O fim do mundo
Hoje em dia, muitas pessoas falam sobre o fim do mundo — tanto religiosas quanto não religiosas. E tudo isso é interpretado de diversas maneiras e associado a todo tipo de temor.
Ao mesmo tempo, é evidente que existe certa periodicidade com a qual surgem — e depois gradualmente desaparecem — as conversas sobre o fim da vida na Terra. A razão para isso é, antes de tudo, a instabilidade do mundo em que vivemos. Em grande parte, ele é sempre instável, mas há períodos que exigem cautela redobrada. No momento atual, também vemos muito que desperta desânimo e desespero em alguns, e indignação e raiva em outros. Surge a sensação de que não há nada no mundo ao nosso redor em que possamos depositar nossa esperança; de que o ser humano é apenas um grão de areia; de que ninguém se importa se ele vive ou morre, ou se preocupa com o seu bem-estar. Poderíamos dizer que esse é o sentimento geral, em maior ou menor grau, e que ele se tornou agudo. E, com base nisso — e também, pode-se dizer, de forma típica —, renova-se o interesse por todo tipo de misticismo, desde interpretações particulares do livro do Apocalipse até estudos sobre o calendário maia, que supostamente previa o fim do mundo em 2012.
Como um cristão fiel deve encarar essas conversas, rumores e “investigações”? Por um lado, ao contrário do resto do mundo, devemos ter a absoluta certeza de que, mais cedo ou mais tarde, tudo o que foi predito nas Revelações do apóstolo e evangelista João, o Teólogo, certamente se cumprirá. Além disso, temos uma compreensão precisa do que precederá o fim do mundo e de como isso acontecerá, pois tudo isso nos foi revelado no Apocalipse. Mas, por outro lado, nós — novamente, ao contrário de todos os outros — temos bons motivos para não temer esses eventos futuros, pois está escrito nos Evangelhos: “Ora, quando essas coisas começarem a acontecer, olhai para cima e levantai as vossas cabeças, porque a vossa redenção está próxima… Assim também vós, quando virdes acontecerem essas coisas, sabei que o Reino de Deus está próximo” (Lc 21, 28.31). Estas são as palavras do próprio Cristo, e elas são dirigidas precisamente a nós, e não a outra pessoa. No entanto, vemos que, justamente em nosso meio — o meio dos cristãos ortodoxos —, surgem por vezes rumores ridículos e alarmistas; instala-se uma confusão que de modo algum condiz com o grau de clareza, firmeza e sobriedade orante com que devemos encarar o fim deste mundo.
Escolhemos o que vivemos
Que erros espirituais os cristãos crentes cometem ao contemplar os tempos do fim? Antes de tudo, há o que poderíamos chamar de crença em profecias de natureza não profética. Tudo o que deveria ter sido anunciado à humanidade sobre o fim do mundo foi anunciado nas Sagradas Escrituras; não haverá outras profecias ou revelações “adicionais”. Portanto, assim que alguém começa a dizer que supostamente sabe algo mais, podemos imediatamente concluir que isso não é verdade.
Outro erro muito difundido é a convicção de que o mundo está supostamente progredindo — ou, pelo menos, deveria progredir — em direção a um avanço espiritual supremo. Na realidade, não apenas não estamos avançando, como também nos afastamos cada vez mais daquilo que constituía a concentração espiritual na história mundial; somos capazes de conservar muito pouca graça e, em nossos dias, já não vemos aquela grandeza de santidade que estava presente na Igreja primitiva. Esse empobrecimento, essa degeneração, é um processo natural que continuará e se intensificará ainda mais até o fim dos tempos. Nos últimos tempos, haverá também aqueles que agradam a Deus, como disseram os Santos Padres, mas eles passarão quase totalmente despercebidos em meio às outras pessoas, pois a sua atuação estará “dissolvida na humildade”.
Há ainda outro erro (ou, mais precisamente, um temor) com o qual às vezes nos deparamos. Trata-se da ansiedade de alguns cristãos de receberem, de alguma forma, o selo do Anticristo antes mesmo de ele aparecer — o receio de que possamos recebê-lo não por escolha, mas inadvertidamente, por descuido. Nos últimos anos, surgiram até falsos ensinamentos sobre um “pré-selo”: a suposição de que uma pessoa poderia recebê-lo sem realmente compreender o que está acontecendo e que, então, o Anticristo viria e “marcaria” automaticamente todas essas pessoas como “suas”. Tudo isso não passa de fantasia mórbida; claramente, não tem qualquer fundamento nos ensinamentos da Igreja. O mesmo vale para a ideia de que alguém poderia “não perceber” a vinda do Anticristo. Não; tudo o que está escrito no livro do Apocalipse se manifestará às pessoas de maneira perfeitamente evidente. E, se isso ocorrer durante a nossa vida, cada um de nós fará uma escolha que, embora realizada em circunstâncias críticas, será, ainda assim, consciente e livre.
