7
Pão e vinho: para entender seu significado original e eterno na Eucaristia, revemos esquecer por um tempo as intermináveis controvérsias que pouco a pouco os transformaram em “elementos” dentro de uma especulação teológica abstrata. De fato, um dos maiores defeitos da teologia sacramental é que, ao invés de seguir a jornada eucarística como uma progressiva revelação de significado, os teólogos aplicaram à Eucaristia um elenco de questões abstratas para fazê-la caber nos suas próprias estruturas intelectuais. Desse ponto de vista, o que virtualmente desapareceu da esfera de interesse e da investigação teológica foi a própria Liturgia, e o que permaneceu foram “momentos”, “fórmulas” e “condições de validação”. Desapareceu a Eucaristia, enquanto ação orgânica, como uma ação abarcante e transformadora, de toda a Igreja, e o que permaneceu foram as partes “essenciais” e “não essenciais”, os “elementos” a “consagração”, etc. Assim, por exemplo, para explicar e definir o sentido da Eucaristia do modo como algumas teologias o fazem, não há necessidade da palavra “eucarístico”: ela se torna irrelevante. Mas para os antigos Padres ela era a palavra-chave que dava unidade e significado a todos os “elementos” da Liturgia. Os Padres chamavam de “eucarísticos” o pão e o vinho da oferenda, assim como sua oferta e consagração e, finalmente, a comunhão. Tudo isso era a Eucaristia, e só poderia ser entendido dentro da Eucaristia.
Conforme iniciamos os procedimentos da Liturgia Eucarística, chega o momento em que oferecemos a Deus a totalidade de nossas vidas, de nós mesmos e do mundo em que vivemos. Esse é o primeiro significado de levarmos ao altar os elementos de nossa própria alimentação. Pois sabemos que o alimento é vida, que ele é o princípio da vida e que todo o mundo foi criado como alimento para o homem. Sabemos também que oferecer esse alimento, esse mundo, essa vida a Deus é a função original “eucarística” do homem, sua plenitude enquanto homem. Sabemos que fomos criados como celebrantes do sacramento da vida, de sua transformação para vida em Deus, para comunhão com Deus. Sabemos que a verdadeira vida é “eucarística”, um movimento de amor a adoração a Deus, o único movimento no qual o sentido e o valor de tudo o que existe pode ser revelado e preenchido. Sabemos que perdemos nossa vida eucarística, e sabemos, finalmente, que em Cristo, o novo Adão, o homem perfeito, essa vida eucarística foi restaurada no homem. Pois Ele próprio é a perfeita Eucaristia; Ele ofereceu a Si mesmo em total obediência, amor e ação de graças a Deus. Deus é Sua própria vida, e ele ofereceu essa vida perfeita e eucarística a nós. Nele, Deus se tornou nossa vida.
Dessa maneira, essa oferta de pão e vinho a Deus, do alimento que precisamos comer para viver, constitui nossa oferta de nós mesmos a Ele, de nossa vida e de todo o mundo. “Tomamos o mundo nas mãos como se fosse uma maçã”, disse um poeta russo. Essa é nossa Eucaristia. É esse movimento que Adão falhou em executar, e em Cristo ele se tornou a própria vida do homem: um movimento de adoração e louvor no qual toda alegria e sofrimento, toda beleza e frustração, toda fome e toda satisfação são referenciadas ao seu Fim último, e finalmente se tornam plenas de significado. É certo que se trata de um sacrifício: mas o sacrifício é a ação mais natural do homem, a essência mesma de sua vida. O homem é um ser sacrificial, porque ele encontra sua vida no amor, e o amor é sacrifício: ele coloca todo valor e todo significado da vida no outro e dá sua vida por ele, e nesse ato de doação, nesse sacrifício, ele encontra o sentido e a alegria da vida.
