O PREÇO DA SANTIDADE. MEMÓRIAS DO ARCEBISPO JOÃO MAXIMOVICH – PARTE 2

Dois anos depois, no verão de 1961, no dia seguinte à minha formatura no seminário, empreendi uma peregrinação ao lar e às santas relíquias de São Germano, no Alasca, após obter a bênção do Metropolita Anastassy. Ele me disse: “Que Deus o abençoe. Vá e prostre-se em nosso nome diante do justo apóstolo Germano, pois nossa velhice nos impede de ir até lá. Reze por nós naquele lugar e leve nossa bênção ao justo eremita, nosso irmão Arquimandrita Gerasim”. Essa peregrinação memorável proporcionou-me uma visão mais clara da realidade eclesiástica e colocou-me, pelo resto da vida, em um caminho abençoado por São Germano. Antes de partir para a peregrinação, o Padre Vladimir abençoou minha viagem com um pequeno ícone dos Santos Sérgio e Germano de Valaam — uma bênção que ele recebera de seu próprio ancião, o Padre Filêmon de Valaam. Ele também me abençoou com um cordão de oração, que usei até que se reduzisse a um simples fio. Tanto o ícone quanto o terço foram colocados sobre as relíquias de São Germano.

Na viagem de volta, hospedei-me por cerca de uma semana na residência paroquial em Seattle, em um quarto de hóspedes no segundo andar — a segunda porta à esquerda. Durante minha estadia, perdi o cordão de oração. Em seguida, fui ao Canadá para visitar o ermo (skete) abandonado do santo Arcebispo Ioasaph. Enquanto percorria as pradarias canadenses e visitava os ermos, lamentava a perda do cordão de oração; nada me consolava, pois sobre aquele objeto repousavam a bênção de Valaam e a bênção de São Germano. Tendo perdido a esperança de encontrá-lo, voltei a São Francisco passando por Seattle; lá, eu deveria apresentar uma palestra com projeção de slides sobre minha viagem ao Alasca para o Arcebispo Tikhon e o Bispo Nektary, e, em seguida, para a Igumena Ariadna e as irmãs de seu monastério. A Igumena anunciou minha palestra em um jornal. A apresentação no monastério seria a mais importante, pois a bondosa Igumena decidira reunir todos os alunos de sua escola paroquial e toda a juventude local.

Um ou dois dias antes do evento, fiquei extremamente nervoso. A Igumena disse esperar que eu não me importasse em dividir a tribuna com o Arcebispo João, que acabara de chegar da França. Ela também me informou que havia organizado uma recepção para acompanhar a palestra. Senti-me, ao mesmo tempo, lisonjeado e aterrorizado por ter de falar na presença de uma figura tão importante quanto o Arcebispo João. No entanto, ela me garantiu que ele era muito gentil e compreensivo, possuía um coração de criança e que, se eu conduzisse a palestra de uma maneira simples e acessível — como para crianças —, ela seria um sucesso.

Chegando um pouco mais cedo do que o esperado, mal havia passado pela porta principal quando fui imediatamente chamado para atender a uma ligação urgente de Seattle, feita pelo meu amigo George Kalfov. George fora acólito do Arcebispo João em Xangai e havia sido curado por ele quando tinha quatorze anos. Ele já havia me contado muitas coisas sobre o Arcebispo João — descrevendo-o como um homem constantemente perseguido —, algo que eu sempre tive dificuldade em compreender.

