CSO 2.1 — A Raiz da História Moderna: O Cisma de Roma

O Ocidente Medieval

Agora começa uma série de palestras sobre a história intelectual da era moderna, ou seja, a partir do momento do Cisma de Roma. Não será de fato uma história das correntes intelectuais. Será uma observação das tendências e movimentos que são de significado histórico, que são sintomáticos do espírito da época e apontam para desenvolvimentos futuros. Tentaremos distinguir os pontos essenciais dos incidentais, isto é, as características que são características da filosofia subjacente dos tempos que perduram de era para era, de outras visões que simplesmente dependem de eventos passageiros. Por exemplo, não estamos interessados que alguns dos franciscanos pensassem que Frederico II era o Anticristo ou que o mundo terminaria em 1260, ou que no século XIX Guilherme Miller achava que o fim do mundo ocorreria em um certo dia em 1844; mas as visões quialísticas que fundamentam essas visões muito tolas são o que estaremos discutindo e falando, porque essas são as visões que ajudam a determinar nosso panorama hoje.

Repetirei algo que disse na palestra introdutória: a razão pela qual estamos fazendo isso não é apenas ter uma visão do que é verdadeiro e do que é falso, e jogar fora tudo o que é falso e guardar tudo que é verdadeiro, porque tudo o que eu vou estar falando é falso. Mas será extremamente importante para nós entender por que isso é falso e como se afastou da verdade. Se entendermos isso, temos alguma ideia do que se passa no mundo hoje e qual é a estrutura intelectual contra a qual devemos lutar.

Embora, ao dizer que tudo o que vou falar seja falso, quero dizer que é falso do ponto de vista estritamente Ortodoxo. Lá, o todo, é claro, é relativo comparado com o que acontece no mundo hoje. Todos esses movimentos de que falamos — de Tomás de Aquino à arte medieval, à arte da Renascença europeia e assim por diante — são todos muito mais valiosos do que qualquer coisa que esteja acontecendo no mundo de hoje. No entanto, há toda uma visão de mundo subjacente que produziu essas coisas, e podemos ver como estava se afastando da Ortodoxia.

A história do Ocidente a partir do Cisma de Roma é um todo lógico e coerente, e as visões que governam a humanidade hoje são um resultado direto das visões mantidas no século XIII. E agora que a filosofia ocidental domina o mundo inteiro, não há outra filosofia exceto a filosofia cristã Ortodoxa que tem alguma força para isso, porque todas as civilizações foram subjugadas pelo Ocidente; isso significa que o que aconteceu no Ocidente nestes últimos novecentos anos é a chave para entender o que está acontecendo no mundo inteiro hoje.

O próprio termo “Idade Média” é interessante porque ele existe apenas no Ocidente. Todas as outras civilizações, sejam cristãs, como bizantinas ou russas, ou não-cristãs, como as chinesas ou indianas, podem ser divididas em dois períodos: o período antigo, em que essas civilizações eram governadas por sua própria filosofia nativa, visão e tradição; e o período moderno, quando se tornaram subjugadas pelo Ocidente. Não há uma transição perceptível de um período para o outro. Trata-se simplesmente de um suplantando o outro.

Mas no Ocidente algo especial aconteceu no período chamado Idade Média, que é a transição entre a antiguidade — isto é, a antiguidade cristã — e a era moderna. O estudo do que aconteceu quando essas mudanças estavam ocorrendo, especialmente entre os séculos XII e XIII, dá a chave para o que está acontecendo no tempo atual. E tentaremos ver agora como a visão de mundo moderna se desenvolveu fora da Ortodoxia, fora do cristianismo.

A Raiz da História Moderna: O Cisma de Roma

A raiz de toda a história moderna está, como dissemos, no Cisma da Igreja de Roma, sobre o qual Ivan Kireyevsky fala muito bem porque, tendo sido filho do Ocidente e ido para a Alemanha estudar com os filósofos mais avançados, Hegel e Schelling, ele foi completamente penetrado pelo espírito ocidental e, em seguida, tornou-se completamente convertido à Ortodoxia e, portanto, viu que essas duas coisas não podem ser colocadas juntas. E ele queria descobrir por que são diferentes e qual é a resposta, o que é preciso escolher.

[Ivan V. Kireyevsky, filósofo russo e discípulo dos Santos Padres.]

