SE CRISTO ESTÁ CONOSCO, A MORTE ESTÁ VENCIDA
Cristo disse que estamos realmente caminhando para o fim. Quando isso acontecerá? Ninguém sabe. Talvez em 1.000 anos, talvez em 10.000, talvez em 5.000.000 — ninguém sabe. E isso não deveria nos preocupar. Por que não deveria ocupar nossa atenção? Primeiro, porque Cristo nos disse que ninguém sabe sobre o fim do mundo. Nem mesmo um santo sabe. Só Deus sabe, mas Ele não revelou isso a ninguém. E posso afirmar com certeza sobre o que está sendo divulgado online agora, que o fim do mundo virá em 2012 — não virá em 2012.1 Pode vir em outros anos, talvez — em 2011, em 2013, em 2015, mas não em 2012. O Senhor não permitirá que falsas profecias se cumpram. Podemos dormir tranquilos em 2012 — o mundo não acabará então.
No entanto, há outro fim — o nosso. Ele certamente acontecerá, e em breve. Nossos anos estão contados, e a vida tem um limite. Você tem cinquenta anos agora — terá mais vinte, trinta, quarenta ou cinquenta anos, e é isso. Devemos aceitar que haverá um fim para nossas vidas e o fim do mundo. Eles virão. O que é importante pensar? Não sobre o momento exato, mas sobre como você encontrará e receberá esse fim, e que esse fim não é realmente o fim da vida, mas sim a sua entrada na eternidade.
Seria bom refletirmos sobre como trilharemos este caminho e como será nosso relacionamento com Cristo na eternidade. Se pensarmos nisso, deixaremos de esperar que nos tornemos alguém importante. Tudo isso é transitório. E sua jornada terrena chegará ao fim. Não haverá ninguém na Terra que o conheça, que se lembre de você. Somente Deus Se lembra de nós. Somente Deus Se lembra de todos nós. Em funerais, dizemos: “Memória eterna”. Não se trata de nós, humanos. É um absurdo quando as pessoas dizem: “Você fez tanto, e nos lembraremos de você para sempre!” Você mesmo partirá amanhã, e eu partirei depois de você. E como você se lembrará dele? Não gosto dessas palavras vazias.
Normalmente, não suporto ouvir os discursos proferidos em funerais. Mexo no meu báculo e rezo para a Theotokos: “Basta, Santíssima Theotokos!” As pessoas dizem tantas coisas estúpidas… Uma espécie de teatro, brincando com a dor alheia. Bastaria dizer algumas palavras de conforto sem causar todo esse caos. Infelizmente, transformamos isso em um teatro. Deus Se lembra do homem. Deus sempre o guardará em Sua memória. E quando cantamos: “Que a sua memória seja eterna, pais e irmãos dignos de bem-aventurança e memória perpétua”, significa que você sempre permanecerá na memória de Deus.
Quando Deus Se lembra de você, significa que você existe, que você está vivo, que você é a imagem de Deus, que teu espírito e tua alma repousam em Deus. Quando Deus não quer Se lembrar de você, não quer te ver (não porque Ele não queira, mas porque tua alma O renunciou, rejeitou o amor de Deus, rompeu tua conexão com Deus e renunciou à memória eterna de Deus), isso é lamentável para você. O Senhor fala sobre isso nos Evangelhos. Procure viver os poucos anos que te são concedidos na Terra com dignidade diante de Deus, para que você possa atravessar os portões da eternidade e comparecer diante de Deus puro, arrependido, unido à graça de Deus, vivendo em Deus e tendo vencido a morte; para que você supere a corrupção, supere o desespero, para que você não viva longe de Deus, mas viva eternamente com Ele. Esta é a vitória de Deus sobre a morte, a vitória sobre a corrupção. Este é o nosso fim pessoal.
Mas o Senhor também nos falou sobre o fim do mundo porque haverá cristãos vivendo nesses tempos. O Senhor nos falou sobre os sinais que precederão o fim. Ele nos falou sobre esse fim no Evangelho e no Apocalipse de João por meio de imagens e símbolos. Mas Ele não nos revelou isso para que entrássemos em pânico e perdêssemos o sono à noite, vendo gafanhotos vindo sobre nós e todas aquelas visões que foram reveladas ao apóstolo João. Ele queria nos deixar uma mensagem muito importante: “Não temais, Deus vencerá no final”. Não importa o que aconteça, Deus vencerá. Às vezes parecerá que o Anticristo está vencendo, que os falsos profetas estão vencendo. Deus permitirá que eles façam o que quiserem sem restringir sua liberdade, na medida em que nossa inação e malícia permitirem.