Enquanto eu subia os degraus da igreja, a Igumena Ariadna pediu que eu me apressasse para atender ao telefone de longa distância, que ficava em seu aposento, sob a varanda da grande igreja. Ao entrar, vi o Arcebispo João sentado junto ao telefone, fazendo sinal para que eu me aproximasse. Ele me estendeu o fone antes mesmo que eu pudesse receber sua bênção. Enquanto o Arcebispo João segurava o fone, a primeira coisa que George me disse foi: “Onde está teu cordão de oração?” Confessei que o havia perdido e que ele era insubstituível. Nesse momento, o Arcebispo João — ainda segurando o fone junto ao meu ouvido — tirou o meu cordão de oração do bolso. George explicou que o Arcebispo João havia ficado hospedado no meu quarto em Seattle, encontrara o cordão de oração ali e estava devolvendo-o naquele instante. Ao ver meu cordão de oração nas mãos do Arcebispo João, estendi a mão automaticamente para pegá-lo; porém, embora tenha permitido que eu o segurasse, o Arcebispo João puxou-o para si, como se não quisesse se separar dele, atraindo-me ao mesmo tempo para perto de si. Ele disse algo como: “Você virá a São Francisco para trabalharmos juntos?” Assenti com a cabeça e comecei a puxar o cordão, mas ele, olhando fixamente nos meus olhos com um sorriso, puxou-o de volta. Enquanto isso, George, percebendo o que acontecia, disse-me seriamente que, com aquele gesto, o Arcebispo João estava me chamando para junto de si. Compreendi imediatamente que a Providência Divina estava me atraindo — indigno que eu era — para ir aonde o Arcebispo João estava. A Igumena Ariadna, ao presenciar tudo aquilo, confirmou que devia ser da vontade de Deus que meu cordão de oração fosse devolvido pelas mãos do Arcebispo João. E ela não se enganou, pois o restante da minha vida estaria ligado à bênção do Arcebispo João.

Minha palestra foi um sucesso. Após eu terminar, o Arcebispo João concluiu com sua mensagem. Na recepção, as monjas do monastério — filhas espirituais do Arcebispo Joãodesde os tempos de Xangai — contaram-me muitas coisas sobre ele, enquanto eu ouvia e comia tortas doces, radiante de felicidade. Durante a conversa naquele dia, o Arcebispo João insistiu que eu fizesse uma palestra para os jovens que haviam sido órfãos sob seus cuidados no Orfanato São Tikhon, na Rua Balboa, e que eu entrasse em contato com a responsável pelo orfanato, Maria Alexandrovna Shakhmatova, para marcar uma data adequada. Sem demora, fui até lá no dia seguinte; minha visita e o encontro com aquela mulher virtuosa deixaram uma marca profunda em mim para o resto da vida. Antes de tudo, a Sra. Shakhmatova era uma figura materna para centenas de adolescentes. Ela não perdia tempo com eles e mantinha uma abordagem psicológica eficaz, estabelecendo um contato caloroso com aquelas almas jovens. Gostei dela imediatamente, pois possuía um bom senso de humor e uma percepção aguçada da alma dos jovens.

Minha preocupação durante a viagem era tentar recrutar novos seminaristas para o Seminário da Santíssima Trindade; por isso, em todas as minhas paradas, eu não hesitava em conduzir a conversa para esse assunto. Com a Sra. Shakhmatova, no entanto, foi ela quem quis discutir o tema; ela falava, e eu ouvia e respondia às suas perguntas. Ela tinha uma personalidade dinâmica; simpatizou comigo desde o início e queria que eu fizesse parte do seu mundo. Ela me via como um possível amigo para os seus meninos órfãos que, segundo ela lamentava, estavam perdendo Deus na atmosfera americana desprovida de espiritualidade. Eu queria saber mais, através dela, sobre o Arcebispo João — que, por já demonstrar um interesse especial pela minha vida, havia se tornado, em minha imaginação, o meu futuro bispo. Mas, antes de aprofundar as histórias sobre o Arcebispo João, ela quis garantir minha palavra de que eu faria o possível para influenciar um de seus meninos a ingressar no meu seminário. Ela queria que eu o conhecesse no dia seguinte, e assim o fiz. As histórias que a Sra. Shakhmatova me contou abriram meus olhos para o altíssimo grau de retidão que o Arcebispo João representava. Na verdade, meu estudo sobre a vida do Arcebispo João teve início graças à visão dela. Ela testemunhou a sua obra ascética em Xangai quase desde o momento exato de sua chegada à cidade, na festa da Entrada da Theotokos no Templo, em 1934 — o ano em que nasci. Tendo vivido um casamento difícil, ela se juntou ao orfanato do Arcebispo João em Xangai praticamente no início de suas atividades. Ela própria tinha filhos que também faziam parte do orfanato. Ela viu o Arcebispo João sacrificar-se tanto na fundação quanto na administração do orfanato, o qual ele dedicou ao seu santo de devoção, São Tikhon de Zadonsk, de quem havia recebido a inspiração inicial para a obra. As condições de vida eram precárias, e as necessidades das crianças — cujos pais haviam fugido do comunismo — eram imensas. Quase desde o início, o jovem Bispo reuniu mulheres de sua paróquia que se importavam com a causa, pediu-lhes que fundassem um comitê, alugou uma casa e abriu um abrigo para órfãos ou crianças cujos pais passavam por dificuldades. A história do Orfanato de São Tikhon jamais foi escrita. A maneira extraordinária como o Bem-aventurado João reunia e alimentava as crianças exige um escritor talentoso para registrá-la para a posteridade. As crianças chegavam desnutridas, traumatizadas por maus-tratos e amedrontadas, até que o Arcebispo João vinha e, muitas vezes, levava-as pessoalmente para o seu orfanato e escola. Cada criança — e foram mais de três mil a passar pelo orfanato — trazia consigo uma história traumática.