Assim, diz ele, que é claro que Roma foi parte da Igreja universal de Cristo, e ao logos dos primeiros séculos não há dúvida de que o patriarcado Romano era um patriarcado Ortodoxo perfeitamente legítimo, possuindo até mesmo uma primazia de honra, a mesma que o Patriarcado de Constantinopla possuía até os tempos recentes, e que teria até hoje se ainda fosse ortodoxo, o que não quer dizer que ele seja uma espécie de Papa, mas somente que é o primeiro entre iguais, ou seja, que ele preside as reuniões de bispos e assim por diante.

Mas, como Kireyevsky diz:

Cada patriarcado, cada tribo, cada país no mundo cristão não deixou de preservar suas características próprias e, ao mesmo tempo, participou da unidade comum de toda a Igreja. Cada povo, como resultado de circunstâncias locais, tribais ou históricas, desenvolveu em si mesmo algum aspecto de atividade mental, de modo que é bastante natural que em sua vida espiritual e nos escritos de seus teólogos, ele se mantenha fiel a essa mesma característica especial, porém iluminada por uma consciência superior, isto é, a visão de mundo da Ortodoxia. Assim, os escritores teológicos das terras sírias voltam sua atenção principalmente para a vida interior contemplativa separada deste mundo. Os teólogos romanos, por outro lado, estavam especialmente ocupados com aspectos da atividade prática e a conexão lógica de conceitos. Mas os escritores espirituais do iluminado Bizâncio, mais do que os outros, estavam interessados na relação do cristianismo com as ciências separadas que floresciam em torno dele e, a princípio, guerrearam contra ele, mas depois se submeteram a ele.

E agora ele fala em particular do Ocidente:

Parece que a característica distintiva da mente romana é precisamente uma convicção de que o racionalismo externo prevalece sobre a essência interna das coisas. Entre todas as características do homem romano e toda a natureza tortuosa das atividades de seu intelecto e de sua alma, vemos uma única característica comum, que a ordem externa de seus conceitos lógicos era para ele mais real do que a própria realidade, e que o equilíbrio interno de sua existência era conhecido por ele apenas no equilíbrio de suas concepções racionais ou atividade formal externa.

Em seguida, ele fala em particular do Bem-aventurado Agostinho:

Nenhum Pai da Igreja, antigo ou moderno, demonstrou tanto amor pela cadeia lógica de verdades como o Bem-aventurado Agostinho … Algumas de suas obras são, por assim dizer, uma única cadeia rígida de silogismos, inseparavelmente unida elo a elo. Talvez por isso, às vezes, ele seja levado para muito longe, sem perceber a unilateralidade interior desse pensamento por causa de sua ordem externa; tanto que, nos últimos anos de sua vida, ele mesmo teve que escrever refutações de algumas de suas declarações anteriores.

E sabemos, é claro, que Agostinho equivocou-se em relação à questão do livre-arbítrio, porque ele próprio sentiu tão fortemente a ação da graça em sua conversão que não apreciou plenamente os ensinamentos patrísticos dos Padres Ortodoxos sobre o livre-arbítrio, que João Cassiano no Ocidente apreciou e ensinou.

Novamente, Kireyevsky diz:

Já que o apego especial da mente romana à cadeia externa de conceitos não era isento de perigo para os teólogos romanos, mesmo quando a Igreja Romana ainda era uma parte viva da Igreja Ecumênica, quando a consciência comum de todo o mundo Ortodoxo restringiu cada característica especial em um equilíbrio legítimo, é compreensível que, depois de Roma se separar da Igreja Ortodoxa, esse traço particular se tornasse decisivo e dominante na qualidade dos ensinamentos dos teólogos romanos. Pode até ser que esse apego à racionalidade, essa inclinação excessiva para o pensamento externo de conceitos, fosse uma das principais razões para a própria queda de Roma. Em qualquer caso, o pretexto para a queda não está sujeito a dúvidas. A Igreja latina acrescentou um dogma ao símbolo original da fé, o Credo: um acréscimo que era contrário à tradição antiga na consciência comum da Igreja e era justificado unicamente pelas deduções lógicas dos teólogos ocidentais.

E mais uma vez ele diz:

Está bem claro para nós por que os teólogos ocidentais com toda sua lógica minuciosa não puderam ver a unidade da Igreja de nenhum outro modo senão através da unidade exterior do episcopado.