Mas o Senhor porá fim a tudo, não para nos punir, mas para dar ao homem um novo nascimento, para trazê-lo para o Reino eterno, para restaurar tudo aos Seus próprios caminhos, como era no princípio, para recriar o homem à imagem de Deus; para que todos os que amam o Senhor possam viver com Ele; para que haja um novo Céu e uma nova Terra, onde Deus reina, onde não há dor, nem tristeza, nem mesquinhez humana, mas somente Cristo em todo lugar e em todas as coisas. O Senhor nos deixou esta bendita mensagem de esperança. Ele nos disse para não temermos nada. Vocês ouvirão falar de guerras, de perigos — um, depois outro, depois um terceiro. Não se deixem levar pelos seus pensamentos e não tenham medo. É assim que deve ser e será. Mas isso passará. E não tenham medo. Não olhem para o que está acontecendo agora, mas para Aquele que está vindo; para Cristo, que é o Rei de tudo e de todos que o receberam e o amaram.
Um sinal notável dos últimos tempos será o aparecimento de muitos falsos profetas. Hoje vocês podem ver que há muitos profetas. A terra está cheia deles — todos se tornaram profetas ou profetisas. Mas a profecia é um dom do Espírito Santo. E os dons do Espírito Santo não são dados rapidamente; Eles valem muito, são extremamente valiosos. São dados com um propósito, não aleatoriamente. Nenhum profeta sairá por aí dizendo: “Sou um profeta! Deus me revelou isso e aquilo”. Eles não espalharão isso por aí. Saiba que todos esses profetas que você vê na TV e ouve no rádio, que dizem que Deus, os santos, a Theotokos (Mãe de Deus) lhes revelaram algo, que falam com Deus e recebem respostas d´Ele, estão iludidos.
Os profetas de Deus têm os dons do Espírito Santo e as características dos verdadeiros profetas. A primeira característica distintiva é a Igreja. Os dons do Espírito Santo não atuam fora da Igreja. Não há profetas fora da Igreja, entre outros credos e hereges. Lá existem falsos profetas, falsos messias e anticristos. Os dons do Espírito Santo não operam fora da Igreja. O Senhor estabeleceu a Igreja, e os dons do Espírito Santo atuam no corpo dos batizados. Isso não significa que todos os outros irão para o inferno. São coisas diferentes. Os dons do Espírito Santo são uma coisa, e quem irá para o Paraíso é outra. Não são apenas os profetas e clarividentes que irão para o Paraíso.
Eu não sou profeta. Provavelmente já lhes contei a história de uma mulher que me ligou no Mosteiro de Maheras e perguntou: “Padre Atanásio, por favor, diga-me honestamente, o senhor tem o dom da clarividência?” Respondi: “Serei franco: infelizmente, não tenho o dom da clarividência.” “Talvez o senhor esteja dizendo isso por humildade?” “Não, não tenho essa humildade. Gostaria de ter o dom da clarividência, mas não me foi dado. O que se pode fazer?” “Onde posso encontrar alguém que tenha o dom da clarividência?” “Abra a lista telefônica e procure — deve haver alguns profetas lá.” “Será que profetas deixam seus números de telefone?”
O povo de Deus não se incomoda com essas bobagens. Vá dizer ao Ancião Paisios, ao Ancião Porfírio, que eles são profetas — eles vão achar que você está louco. E eles realmente eram profetas. É impossível imaginá-los dizendo: “Minhas palavras são proféticas”. Eles eram muito tímidos e humildes, pessoas profundamente humildes. Nunca se vangloriavam. Os dons são dados para a organização e o fortalecimento da Igreja a certas pessoas — ascéticas, virtuosas, extremamente humildes, de coração puro — para o bem da Igreja. E não para que escrevamos livros, nos deixemos levar por fantasias, tenhamos seguidores e coisas do gênero. Mas nossa salvação não depende de termos profetizado ou não. Todos são convidados para o Reino de Deus. Os dons não têm nada a ver com a salvação nesse sentido. A salvação é para o mundo inteiro. São João Clímaco diz:
Saibam, amados, que os vales se encherão de trigo (Sl 64,14) e de frutos espirituais. Este vale é uma alma humilde e simples entre as montanhas, isto é, repleta de trabalhos e virtudes, e que permanece sempre despretensiosa e firme. Davi não disse: “Jejuei”, “Vigiei” ou “Prostrei-me em terra nua”, mas sim: “Humilhei-me, e imediatamente o Senhor me salvou” (Salmo 114:6) (Escada 25:13).²
Eu não tinha mais nada; estava buscando dons, não me ocorreu isso. Mas me humilhei, me arrependi, mudei minha maneira de pensar e pedi salvação ao Senhor. A humildade nos salva, não os dons. Se você tem talentos, mas não se humilha, eles o destruirão. Você cairá na vaidade, no orgulho.
