A chama quente e vibrante de uma vela arde na penumbra da igreja. Tudo o que se ouve é a respiração, o crepitar da cera e uma voz suave, trêmula de emoção: “Eu renuncio…”. Um homem adulto, de pé diante da pia batismal, profere as antigas palavras da renúncia às trevas, e sua voz embarga. Um instante depois — silêncio, uma pausa reverente, e então o bebê nos braços do padre é imerso três vezes na água morna. Um respingo, um choro suave e, novamente, luz. Mais uma pessoa foi batizada. Muitas vezes, guardamos um pequeno registro em papel deste dia na gaveta, consultando-o apenas quando necessário, como um certificado de arquivo. Estamos acostumados a tratar o Batismo como uma importante tradição familiar ou, ainda pior, como um item a ser marcado na lista de “identidade nacional”. Transformamos o Mistério universal em um ritual.
Mas vamos parar com a agitação dos nossos pensamentos e nos perguntar a questão principal: O que realmente aconteceu naquele dia? Qual o significado desta estranha, grandiosa e quase incompreensível frase que ouvimos quando o sacerdote unge um novo membro da Igreja com o Crisma, em sinal da cruz: “O selo do dom do Espírito Santo”?
Frequentemente, caímos na armadilha de uma atitude consumista, quase pagã, em relação ao Sacramento. No fundo da nossa alma, muitos de nós, inconscientemente, consideramos o Batismo uma “vacina espiritual” ou um seguro contra os problemas. Uma vez batizado, dizem, nada de realmente ruim pode me acontecer. E quando as tristezas, as doenças e as tentações inevitavelmente invadem nossas vidas, ficamos surpresos e resmungamos: “Senhor, para quê? Eu sou batizado!”. Mas o Batismo não é um amuleto mágico que elimina as dificuldades deste mundo caído. Cristo nunca nos prometeu uma vida livre de dificuldades. Ele prometeu incomparavelmente mais: prometeu estar conosco tanto na água quanto no fogo. O Batismo não é um ato único nem uma garantia de uma existência confortável. É o início de uma grande, por vezes dolorosamente difícil, mas infinitamente bela jornada de relacionamento entre um homem e Deus.
Qual é, então, o segredo deste Selo Indelével? No mundo antigo, um selo tinha dois significados sagrados. Significava pertencimento e proteção. Quando o imperador pressionava seu anel na cera ou sobre o ombro de um escravo, ele estava dizendo a todos: “Isto é meu. E ai daquele que se atrever a tomá-lo ou danificá-lo.” Algo magnífico acontece no Batismo. Imagine este momento: Deus, para Quem o tempo não existe, contempla um homem diante da pia batismal. Ele vê toda a sua vida de uma só vez. Ele vê não apenas este momento luminoso, mas também todas as futuras quedas, traições e pecados terríveis que este homem ainda nem sequer imaginou. Ele sabe que, depois de tantos anos, este bebê irá renunciá-Lo em seus atos, esquecer-se da igreja ou cair em desespero, à beira da destruição. E sabendo absolutamente tudo isso, Deus diz naquele momento: “Tu és Meu.” Ele coloca o Seu selo nisso. E isso não é uma espécie de carimbo no passaporte da alma, mas uma espécie de aliança de casamento que o Noivo Celestial coloca na mão de Sua noiva. E Ele nunca será o primeiro a tirá-la.
São João Crisóstomo, o grande mestre da Igreja, nos oferece algumas palavras maravilhosas e cheias de esperança: A graça do Batismo não nos abandona, mesmo que nos afastemos de Deus até os confins da terra. É como a luz na janela da casa de nosso pai. Podemos partir para uma terra distante e pecaminosa, esbanjar toda a nossa herança, mas essa luz continuará a arder silenciosamente em nossa alma, esperando que recuperemos o juízo e voltemos.
Vi isso centenas de vezes ao longo do meu ministério. Lembro-me de uma Confissão. Uma mulher veio que não cruzava a soleira de uma igreja havia quase vinte anos. Sua vida era, segundo ela, “um rascunho que deveria ter sido queimado há muito tempo”. Ela chegou em terrível desespero. Ficou ali parada, com medo de olhar para os ícones. Então, de repente, me disse que, nos momentos mais sombrios e desesperadores, quando pensava que não havia mais razão para viver, alguma força invisível, mas irresistível, a impedia de se jogar na beira do abismo, repetidas vezes. Ela não conseguia explicar racionalmente. Ao ver suas lágrimas de arrependimento, compreendi de repente com clareza penetrante e lhe disse: “Durante todos esses anos, enquanto você se sentia sozinha e abandonada, a graça do seu Batismo silenciosamente e persistentemente a segurava pela mão. Aquela pequena chama que o Senhor acendeu na pia batismal não se apagou nem mesmo sob as cinzas. Deus se lembrou de você quando você o havia esquecido.”
Como nós, que vivemos em vaidade e preocupações, podemos “relembrar” nosso Batismo todos os dias?
Primeiro: Tente começar sua manhã não olhando ansiosamente para o celular, mas lembrando-se brevemente: “Fui batizado em Cristo. Posso vestir novamente as vestes de luz que me foram dadas naquele dia.” E, diante de seus ícones, comece o dia com uma oração.
Segundo: Quando se sentir irritado por um ente querido, um colega de trabalho ou um desconhecido, tente parar por um instante. Afinal, ele também pode carregar o selo da imagem de Deus. Talvez a alma dele também seja infinitamente querida por Deus, assim como a sua.
E terceiro: Não tenha medo de se confessar, pensando que pareceremos “impuros” diante do Deus puro. É por isso que o Sacramento da Penitência é chamado de “segundo Batismo” nos livros antigos, porque é uma oportunidade de lavar a túnica batismal. Esta é a nossa oportunidade de voltar para casa, onde as pessoas continuam a nos esperar.
Minha mente retorna àquela vela bruxuleante junto à pia batismal.
Queridos irmãos e irmãs!
Não importa se você foi batizado em uma infância profunda e serena da qual não se lembra ou se veio à pia batismal como adulto, carregando o peso dos erros do passado. Uma coisa é importante: o Céu se curvou diante de nós naquele dia. Deus soprou a eternidade em sua alma e o chamou pelo nome. E esse amor não tem prazo de validade. Que o Senhor nos conceda a graça de viver por Ele, de respirá-Lo como o ar que respiramos, de ver por meio d´Ele como pela única luz verdadeira; para que, no dia do nosso encontro final com Ele, Ele reconheça a Sua marca indelével em nós, e possamos responder com alegria trêmula: “Sim, Senhor, eu sou Teu”.
Sacerdote Leonid Bartkov
tradução de monja Rebeca (Pereira)