Agora, novamente, ele fala sobre outro ponto:

E isso também explica por que eles puderam atribuir um valor essencial às obras externas do homem; por que, quando uma alma se preparava interiormente, mas tinha uma insuficiência de obras exteriores, não puderam conceber outros meios de salvação do que um período definido de purgatório; por que, finalmente, eles puderam atribuir a certos homens até mesmo um excesso de ações externas dignas e dar essa dignidade àqueles que tiveram ações externas insuficientes.

Isto significa todo o sistema latino de indulgências e as obras supererrogatórias dos santos, dos quais existe todo um tesouro de boas ações, que são somados como num banco, e quando eles têm muitas para a salvação deles, os derramam e o Papa distribui para outras pessoas, de uma maneira muito legalista.

Quando Roma se separou da Igreja Ecumênica, o cristianismo do Ocidente recebeu em si o embrião desse princípio que era a característica comum de todo o desenvolvimento greco-pagão: o princípio do racionalismo. A Igreja Romana se separou da Igreja Oriental, alterando certos dogmas que existiam na tradição de todo o cristianismo, por outros dogmas que eram o resultado de meras deduções lógicas.

O resultado é a Idade Média, isto é, o escolasticismo. E sobre isso Kireyevsky diz:

Um jogo cansativo de concepções sem fim, com a duração de setecentos anos. Esse caleidoscópio inútil de categorias abstratas que girava incessantemente diante do olhar mental inevitavelmente produzia uma cegueira geral em relação às convicções vivas que se situam acima da esfera da razão e da lógica. Pois um homem ascende a convicções não pelo caminho dos silogismos; mas, ao contrário, quando ele se esforça para fundar suas convicções em deduções silogísticas, ele apenas distorce sua verdade se não as aniquila completamente. E assim, a Igreja ocidental, mesmo no nono século semeou em si a semente inevitável da Reforma que colocou a mesma Igreja diante do julgamento desta mesma razão lógica que a Igreja Romana havia exaltado. Um homem pensante já podia ver Lutero por trás do papa Nicolau I, o papa que excomungou São Fócio e fingiu ser o chefe da Igreja no sentido posterior dos papas. Assim como nas palavras dos católicos romanos, um homem pensante do século XVI poderia prever por trás de Lutero os racionalistas protestantes do século dezenove.

A Igreja Romana só se afastou da verdade porque desejava introduzir na fé novos dogmas desconhecidos da tradição da Igreja e gerados pelas conclusões acidentais da lógica ocidental. A partir disso, desenvolveu-se a filosofia escolástica dentro da estrutura da fé, depois uma reforma na fé e, finalmente, a filosofia fora da fé.

Os primeiros racionalistas foram os escolásticos; poder-se-ia dizer que os últimos racionalistas são os hegelianos de sua época, pode-se dizer que a Europa do século XIX terminou o ciclo de desenvolvimento que havia começado no nono século.

Isso dá uma visão muito precisa, que é uma explicação muito plausível do mecanismo pelo qual Roma deixou a Igreja e desenvolveu toda visão de mundo moderna que é tão anti-Ortodoxa.

É muito difícil ir mais fundo do que isso, encontrar qualquer tipo de razões mais profundas, porque essas coisas estão escondidas para nós. O diabo está constantemente trabalhando. Pode ser que o diabo estivesse tentando repetidas vezes e quando encontrasse os egípcios prontos para entrar no cisma monofisista, talvez tivesse planos de transformá-los no instrumento que usaria para formar a apostasia, ou talvez a mentalidade armênia, e assim por diante; mas aconteceu que foi a mentalidade romana que funcionou, porque uma vez tendo-se afastado da Ortodoxia, livre para se desenvolver de acordo com seus próprios princípios, tornou-se uma fonte de toda uma nova filosofia que tinha o poder de subjugar o mundo, o que fez finalmente em nosso tempo.

Assim, com o cisma que se tornou definitivo, dizemos, em 1054, com as excomunhões de Roma e Constantinopla, a lógica romana é colocada acima da unidade da Igreja, acima da consciência da Igreja, de modo que o Espírito Santo não mais a guia, como na Igreja Ortodoxa, mas agora há uma autoridade externa, o papa. E os próprios historiadores ocidentais deixam bem claro que, nessa época, algo de novo entrava na Igreja, no Ocidente. Antes disso houve distanciamentos temporários entre o Oriente e o Ocidente, os quais vemos na época de São Fócio e do Papa Nicolau I; houve até excomunhões, mas depois uma restauração da comunhão. O próprio Carlos Magno, ao fazer um império rival no Ocidente, também foi a causa do atrito; mas não foi até este século XI que o estranhamento se tornou então uma separação.

