UM BREVE GUIA PARA A CONFISSÃO – PARTE 2

O ARREPENDIMENTO COMO NECESSIDADE DE PURIFICAÇÃO E MUDANÇA DE VIDA

Nosso Senhor Jesus Cristo iniciou Sua missão terrena com as palavras: Arrependei-vos, porque o Reino dos Céus está próximo! E essas mesmas palavras já haviam sido proclamadas por Seu precursor, o Batista João (cf. Mt 3,2; 4,17). Isso significa que o arrependimento é de particular importância para todos nós, sem exceção, e que devemos compreendê-lo adequadamente.

Infelizmente, a maioria dos cristãos hoje entende a palavra “arrependimento” de forma superficial, e um número considerável chega a acreditar que não precisa se arrepender. Arrependimento não é meramente uma questão de sentir remorso por ter cometido um pecado — esse é apenas o começo do processo penitencial e, embora seja inegavelmente importante e necessário, está longe de ser suficiente. O verdadeiro arrependimento é precisamente o que a palavra original significa — uma mudança de mentalidade — ou seja, a aquisição de uma maneira completamente nova de pensar e agir. Em outras palavras, o arrependimento é uma virada espiritual. Nunca é tarde demais para essa transformação fundamental da vida enquanto estivermos vivos, embora seja certamente aconselhável iniciá-la o mais cedo possível, pois nenhum de nós sabe quando partiremos para a eternidade. “Eu te julgarei em qualquer estado em que te encontrar” — estas são palavras que nos fazem refletir e que devem sempre ser lembradas.

Vamos ilustrar esse ponto de virada com um exemplo simples, bem adequado aos nossos tempos, em que certos vícios se multiplicaram em larga escala. Quando um homem dominado pela paixão pelo jogo percebe que frequentar casas de apostas está arruinando sua vida, consumindo uma parte considerável de sua energia, tornando-o um viciado tenso e irritável, colocando em risco seus relacionamentos familiares e assim por diante, ele, se tiver um mínimo de bom senso, sentirá tristeza por tal situação. Contudo, para se libertar do vício que o está envenenando e destruindo sua vida, também é necessária uma decisão firme: romper com seu comportamento anterior a qualquer custo. Na prática, isso significa manter-se bem longe de lugares de vício e romper toda associação com a companhia com quem costumava ir às casas de apostas (nas palavras do Senhor: Se a tua mão direita te faz pecar, corta-a e lança-a fora de ti… [Mateus 5:30]), bem como romper todo vínculo mental com o pecado do jogo (novamente, nas palavras do Senhor: Se o teu olho te faz pecar, arranca-o e lança-o fora de ti… [Mateus 5:29]). Ao mesmo tempo, o arrependimento ativo também exige que se comece a fazer algo totalmente contrário à antiga vida pecaminosa: neste caso específico, que se passe a viver exclusivamente do trabalho das próprias mãos e aplicando o conhecimento adquirido em ocupações benditas (jogos de azar e apostas certamente não estão entre elas). Esta seria a abordagem correta e integral; após tomar consciência do pecado cometido, deve-se abandonar a sua prática e estabelecer hábitos virtuosos completamente novos. No início, é absolutamente necessário que a pessoa simplesmente fuja do pecado, até que, por meio da oração, do jejum, da contemplação de Deus e práticas semelhantes, ela encontre Cristo mais profundamente e passe a amá-Lo de todo o coração. Quando isso acontecer, ela não precisará mais fugir do pecado — o pecado fugirá dela. Pois estamos no pecado precisamente porque não somos suficientemente de Cristo e não pertencemos a Ele com todo o nosso ser, mas somos, em vez disso, pessoas espiritualmente divididas e intelectualmente fragmentadas. Sendo assim, o que precisamos não é de uma psicanálise profunda, mas de uma psicossíntese profunda.