Certa vez, uma mulher possuída agarrou a mão de um estudante da escola teológica, colocou a mão dele em sua boca e começou a gritar: “Você me queimou, você me queimou, você me queimou!”. Profundamente afetado, ele foi ver o Ancião Paisios, e o Ancião lhe disse: “Você entendeu tudo errado! É ele quem queimou você. Ele implantou pensamentos tão orgulhosos em sua mente, fazendo você pensar que é alguém especial, que todos olhavam para você e diziam: ‘Que cara legal; até os demônios são queimados pelo seu toque’”. No fim, o diabo o queimou com orgulho.
Nossa vaidade e orgulho são tão grandes que o Senhor, em Seu amor, nos deixa sem Seus dons para que não pereçamos. Será que realmente vamos sonhar que começaremos a fazer milagres e a fazer todos felizes? Agradeço a Deus por ser gordinho. Não quero emagrecer. Imagine se eu tivesse a aparência de um esqueleto, as pessoas diriam: “Que homem santo! Pele e osso. Completamente emaciado pelo jejum, pelo ascetismo, pelas vigílias.” E eu começaria a pensar em como as pessoas me reverenciam, como me amam e entendem que sou um homem santo. Mas, em vez disso, todos olham para mim e pensam: “Como ele está gordo. Encontraram um verdadeiro santo! Gostaria de ver o quanto ele comeu no almoço hoje.” Pelo menos isso nos torna humildes. É o que eu digo aos meus irmãos corpulentos: “Glória a Deus! Pelo menos isso nos impede de sermos orgulhosos!” Eu teria muito orgulho se fosse magro como um santo monástico.
Reconhecemos os profetas por sua humildade, por pertencerem à Igreja. O povo de Deus é extremamente humilde; eles realmente se consideram inferiores a todos os outros. A essas pessoas o Senhor revela Seus mistérios, Sua vontade. O apóstolo João recebeu sua revelação para nos lembrar que Cristo é o Rei do mundo. Tanto em nossa vida diária quanto na vida do mundo inteiro, nem o que o diabo deseja nem o que o mal humano busca se concretizarão, mas sim o que Deus quer. O mal pode, por vezes, prevalecer nesta vida passageira. Pessoas podem morrer caluniadas injustamente, mas o Senhor virá e colocará tudo em seu devido lugar. Ele justificará para sempre toda pessoa injustamente condenada.
E o que tem verdadeira dignidade? O Reino eterno de Deus, não a festa deste mundo, que nos é dada por cinquenta, sessenta ou setenta anos. A palavra final sobre cada um de nós virá de Deus. E isso importa. Todas as outras palavras são vazias. Tudo passa, como uma névoa — tanto o bom quanto o ruim. O mais importante é o que Deus dirá sobre mim — a palavra final e mais importante. O mundo e as pessoas podem dizer coisas diferentes; cada um julga à sua maneira.
O livro do Apocalipse nos ensina muito, especialmente quando começamos a analisar cuidadosamente suas palavras, quando vemos como Cristo segura o mundo em Suas mãos e age com sabedoria em todas as coisas. Não somos esquecidos nem abandonados ao destino. Mas, ao mesmo tempo, o diabo tem seus direitos e sua liberdade, tem espaço para agir com base no que possui. A liberdade de cada homem é preservada pela sabedoria da providência e pelo amor de Deus. Ninguém ficará sem o justo julgamento de Deus.
Sempre houve um interesse especial no Apocalipse. Mas não precisamos analisar o livro de Apocalipse para saber o que acontecerá no futuro — quando o mundo acabará, quando ocorrerá a Segunda Vinda, se o Anticristo já nasceu ou não. Apocalipse não fala sobre isso. Apocalipse mostra como você deve se preparar para enfrentar e sobreviver a esses eventos; como você deve ser diante deles; como você deve buscar a Cristo; como permanecer fiel a Cristo; como evitar ser enganado, percebendo o que está acontecendo; como manter sua mente e seus olhos fixos em Cristo, não importa o que esteja acontecendo ao seu redor. É isso que você precisa observar. O resto acontecerá, e não poderemos impedi-lo.
