A GUERRA INTERIOR E A PAZ QUE SE SEGUE
A batalha espiritual sobre a qual os santos falaram e escreveram não é uma metáfora, mas um termo que nos lembra que toda guerra e todo crime — seja pessoal ou político — começam no pensamento, numa semente interior. Estamos em guerra a cada minuto de nossas vidas. Onde há duas pessoas, existe a tentação da guerra. Caim e Abel eram irmãos de sangue, mas uma guerra eclodiu entre eles, e Caim matou Abel.
Toda paixão que cria raízes em nossos corações é um prenúncio de guerra. Toda paixão é um anjo da morte. As sete paixões capitais recebem esse nome não apenas porque matam a nossa alma, mas também porque, assim que surge um motivo, elas se lançam contra o próximo e o matam.
A guarda dos sentidos, a guarda da mente e a guarda do julgamento expresso em palavras devem nos proteger dessa guerra abrangente. Tudo o que ouvimos é dito para que acreditemos nisso, mas apenas a palavra de Deus é a verdade. Que cada um julgue quanto de tudo o que ouviu provém de Deus e diz respeito a Ele, e quanto provém de pessoas inflamadas pela ira e pelo descontentamento. Dessa forma, perceberemos o quanto estivemos expostos a essa batalha.
Não basta fugir do mal e da contenda: devemos buscar a paz interior a que o Profeta David se refere como um guia vivo — e que cremos ser uma Pessoa: o Espírito Santo: “Aparta-te do mal e faze o bem; busca a paz e segue-a” (Sl 33, 14).
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“Não ambicioneis coisas elevadas, mas acomodai-vos às humildes”, diz o Apóstolo Paulo (Rm 12, 16). Aqueles que justificam suas ações com palavras grandiosas entregam-se a um orgulho presunçoso, pois se comparam a grandes homens, chegando ao ponto de justificar a própria maldade com as Escrituras. Assassinos sempre dizem que mataram em nome da justiça, que estavam pondo fim ao mal — embora o mal estivesse neles mesmos. É por isso que o Apóstolo continua: “A ninguém retribuais o mal pelo mal” (Rm 12, 17).
A arrogância conduz ao homicídio, pois provém do autor da exaltação orgulhosa: o diabo, o pai da mentira e homicida desde o princípio (cf. Jo 8, 44). Aqueles que se consideram sábios e têm uma opinião elevada de si mesmos podem chegar a matar, acreditando estar fazendo algo bom: “Sim, vem a hora em que todo aquele que vos matar pensará estar prestando um serviço a Deus” (Jo 16, 2). É por isso que devemos afastar quaisquer pensamentos de vingança que nos surjam sob o pretexto de justiça — independentemente de contra quem sejam dirigidos —, pois eles escondem o desejo diabólico de matar, o qual afasta a graça de Deus.
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Por que Cristo disse a Pedro que ele O negaria três vezes antes que o galo cantasse? Por que Ele não disse “antes do nascer do sol” ou “antes do amanhecer”? Por que Ele teve de associar o galo à traição? Porque a aurora e o início de um novo dia são coisas comuns que passam despercebidas, enquanto o canto do galo jamais passa despercebido.
Na história da traição de Pedro, o que choca não é apenas a traição em si, mas o fato de que Pedro sequer percebeu o seu pecado. Nem na primeira, nem na segunda, nem na terceira vez. Foi somente quando o galo cantou que Pedro se lembrou da palavra de Jesus, que lhe dissera que ele O negaria antes que o galo cantasse (Mt 26,75).
Só então a sua consciência despertou; afastando-se daqueles que o tinham visto negar a Cristo, ele chorou amargamente.
Negar a Cristo produz, antes de tudo, um coração petrificado, incapaz de enxergar a própria queda. Por isso, Cristo associou a traição ao canto penetrante do galo para despertar Pedro, que, de outra forma, teria permanecido por muito tempo no torpor espiritual causado pela sua negação. Isso nos revela o grande amor d´Aquele que foi traído, que não suportava a separação de Pedro — assim como, de fato, Ele não suporta a separação de nenhum de nós que vivemos nesse mesmo estado de petrificação.
O único benefício real da tecnologia de massa seria se as massas se tornassem melhores e mais inteligentes. Mas vemos o oposto: a tecnologia embota a mente. A pergunta é: a tecnologia nos torna estúpidos porque foi feita por pessoas estúpidas? Se fosse assim, não teríamos evoluído nada; teríamos ficado presos na estupidez. Se foi criada por pessoas inteligentes, então estamos lidando com mentes diabólicas que inventaram a mente perfeita para destruir a humanidade, pois nada é mais perigoso para o homem do que a estupidez.