E, ao mesmo tempo, entrou no Ocidente esse novo princípio que é descrito no livro por um dominicano ecumenista, Yves Congar, Novecentos Anos Depois, falando sobre as possibilidades de se unir com o Oriente. Ele menciona precisamente isso como uma das coisas que terão que ser superadas antes que possa haver união. Ele diz:

Um cristão do século IV ou V teria se sentido menos desnorteado com as formas de piedade no século XI do que sua contrapartida do século XI com as formas do XII, isto é, no Ocidente. Essa mudança já existia neste século, no século XI, no século do cisma e no XII, no auge da Idade Média. A grande ruptura ocorreu no período de transição de um para o outro século. Essa mudança ocorreu apenas no Ocidente, considerando que em algum momento entre o final do XI e o final do século XII, tudo foi de alguma forma transformado. Essa profunda mudança de visão não ocorreu no Oriente, onde, em alguns aspectos, as questões cristãs ainda são hoje o que eram então — e o que eram no Ocidente antes do final do século XI.

E aqui ele acha que chegamos ao cerne do nosso assunto:

No período entre o final do século XI e o final do XII, um ponto de virada decisivo foi alcançado no Ocidente. Foi uma época caracterizada por várias transições. Houve primeiro, a transição de uma perspectiva predominantemente essencial e exemplarista para uma naturalista, um interesse pela existência. Trata-se de uma transição de um universo de causalidade exemplar, em que as expressões de pensamento ou de ato recebem sua verdade do modelo transcendente que as coisas materiais imitam, para um universo de causalidade eficiente em que a mente busca a verdade nas coisas e nas suas formulações empíricas. Em segundo lugar, houve a transição do símbolo para a dialética, ou, como se pode dizer com maior precisão, de uma percepção sintética para uma inclinação para análise e perguntas.

Aqui temos o começo da escolástica … A diferença entre os dois mundos é a diferença entre a atitude da percepção sintética na busca da relação das partes com o todo e uma atitude analítica, isto é, que separa e analisa as coisas.

“Basicamente,” diz Congar, “não era contra essa atitude analítica dos católicos que a filosofia religiosa eslavófila visava criticar o catolicismo no século XIX?” E aqui ele quer dizer precisamente Khomiakov e Kireyevsky.

Outra transição foi a de uma cultura onde a tradição reinava e o hábito da síntese se tornava arraigado, para um meio acadêmico em que o questionamento contínuo e a pesquisa eram a norma, e a análise o resultado normal do estudo. O Oriente seguiu o caminho da tradição e mostramos como uma das principais diferenças entre os vários povos da fé ortodoxa é que eles não são treinados, como os latinos, pelas escolas. Os teólogos latinos, acostumados ao escolasticismo, muitas vezes ficavam perplexos ao ver os gregos recusando-se a ceder diante de seus convincentes argumentos racionais, refugiando-se, em lugar disso, no domínio dos textos patrísticos e dos cânones conciliares … o que era o modo como todos os cristãos raciocinavam antes do cisma. Mas isso permaneceu estranho ao Oriente, que não conhecia o escolasticismo próprio e não experimentaria nem a Reforma nem o racionalismo do século XVI a XVIII. Em outras palavras, o Oriente permaneceu estranho às três influências que moldaram o catolicismo moderno.

E essas são a escolástica, a Reforma e o racionalismo.

Na primeira metade do século XIII, um novo tipo de ensino e estudo teológico apareceu e se estabeleceu no Ocidente. Até então, o tipo dominante de ensino ou estudo era de natureza contemplativa ou monástica, ligada à vida litúrgica das abadias ou catedrais. Agora, foi adicionado um novo tipo de ensino e estudo, de natureza acadêmica e racional, que logo ocuparia o lugar do primeiro … No Oriente, por outro lado, o ensino e o estudo da teologia, e até mesmo da filosofia, manteve seu status religioso.

Agora tentaremos examinar alguns exemplos do que ele quer dizer. Ele fala de um novo espírito: um novo espírito de interesse no mundo, de querer analisar, toda uma nova técnica de estudo, de dependência da razão humana, que o Oriente nunca teve. Então, vamos examinar, antes de tudo, a questão do escolasticismo.

Palestra por Pe. Serafim Rose
Traduzido por Aurora Ortodoxia

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Aurora Ortodoxia

Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

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