suas consequências, e nos torna filhos de Deus, pela graça de nosso Senhor Jesus Cristo.

Quando São João já havia pregado e batizado por cerca de seis meses, o Senhor Jesus saiu de Nazaré e apresentou-Se, entre outros, para ser batizado por ele. O Batista O reconheceu por uma revelação divina e, cheio de temor e respeito por Sua pessoa sagrada, a princípio se recusou a aceitar, mas acabou cedendo em obediência. O Salvador dos pecadores Se agradou em ser batizado entre pecadores, não para ser purificado, mas para santificar as águas e manifestar-Se ao mundo, representado pela grande multidão que vinha a João. E João testemunhou a respeito d´Ele. Apontando-o para os judeus, João disse: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo!” João Batista repreendia os vícios de todos os homens, não importando quem fossem, com uma imparcialidade e um espírito destemido. Ele expôs a hipocrisia dos fariseus e revelou a profanidade dos saduceus. Ele denunciou a fraude de certos funcionários do governo — isto é, os publicanos —, a rapina e a licenciosidade dos soldados e o incesto do próprio rei Herodes. Ora, Herodes havia tomado para si Herodias, esposa de seu próprio irmão Filipe, que ainda vivia. Quando o santo disse ao rei: “Não te é lícito possui-la”, Herodias se opôs a ele e desejou matar João. Herodes reverenciava João como um homem santo; portanto, não ousava lhe fazer mal. Contudo, ele tinha o santo ao seu alcance, na prisão, pois não suportava que a ferida de sua consciência frágil fosse perturbada. São João cumpriu fielmente sua missão e compreendeu quando seu tempo havia chegado; mesmo antes disso, disse: “É necessário que Jesus cresça e que eu diminua”. Mesmo preso, o justo pregador continuava ansioso por testemunhar a glória do Salvador. Lemos ainda no Evangelho que, ao ouvir na prisão sobre as maravilhosas obras e a pregação de Cristo, João enviou dois de seus discípulos a Ele para que os informassem, não duvidando que Cristo os convenceria de que Ele era o Messias; e que, por meio de suas respostas, eles deixariam de lado seus preconceitos e se uniriam a Ele.

Herodes continuou a respeitar João; às vezes, mandava chamá-lo e o ouvia com prazer, embora se incomodasse quando era repreendido por ele por suas faltas. Enquanto isso, Herodias buscava uma oportunidade para arquitetar a destruição do Batista. Finalmente, surgiu uma ocasião favorável aos seus planos. Era o aniversário do rei, quando ele ofereceu em seu castelo um esplêndido banquete para a nobreza da Galileia. Durante um banquete suntuoso, Salomé, filha de Herodias com seu legítimo marido, dançou diante dos convidados e agradou tanto ao rei com sua dança que ele lhe prometeu, sob o juramento sagrado de um juramento, conceder-lhe tudo o que pedisse, mesmo que fosse metade de seus domínios. A jovem consultou sua mãe, que a enviou às pressas para exigir que a cabeça de João Batista lhe fosse trazida imediatamente em um prato. Esse pedido estranho surpreendeu o próprio tirano embriagado. Ele, porém, concordou, embora com relutância, mas, por causa de seus juramentos e daqueles que estavam à mesa, ordenou a um soldado de sua guarda que decepasse a cabeça de São João. Dessa forma, a cabeça ensanguentada do santo profeta foi levada para o salão, onde comeram, beberam e se divertiram com música, e foi entregue à jovem dançarina, que a pegou e a levou para sua mãe. Sem dúvida, Herodes não pensou, ao fazer o juramento, que era pecaminoso, mas cometeu um pecado muito maior ao cumpri-lo. E assim foi que João Batista, o homem do deserto, terminou sua vida, sendo uma das principais causas de sua morte uma ceia pecaminosa. Mas, pela misericórdia de Deus, ele não foi morto antes de cumprir seu grande dever como precursor de nosso Senhor Jesus Cristo. As muitas virtudes de São João, as de mártir, virgem, mestre e profeta, foram exaltadas em louvor pelo próprio Cristo, quando disse às multidões do povo: Em verdade vos digo que, entre os nascidos de mulher, não surgiu ninguém maior do que João Batista. Quando seus discípulos ouviram que João fora executado na prisão, vieram, tomaram seu corpo e o depositaram em um túmulo.

As desgraças que sobrevieram a Herodes após a morte de João Batista, diziam os judeus, foram castigos de Deus pelo assassinato de seu servo, como registra seu historiador, Flávio Josefo. Aretas, rei da Arábia e pai da primeira esposa de Herodes, desferiu um golpe mortal contra o exército do governante galileu. Logo depois disso, o imperador romano exilou Herodes. As santas relíquias de São João não permaneceram para sempre em seu túmulo em Sebastia. Quando o santo apóstolo Lucas visitou esta cidade, levou consigo o braço direito do santo e o trouxe para Antioquia, onde os cristãos o guardaram com carinho por muito tempo. Quando, em 956, os muçulmanos tomaram posse de Antioquia, um diácono chamado Job levou a relíquia para Halcedônia, de onde foi transportada, na véspera da Epifania, para Constantinopla. O sultão turco Bajazet, desejando agradar aos Cruzados, presenteou os Cavaleiros de Malta com a mão do grande Batista. Em 1799, esta ordem de cavaleiros enviou a relíquia de São João ao Imperador Paulo I da Rússia. A Santa Igreja celebra o nascimento de São João Batista em 24 de junho/07 de julho. Em 29 de agosto/11 de setembro, comemora sua decapitação. E no dia 07/20 de janeiro, a Igreja louva o grande santo por toda a sua vida, suas obras e sua missão, pois ele foi escolhido para ser aquele que batiza Jesus Cristo, Filho de Deus.


São Sebastian (Dabovich)
tradução de monja Rebeca (Pereira)

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Aurora Ortodoxia

Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

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