A ideia de evolução humana por meio das conquistas de grandes mentes científicas ruiu.
As pessoas só podem crescer interiormente contemplando o modelo de perfeição e bondade que é Cristo, e só podem manter-se em um nível elevado por meio de um trabalho comum, o que só é possível na Igreja.
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O maior dom de Cristo é que, por Sua própria morte, Ele conduz o nosso amor a lugares que não podemos alcançar, consola aqueles com quem não podemos estar e torna possível tudo o que é impossível para os homens.
Que o coração de todos se encha de amor e que nos tornemos presentes, por meio de Cristo, no coração daqueles a quem amamos. Perdoemo-nos uns aos outros em nome da Ressurreição e agradeçamos a Cristo por todas as coisas.
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E, enquanto falavam sobre isso, o próprio Jesus pôs-Se no meio deles e disse-lhes: “A paz seja convosco”. Mas eles, aterrorizados e assustados, pensaram que viam um espírito. E Ele lhes disse: “Por que estais perturbados? E por que surgem dúvidas em vossos corações?” (Lc 24,36–38).
O próprio Cristo aparece entre os discípulos e lhes concede a paz com Seus lábios puríssimos, mas eles permanecem confusos. Pois a verdadeira paz é uma conexão com o poder da fé, do qual os discípulos estavam privados nos dias da Crucificação. Os frutos do Espírito não podem habitar em nós enquanto estamos divididos, mas apenas quando estamos unidos. Eles não conseguiam acolher a paz em seus corações, perturbados que estavam pela dúvida e pelo medo.
Ninguém pode ter a paz de Cristo sem uma fé viva, que abre o coração para receber a bênção. Disso compreendemos que a confusão, a incredulidade, a covardia e o desespero — hoje chamado de “depressão” — só podem ser curados pela força de vontade pessoal, na qual nem o próprio Cristo interfere, para não violar nossa liberdade de escolha. Somente após a correção da mente, provocada por um esforço interior do coração, é que a fé e a esperança nas promessas de Cristo podem ser restauradas — uma esperança nascida do amor. A alma pode receber a paz: Cristo a derrama continuamente sobre todos, bastando que estejamos prontos para recebê-la.
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Não há fraqueza na qual seja mais fácil cair do que o abatimento do espírito. Desde que nos entendemos por gente, sempre precisamos de encorajamento. Desde os nossos primeiros passos, o nosso primeiro medo das galinhas, do vento e da chuva. Existe criatura mais temerosa do que o homem? Somos tão frágeis…
Sentimo-nos legitimamente desanimados, pois nada podemos fazer por conta própria. Além disso, somos a única criatura que sabe que vai morrer. Então, como podemos nos orgulhar depois disso? Somente em Cristo temos ousadia, e somente em Seu nome e a partir d’Ele podemos inspirá-la nos outros.
Sabendo que caímos tão facilmente no desânimo, não revelemos nossos medos e nosso abatimento aos outros. E isso é por amor a eles, poupando-lhes as almas para que não absorvam a nossa fraqueza.
É por isso que a Igreja possui o Sacramento da Confissão, no qual revelamos nossas enfermidades, medos e desânimos; não o fazemos, porém, diante de pessoas tão fracas quanto nós, pois, além de perturbá-las, nós mesmos não receberíamos alívio ou ajuda alguma, apenas multiplicaríamos a nossa fraqueza.
Sejamos benevolentes para com os outros — esse é o caminho cristão. E, àqueles que se importam com as fraquezas do próximo e não depositam suas próprias mágoas sobre os ombros dele, Deus vem em auxílio e, como recompensa, afasta deles a tristeza, transformando-a em alegria.
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O que atrai as pessoas até nós? O que as faz querer ser nossas amigas? Beleza, fama, boa reputação, riqueza e, até certo ponto, o conhecimento. Tudo isso tem suas vantagens. Ninguém se senta ao lado de alguém que ficou desfigurado pela doença ou pela velhice, ou que perdeu a honra e o poder e caiu na miséria. Mas é justamente aí que começa o verdadeiro amor — o amor com que Deus nos ama. Deus nos ama mais quando ninguém mais precisa de nós, pois só então aprendemos a valorizar o amor.