O arrependimento, portanto, é o primeiro passo para a cura da alma; um passo que, em essência, deve nos conduzir para longe do pecado e em direção a Cristo. Uma dificuldade particular nesse caminho surge quando um pecado se torna um hábito e, assim, uma paixão — nesse caso, ele se repete várias vezes, especialmente se o arrependimento não for suficientemente profundo. O ideal é que o pecado seja extirpado pela raiz e nunca mais se repita, mas a fraqueza da natureza humana é tal que as repetições acontecem. Nesse sentido, nossa vida cristã consiste em “caminhar” por uma senda espiritual na qual nos levantamos, caímos, nos levantamos novamente, nos purificamos e prosseguimos, enquanto o arrependimento deve permanecer nosso companheiro constante por toda a vida. O que importa é que as quedas ao longo dessa jornada se tornem mais fracas, menos frequentes e menos dolorosas; que não continuemos tropeçando na mesma pedra (só os tolos fazem isso, como diz o antigo provérbio); e que o arrependimento se torne cada vez mais profundo e intenso. E jamais devemos esquecer que, ao longo de toda essa jornada, Aquele que é o Caminho, a Verdade e a Vida está sempre ao nosso lado, desejando ardentemente nos conduzir à alegria prometida (cf. Jo 14,6; Mt 25,21). Tudo o que Ele nos pede é o esforço de permanecermos fiéis a Ele e, se nos desviarmos, que nos arrependamos e emendemos nossas vidas.

Assim como o arrependimento é frequentemente compreendido superficialmente, o pecado também é geralmente entendido em um sentido moralista. Em sua essência, porém, o pecado não é uma transgressão moral, mas um desvio da nossa vontade — isto é, a orientação do nosso ser para um caminho que nos leva ao erro e nos distancia de Deus, que é o objetivo e o sentido da nossa vida. O pecado ocorre sempre que fazemos algo que não está de acordo com a vontade de Deus. Em seu significado original, a palavra “pecado” seria traduzida precisamente como “errar o alvo” — em outras palavras, no momento em que erramos o alvo, nos encontramos em um estado pecaminoso que deve ser corrigido o mais rápido possível.

O pecado é, na verdade, uma energia que não foi corretamente direcionada e que precisa ser redirecionada. Por exemplo, uma pessoa que sente ódio por outras pessoas deve redirecionar essa energia para o ódio ao mal que percebe em si mesma; uma pessoa que anseia pela glória humana passageira deve redirecionar essa energia para a busca da glória eterna e imperecível, a glória do Reino de Deus; Uma pessoa que pensa constantemente no que os outros dirão a seu respeito e em como atrair a atenção deles deve redirecionar essa energia para o esforço de atrair a atenção de Deus e agradá-Lo. A energia do pecado, portanto, deve ser transformada em energia da virtude. Esta muitas vezes não será uma tarefa fácil e, para termos sucesso, é essencial que tenhamos orientação espiritual daqueles que são experientes no campo de batalha espiritual.

Quando éramos crianças, éramos guiados por nossos pais, que nos aconselhavam a fazer o bem e a evitar o mal; quando crescemos, a Igreja, como uma mãe espiritual carinhosa, começou a nos aconselhar e a nos orientar sobre como deveríamos viver. Se a ouvirmos, preservaremos a pureza de nossa alma; e se cairmos em pecado, ela nos acolherá quando viermos em arrependimento para sermos purificados em seus braços. Se uma mãe biológica sempre espera seu filho de braços abertos, especialmente quando ele chora em seus braços por alguma injustiça cometida, não importa quantas vezes isso aconteça, quanto mais amor e paciência terá nossa Mãe espiritual, a Igreja, para conosco? Chegamos, então, ao tema que naturalmente acompanha o processo de arrependimento: a confissão diante de um sacerdote — o médico espiritual — que nos ouvirá, curará a ferida espiritual e nos prescreverá uma “terapia” adequada que, com o tempo, se a aplicarmos, trará saúde à nossa alma.


Rev. Sacerdote Dr. Oliver Subotich
tradução de monja Rebeca (Pereira)

Facebook
Twitter
WhatsApp
Telegram
Picture of Aurora Ortodoxia

Aurora Ortodoxia

Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

Picture of Aurora Ortodoxia

Aurora Ortodoxia

Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

27 visualizações

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Recentes