É fundamental ressaltar que essa escolha será, sem dúvida, condicionada e preparada por toda a nossa vida anterior — pelas decisões que tomamos a cada dia, a cada hora e até a cada minuto. Essencialmente, a infinidade de alternativas resume-se a duas: ou ouvimos a nossa própria consciência, ou a desprezamos.
Uma escolha de âmbito mundial?
O tema do fim do mundo está também intimamente ligado ao assunto das sociedades secretas — maçônicas, entre outras. Alguns acreditam nisso e interpretam todos os processos sociais e morais sob essa ótica, enquanto outros riem e consideram tudo ridículo. Contudo, mais uma vez, todo cristão fiel depara-se com o desafio de lidar com essa questão de forma sensata.
Antes de tudo, não devemos alimentar ilusões: no mundo em que vivemos, há uma luta incessante pelo poder, que só terminará com o fim do mundo. É difícil não supor que, nessa disputa, existam aqueles que lutam pelo domínio secreto do mundo. No entanto, o fim do mundo de que falamos não pode ser arquitetado por nenhum poder político, nem mesmo por um governo mundial; aliás, esses poderes não desejam o fim do mundo — eles almejam um paraíso terreno. No entanto, o que acontece em nossos próprios corações acelera ou adia o fim do mundo. Pois o Senhor porá fim à existência do mundo quando todo o sentido dessa existência se perder: quando não nascerem mais na terra pessoas que desejem — ou que sequer sejam capazes de — estar com Cristo. E, nesse sentido, aquele breve, porém terrível, período em que o Anticristo reinará sobre a terra será a última misericórdia de Deus para com a humanidade caída; pois, diante do mal absoluto, uma parcela das pessoas — talvez ínfima — compreenderá, ainda assim, quem é o Senhor e, no último instante, correrá para Ele.
Não ceda ao cansaço
Quanto ao Anticristo, devemos, sem dúvida, ter em mente que ele não surgirá do nada: ele emergirá do caos. Trata-se de uma estratégia muito eficaz e perfeitamente compreensível para o homem moderno: basta mergulhar qualquer território em um estado de caos — desunião, horror, desespero e taxas de mortalidade altíssimas — e, quando as pessoas já não tiverem forças para lutar por nada nem esperança de promover qualquer mudança, trazer para o centro do palco um poder, uma pessoa que unifique tudo sob o seu comando, ponha fim à desordem e, graças a isso, receba poder absoluto. Contudo, juntamente com isso, o Anticristo exigirá também a renúncia a Cristo.
A fadiga moral das pessoas, o desejo de transferir toda a responsabilidade por suas escolhas e vidas para os ombros de outrem, e a imprecisão dos critérios para avaliar alguém como personalidade e governante desempenharão um papel fundamental na aceitação do anticristo pela humanidade. E podemos ver, sem necessidade de qualquer visão mística, que as condições prévias para tudo isso já estão presentes no mundo ao nosso redor. Tradições nacionais, familiares e culturais estão sendo destruídas — e um espaço desprovido de tradições é como gelo liso: é muito fácil escorregar, muito difícil manter-se firme e praticamente impossível mover-se em qualquer direção.
Como podemos evitar cair nessa fadiga interior, mesmo quando ela se torna, como se diz, uma tendência mundial? A resposta pode parecer simples: o ser humano está sempre sujeito a cair em um estado de apatia, em vez de tentar discernir o bem e o mal em sua vida. Na verdade, o encontro com o mal em si não é a coisa mais difícil; muito mais difícil é a pessoa vagar literalmente por entre emaranhados, incapaz de discernir onde estão as trevas e onde está a luz, tanto no mundo ao seu redor quanto em sua própria existência. Portanto, repito: esse discernimento deve tornar-se uma habilidade habitual para nós — a cada dia, a cada hora, a cada minuto.
Quando o triunfo da vaidade é destruído…
Podemos aceitar, sem entrar em pânico, a realidade de um mundo que parece ruir em seus próprios alicerces? Sim, e certamente devemos fazê-lo. Como sacerdote, frequentemente celebro funerais; e não posso deixar de notar, entre os presentes, rostos não tanto de pesar, mas de medo e abatimento — pessoas que, na verdade, jamais esperavam que a vida terrena de alguém próximo pudesse chegar ao fim. Em certa medida, elas não prestam muita atenção ao que está sendo cantado naquele momento — e, no entanto, cantam-se palavras de uma profundidade extraordinária (se o funeral for celebrado segundo o rito completo): “Hoje, o triunfo maligno da vaidade é destruído…” Toda a vaidade que preenchia a vida daquela pessoa desaparece, e resta apenas o que é real. Da mesma forma — de repente, inesperadamente, num instante e para sempre —, um dia a vaidade desaparecerá para cada um de nós e, um dia, para o mundo inteiro também. A tentação, a dor e o sofrimento chegarão ao fim. E o Senhor nos acolherá — como sempre esperamos — em Seu abraço paternal.
Igumeno Nektary (Morozov)
tradução de monja Rebeca (Pereira)