Nós oferecemos o mundo e a nós mesmos a Deus. Mas fazemos isso em Cristo e em memória d´Ele. Nós o fazemos em Cristo, porque Ele próprio já ofereceu tudo o que há para ser oferecido a Deus. Ele realizou essa Eucaristia de uma vez por todas, e nada existe que não tenha sido ofertado. Nele estava a Vida – e essa Vida que é de todos nós, a oferecemos a Deus. A Igreja se compõe de todos aqueles que foram aceitos na vida eucarística de Cristo. E nós o fazemos em memória d´Ele porque, na medida em que oferecemos uma e outra vez nossa vida e nosso mundo a Deus, descobrimos reiteradamente que não há nada mais a ser oferecido, senão o próprio Cristo – a Vida do mundo, a plenitude de tudo o que existe. Essa é a Sua Eucaristia, e Ele é a Eucaristia. Como diz a oração da oferenda – “é Ele quem oferece e Ele que é oferecido”. A Liturgia nos conduz até essa Eucaristia total de Cristo, e nos revela que a única Eucaristia, a única oferenda do mundo é Cristo. Voltamos sempre a oferecer nossas vidas; nós trazemos e “sacrificamos” – vale dizer, ofertamos a Deus – aquilo que Ele próprio nos deu; e a cada vez chegamos ao Fim de todos os sacrifícios, de todas as oferendas, de toda Eucaristia, porque a cada vez se revela a nós que Cristo ofertou tudo o que existe, e que Ele e tudo o que existe foram ofertados em Sua oferenda de Si mesmo, Nós nos incluímos na Eucaristia de Cristo, e Cristo é a nossa Eucaristia.
E na medida em que a procissão perfaz seu movimento, ela carrega o pão e o vinho até o altar, e assim sabemos que é o próprio Cristo que nos toma, e toma a totalidade de nossas vidas, e as leva até Deus em Sua ascensão eucarística. É por isso que nesse momento da Liturgia se comemora e se recorda: “lembre-se o Senhor em seu Reino…”. Recordar é um ato de amor. Deus se lembra de nós e Sua lembrança, Seu amor, são o fundamento do mundo. Em Cristo nos recordamos. Tornamo-nos outra vez seres abertos ao amor, e nos lembramos. A Igreja, em sua separação “do mundo”, em sua jornada para os céus, lembra-se do mundo, lembra-se dos homens, lembra-se de toda a criação, e os apresenta a Deus em amor. A Eucaristia é o sacramento da lembrança cósmica: de fato, ela é a restauração do amor como a verdadeira vida do mundo.
8
O pão e o vinho estão agora sobre o altar, cobertos, ocultos, assim como “nossa vida está oculta com Cristo em Deus[8]”. Ali está, oculta em Deus, a totalidade da vida, que Cristo devolveu a Deus. Então o celebrante diz: “Amemo-nos mutuamente, para que com uma só mente possamos dizer…”. e se segue o beijo da paz, uma dos atos fundamentais da Liturgia Cristã. A Igreja, se quiser ser a Igreja, deve ser a revelação desse Amor que Deus “derramou em nossos corações”. Sem esse Amor, nada é “válido” na Igreja, porque nada é possível. O conteúdo da Eucaristia de Cristo é o Amor, e somente através do amor podemos penetrar nela e nos tornarmos seus participantes. Não somos capazes desse amor: nós o perdemos. Esse amor, Cristo nos deu, e esse presente é a Igreja. A Igreja se constitui no amor e através do amor, e ela constitui o “testemunho” desse Amor no mundo, para re-presentá-lo, para torná-lo presente. Somente o Amor cria e transforma: ele consiste, assim, no verdadeiro “princípio” do sacramento.
9
“Elevemos ao alto nossos corações”, diz o celebrante, e o povo responde: “Já os temos no Senhor”. A Eucaristia é a anáfora, a “elevação” de nossa oferenda e de nós mesmos. Ela é a ascensão da Igreja aos céus. “Mas, por que me preocupar com os céus”, diz São João Crisóstomo, “quando eu mesmo me transformei em céus?”. A Eucaristia já foi explicada muitas vezes apenas em referência aos dons: os que “acontece” com o pão e o vinho, e porque, e quando acontece! Mas devemos entender que o que “acontece” ao pão e ao vinho acontece porque algo aconteceu em primeiro lugar a nós e à Igreja. É porque nós “constituímos” a Igreja, e porque isso significa que seguimos a Cristo em Sua ascensão; porque Ele nos aceitou em Sua mesa e em Seu Reino; porque, em termos de teologia, penetramos no Eschaton, e agora nos encontramos além do tempo e do espaço; porque tudo isso aconteceu conosco em primeiro lugar – por isso essas coisas acontecem com o pão e o vinho.
“Elevemos ao alto nossos corações”, diz o celebrante, e o povo responde: “Já os temos no Senhor”. “Demos graças ao Senhor” (Eucharistisomen), diz o celebrante.