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O diabo utiliza a justiça enquanto consegue incitar a guerra e a divisão. Mas, quando a sede de justiça não gera inimizade, e sim ordem, então o diabo levanta caluniadores. Por isso, Cristo abençoa aqueles que têm sede de justiça apenas se forem pacificadores. No entanto, todos os golpes sangrentos que levaram à tirania foram realizados fomentando-se a sede de justiça — mas trata-se de uma justiça humana, desprovida de paz.
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Foi necessária a invenção do pensamento artificial para demonstrar que Descartes estava errado ao dizer: “Penso, logo existo”. Com a invenção de máquinas pensantes, o pensamento não pode mais ser considerado uma propriedade ontológica da pessoa. O sinal vivo da existência não é o pensamento, mas a oração. Ninguém jamais inventará uma máquina capaz de rezar.
O homem privado da graça chega ao ponto de usar a lei e as palavras de Deus para praticar o mal. Na mente e na boca de um homem privado da graça, até mesmo os mandamentos do Senhor são distorcidos. Assim, ele julga e oprime, acreditando estar realizando uma obra santa. Esse zelo transformou imprudentemente algumas pessoas em assassinos sem qualquer remorso, conforme predisse o Evangelista João: Expulsar-vos-ão das sinagogas; e vem a hora em que todo aquele que vos matar cuidará fazer um serviço a Deus (Jo 16, 2).
É por isso que tanto a severidade quanto a tolerância que demonstramos aos outros só dão frutos na obra espiritual se agirmos segundo o movimento da graça de Deus. Caso contrário, nem a observância dos cânones nem as citações dos santos produzirão frutos salvíficos se provierem do espírito humano.
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De todas as coisas que temos de suportar na terra (e a paciência é o caminho salvador que Cristo nos exorta a seguir em Mt 10,22), a mais difícil é tolerar a falta de amor nos outros.
Quando outra pessoa não tem amor, qualquer boa ação, qualquer ato de caridade, qualquer compaixão transforma-se no seu oposto.
Cristo curou os enfermos, expulsou demônios, restituiu a visão aos cegos, ressuscitou os mortos e, em vez de gratidão, recebeu acusações de trabalhar no sábado, de estar possesso por um demônio, de blasfemar. Em resposta ao amor, Cristo foi condenado à morte.
A ausência de amor não é nada além de inveja, e a inveja sente-se ferida por qualquer bem que alguém faça, mesmo quando essa boa ação é feita ao próprio invejoso.
É por isso que somente através do nosso próprio amor podemos participar do amor de Cristo. Caso contrário, para alguém desprovido de amor, o próprio Paraíso seria motivo de sofrimento.
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Não podemos salvar o planeta, porque não conseguimos sequer salvar a nós mesmos. Não podemos salvar nada. Nem sequer uma árvore. Nem sequer uma flor. Tudo neste universo passa e se desintegra. Mesmo que as pessoas parassem de comer vacas, porcos ou galinhas, o planeta não seria salvo. Pois até mesmo vacas, porcos e galinhas morrerão de doenças e de velhice.
Em condições naturais, os animais morrem em terrível agonia, despedaçados por algum predador ou por aves. Ou sufocam durante dias e semanas enquanto seus corpos apodrecem. Se os animais começassem a morrer de velhice, o mau cheiro e as infecções que emanariam deles destruiriam a humanidade.
Sim, este mundo como o conhecemos entrará em colapso. A humanidade decairá a tal ponto que não haverá sentido em perpetuá-la neste mundo. As pessoas tornar-se-ão tão obtusas que todas as suas ações levarão à destruição de todos e de tudo. E a causa dessa degeneração para um estado animalesco e até demoníaco não será outra senão a perda da fé em Deus, como o próprio Cristo disse: Quando vier o Filho do Homem, encontrará fé na terra? (Lc 18,8).
A única coisa que nós, como pessoas, podemos salvar é a nossa própria alma. Não o planeta, não uma árvore, não animais ameaçados de extinção.
Se as nossas almas estiverem voltadas para o Céu, nada de terreno poderá nos cegar: não precisaremos derrubar milhões de hectares de floresta; não atormentaremos milhões de animais, mantendo-os na escuridão e na imundície para obter maiores lucros; não envenenaremos as águas, pois não transportaremos petróleo nem substâncias tóxicas por elas. Não precisaremos de bombas e mísseis para destruir milhões de pessoas inocentes; não precisaremos de nada que empurre o mundo para a autodestruição.
Buscai, pois, em primeiro lugar, o Reino de Deus e a Sua justiça, e todas essas coisas vos serão acrescentadas (Mt 6,33)!
Hieromonge Savati (Bastovoi)
tradução de monja Rebeca (Pereira)