A Sra. Shakhmatova compartilhou algumas dessas histórias comigo. Houve, por exemplo, um rapaz chamado Paul que testemunhou o pai e a mãe serem mortos e cortados em pedaços pelos comunistas, mesmo diante dos seus olhos. Por causa do trauma o menino ficou mudo e não conseguia nem pronunciar o próprio nome. Ele era como um animal preso, com medo de todos, e confiava apenas nos punhos e nas cuspidas. Ele foi levado para o orfanato numa época em que estava lotado e não havia lugar para ele. Devido ao fato de Paul estar tão assustado, as senhoras de lá pensaram que ele era anormal e se recusaram a aceitá-lo para não assustar as outras crianças. Quando o Arcebispo João descobriu sobre ele, exigiu que o menino fosse internado. Ao ouvir palavras de recusa, fez questão de largar tudo imediatamente e ir conhecer pessoalmente o menino. Eles nem sabiam que ele era um menino russo e falava russo, pois apenas resmungava e sibilava como um animal enjaulado. Quando o Arcebispo João chegou, sentou-se diante do menino, que ainda tremia, e disse-lhe o seguinte: “Eu sei que você perdeu seu pai, mas agora você me encontrou”, e ele o abraçou. Isso foi dito com tanta força que o menino começou a chorar e sua fala voltou a ele.

Nos bairros pobres de Xangai, havia casos em que cães devoravam bebês do sexo feminino que haviam sido jogados em latas de lixo. Quando os jornais noticiaram isso, o Arcebispo João pediu à Sra. Shakhmatova que fosse comprar duas garrafas de vodca chinesa — algo que a fez estremecer de horror. Mas seu horror aumentou quando ele exigiu que ela o acompanhasse àqueles mesmos bairros, onde era de conhecimento geral que adultos eram assassinados. Destemido como sempre, o jovem Bispo insistiu em ir até lá, caminhando por becos escuros no pior bairro da cidade. Ela recordava o horror que lhe apertava o coração quando, na escuridão da noite, caminhavam e encontravam apenas bêbados, figuras suspeitas e cães e gatos rosnando. Ela segurava as garrafas nas mãos, seguindo-o com receio, quando de repente ouviu-se um rosnado vindo de um bêbado sentado em uma entrada escura e o gemido fraco de um bebê vindo de uma lata de lixo próxima. Quando o Bispo se apressou em direção ao choro, o bêbado rosnou em sinal de advertência. Então, o Bispo virou-se para a Sra. Shakhmatova e disse: “Dê-me uma garrafa”. Erguendo a garrafa com uma mão e apontando para a lata de lixo com a outra, o Bem-aventurado João, sem palavras, transmitiu a mensagem da proposta de troca. A garrafa acabou nas mãos do bêbado, e a Sra. Shakhmatova salvou a criança. Dizem que, naquela noite, ele retornou ao orfanato com dois bebês sob os braços. Essa destemor, no entanto, não fora adquirido sem uma profunda luta interior.


Hieromonge Herman (Podmoshensky)
tradução de monja Rebeca (Pereira)

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Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

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