Você percebe o que está acontecendo hoje? Eu li Apocalipse na segunda série do ensino fundamental e fiquei confuso, pensando: “Será que Deus realmente permitirá tanto mal no mundo? Será que Ele vai queimar o mundo? Será que virão gafanhotos e tudo mais?” Fui conversar com o padre da nossa paróquia. Ele era um homem muito bom. Eu lhe disse: “Padre, li Apocalipse e estou confuso”. Ele respondeu: “Filho, Deus é amor. Não é Deus quem vai fazer isso conosco. As pessoas é que farão tudo isso”. Ele respondeu de forma simples, mas com teologia correta. No fim, o homem destruirá o mundo. Deus não o destruirá; Ele não assumirá essa tarefa. Nós mesmos destruiremos tudo. Com as armas que temos hoje, o mundo poderia ser destruído num instante. E toda a poluição da natureza, as doenças — nenhum anjo vai providenciar tudo isso para nós — faremos tudo sozinhos. Você percebe o que está acontecendo? Nós mesmos criamos doenças e depois corremos para nos vacinar. Esses são todos sintomas. Eles indicam que este mundo tem um prazo de validade. Ninguém sabe exatamente quando, mas a destruição está acontecendo e está vencendo. Vemos o que está acontecendo ao nosso redor. Lendo o que foi escrito há dois mil anos, notamos a paz de Deus em cada capítulo e vemos como o homem permanece em paz quando Deus está com ele.
Lembro-me de uma monja do Monastério de Santo Heráclio, a Irmã Christodouli. Era uma senhora idosa muito graciosa, rechonchuda, alegre e forte. No final da vida, as monjas cuidaram dela. Ela começou a dizer: “Vou morrer, meu fim está próximo”. Chamou as demais irmãs para lhes entregar os ícones de sua cela. Distribuiu-os e pediu que se lembrassem dela quando morresse. As irmãs perguntaram se ela tinha medo de morrer. Ela ficou perturbada: “O que vocês estão me dizendo? Não têm vergonha de dizer essas coisas? Somos monjas — do que vocês estão falando? Sou monja há cinquenta anos e vou ter medo de morrer?”
Fui visitá-la. Ela disse que estava sendo tentada pelas monjas, que estava começando a ficar nervosa com essas perguntas. “Não é vergonhoso para as monjas terem medo de morrer? Eu carrego Cristo no meu coração, então que tipo de conversa é essa? Afinal, eu recebo a Sagrada Comunhão.” Era um desafio para ela. “A única coisa que eu quero é que você venha ao meu funeral, para que eu possa vê-la.” Eu disse que talvez não desse certo se eu fosse a algum lugar. Afinal, eu não podia simplesmente ficar sentado esperando que ela morresse. Estávamos planejando ir a Jerusalém naquela época. “Vou dizer à Gerondissa para me colocar em hibernação até você chegar! Eu não quero morrer e ir embora sem você.” Concordamos que ela seria hibernada.
E, de fato, o Senhor providenciou tudo de acordo com o desejo do coração dela. Naquele dia, por acaso, eu estava no monastério. Fui vê-la. Ela já estava ligada ao oxigênio, respirando com dificuldade. Perguntei a ela: “Como vai, Irmã Christodouli?” Ela disse: “Geronda, me abençoe para que eu morra logo. Eu quero ir.” Eu a abençoei, e ela beijou minha mão e fez o sinal da cruz. Saí da cela dela e fui para minha cabana. Mas antes que eu pudesse chegar lá, uns cinco minutos depois, as irmãs ligaram e disseram que ela havia falecido. Foi assim que ela partiu.
Se Cristo está conosco, a morte é vencida. Já vimos dezenas de mortes do povo de Deus. A morte é algo terrível, difícil de superar. Morte, corrupção, idade, anos. Mas se Cristo está conosco, então Ele ilumina tudo. Apocalipse fala sobre a jornada da humanidade através de problemas, dificuldades, provações, perigos e lutas. Mas Cristo é a luz, a paz e a alegria do homem, e, portanto, o homem pode aceitar tanto o seu fim quanto o fim deste mundo em profunda paz. E essa paz não é um sentimento. Pode haver dor e luta humana, mas a paz pode reinar em nossos corações devido à presença de Deus. Estamos com Deus, em Suas mãos. Deus guia este mundo e minha vida, meus filhos e minha família. Às vezes, nos preocupamos com o que acontecerá com nossos filhos quando morrermos. Claro, isso é inerente ao ser humano. Mas entregue tudo a Deus e abandone esses pensamentos. Não se preocupe — coloque tudo nas mãos de Deus e você verá como o Senhor cuidará de tudo. Viva em paz, em Cristo, todos os dias. Tenha calma, paz e alegria.
Vamos concluir nossa conversa introdutória. Na próxima aula, nos voltaremos para o texto. Começaremos com o primeiro capítulo do Apocalipse do apóstolo João. É um livro difícil, mas vamos estudá-lo o máximo que pudermos.
Metropolita Atanasios de Limassol
tradução de monja Rebeca (Pereira)