10
Quando o homem se coloca diante de Deus, quando ele cumpriu tudo o que Deus lhe deu para que fosse cumprido, quando todos seus pecados foram perdoados e toda alegria restaurada, então nada mais lhe resta senão agradecer. A Eucaristia (ação de graças) é o estado do homem perfeito. A Eucaristia é a vida do paraíso. A Eucaristia é a única resposta total e real do homem à criação de Deus, à redenção e ao dom dos céus. Mas esse homem perfeito que se coloca diante de Deus é Cristo. Somente n´Ele tudo o que Deus deu ao homem se encontra preenchido e levado de volta aos céus. Somente Ele é o perfeito Ser Eucarístico. Ele é a Eucaristia do mundo. É nessa Eucaristia e através dessa Eucaristia que toda a criação se torna aquilo que ele sempre deveria ter sido e que ela falhou em ser.
“É digno e justo”, responde a congregação, expressando com essas palavras sua “rendição incondicional”, com a qual a verdadeira “religião” começa. Pois a fé não é fruto de uma busca intelectual, ou da “aposta” de Pascal. Não se trata de uma solução racional para as frustrações e ansiedades da vida. Tampouco nasce da “falta” de alguma coisa, mas, ao contrário, provém de uma plenitude, de um amor e de uma alegria. “É digno e justo” expressa essas coisas. É a única resposta possível para o convite divino de viver e receber uma vida em abundância.
Então o sacerdote inicia a Oração Eucarística: “É digno e justo que Te celebremos, Te bendigamos, Te glorifiquemos, Te agradeçamos e nos prostremos em todo o Teu Reino. Pois Tu és um Deus inefável, incompreensível, invisível, inacessível, sempre existente e sempre o mesmo, Tu, Teu Filho unigênito e Teu Espírito Santo. Tu, que nos tiraste do nada para a existência, e depois da queda levantaste-nos de novo e não cessas de tudo fazer para nos reconduzir ao céu e fazer-nos dom do Teu futuro reino; por tudo isto nós Te damos graças, a Ti, ao Teu Filho Unigênito e ao Teu Espírito Santo, e por todos os benefícios concedidos conhecidos e desconhecidos, visíveis e invisíveis. Damos-Te graças também por esta liturgia que Te dignaste receber de nossas mãos, embora disponhas a Teu serviço, de multidões de Arcanjos e de Anjos, de Querubins e Serafins com seis asas e múltiplos olhos, sublimes e alados”.
O início da Oração Eucarística é comumente chamado de “Prefácio”. E, embora esse Prefácio pertença a todos os ritos eucarísticos conhecidos, pouca atenção costuma ser dada a ele no desenvolvimento da teologia eucarística. Um “prefácio” é algo que não pertence realmente ao corpo de um livro. E os teólogos o negligenciam porque estão ansiosos para chegar aos verdadeiros “problemas”: o da consagração, da transformação dos elementos, do sacrifício e outros. É aqui que encontramos um dos principais defeitos da teologia Cristã: a teologia da Eucaristia deixou de ser eucarística e assim ela retirou o espírito eucarístico de todo o entendimento do sacramento, da verdadeira vida da Igreja. A longa controvérsia a respeito das palavras da instituição e da invocação do Espírito Santo (epiclesis) que se estabeleceu por séculos entre o Oriente e o Ocidente é um bom exemplo desse estágio não-eucarístico na história da teologia sacramental.
Mas é preciso entender que é precisamente esse prefácio – essa ação, essas palavras, esse movimento de ação de graças – que realmente “torna possível” tudo o que virá a seguir. A Eucaristia de Cristo e o Cristo Eucarístico constituem a “brecha” que nos conduz até a mesa do Reino, que nos eleva até os céus, e que nos torna partícipes do banquete divino. Pois a Eucaristia – ação de graças e louvor – é a própria forma e o conteúdo da nova vida que Deus concedeu a nós quando nos reconciliou consigo mesmo em Cristo. Essa reconciliação, o perdão, o poder da vida – tudo isso encontra seu propósito e plenitude desse novo estágio da existência, nesse novo estilo de vida que é a Eucaristia, a única vida verdadeira da criação com Deus e em Deus, a única relação verdadeira entre Deus e o mundo.
De fato, ela é o prefácio do mundo por vir, a porta para o Reino: e é isso que confessamos e proclamamos quando, falando de Reino que virá, afirmamos que Deus já no-lo concedeu. Esse futuro nos foi dado no passado, e ele pode se constituir o próprio presente, a vida em si, agora, da Igreja.
11
E assim o Prefácio se completa no Sanctus – no “Santo, Santo, Santo” da eterna Doxologia, que é a essência secreta de tudo que existe: “Os Céus e a terra estão cheios da Tua glória”. Precisamos subir aos Céus em Cristo para ver e entender a criação em sua verdadeira existência enquanto glorificação da Deus, como resposta ao amor divino no qual, e somente no qual, a criação se torna aquilo que é do desejo de Deus: ação de graças, eucaristia, adoração. É aqui – na dimensão celestial da Igreja, com “milhares de Arcanjos e miríades de Anjos, com os Querubins e os Serafins, que voam nas alturas e sustentam com suas asas” – que podemos, finalmente, “nos expressar”. E essa expressão é: “Santo, Santo, Santo, é o Senhor Sabaoth. Os céus e a terra estão cheios de Sua glória. Hosana nas alturas! Bendito o que vem em Nome do Senhor”.
Essa é a finalidade última de tudo o que existe, o fim, o objetivo e a plenitude, porque é esse o começo, o princípio da Criação.
12
Mas, na medida em que nos colocamos diante de Deus, relembrando tudo o que Ele fez por nós, e oferecendo a Ele nossa ação de graças por todos os Seus benefícios, descobrimos sem sombra de dúvida que o conteúdo dessa ação de graças e dessa recordação é Cristo. Toda recordação é, em definitivo, uma recordação de Cristo, e toda ação de graças é uma ação de graças a Cristo. “Nele estava a vida e essa vida era a luz dos homens”. E, na luz da Eucaristia, vemos esse Cristo que é de fato vida, luz e tudo o que existe, e a glória que preenche os céus e a terra. Não há nada além para ser lembrado, nada mais a agradecer, porque é n´Ele que tudo encontra sua existência, sua vida, seu fim.
E, dessa maneira, o Sanctus nos conduz de forma tão simples e lógica a esse homem, a essa noite, a esse acontecimento no qual o mundo encontrou de uma vez por todas seu juízo e sua salvação. Não que, ao cantarmos o Sanctus e confessarmos a majestade da glória divina, coloquemos essas coisas de lado e prossigamos para a próxima subdivisão da prece, a Lembrança. Não, a Lembrança é a plenitude da Doxologia, ela é uma vez mais a Eucaristia que “naturalmente” nos conduz ao próprio coração e ao conteúdo da recordação e da ação de graças.
Tu és Santo, totalmente santo, Tu e o Teu Filho Unigênito e o Teu Espírito Santo. Tu és Santo, és totalmente Santo e magnífica é a Tua glória. Tu amaste tanto o mundo que nos ofereceste o Teu Filho Unigênito, a fim de que todo aquele que n´Ele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. Ele veio e cumpriu inteiramente o Teu plano salvífico a nosso respeito. Ele, na hora em que Se entregava para voluntariamente sofrer a morte vivificante pela vida do mundo, tomou o pão em Suas mãos santas e imaculadas e, tendo-o oferecido a Ti, Deus Pai, deu graças, abençoou, o santificou, o partiu e deu aos Seus santos discípulos e apóstolos, dizendo: “Tomai e comei, isto é o Meu Corpo que será partido por vós para a remissão dos pecados”. Do mesmo modo, ao fim da ceia, tomou o cálice dizendo: “Bebei dele todos, isto é o Meu Sangue, o Sangue da nova aliança, que é derramado por vós e por muitos para a remissão dos pecados”.
Enquanto estamos diante do Senhor, nada mais existe a ser recordado, ou que possamos oferecer a Deus, senão esse auto-oferecimento de Cristo, porque nele toda ação de graças, toda lembrança, toda oferenda – vale dizer, toda a vida do homem e do mundo – se completa. Então dizemos:
Fazendo pois a anamnese desse mandamento salvador para nós: a cruz, o sepulcro, a ressurreição ao terceiro dia, a ascensão aos céus, o trono à direita do Pai, a segunda e gloriosa vinda: Os Teus dons, a Ti oferecemos, em tudo e por tudo.
13
Até esse ponto a Eucaristia consistia em nossa ascensão em Cristo, em nossa entrada, n´Ele, no “mundo do futuro”. Agora, nessa oferenda de todas as coisas, em Cristo, ao Um a quem tudo pertence e somente no qual tudo existe realmente, esse movimento ascensional encontra seu fim. Estamos na mesa pascal do Reino. Tudo o que oferecemos – nosso alimento, nossa vida, nós mesmos e todo o mundo – nós oferecemos em Cristo e como Cristo porque Ele próprio assumiu nossa vida e Se tornou nossa vida. E agora tudo isso é devolvido a nós com o dom de uma nova vida, e, sendo assim – necessariamente – como alimento.
“Esse é Meu Corpo, esse é Meu Sangue. Tomai, comei. Bebei…”. E gerações após gerações de teólogos se fizeram as mesmas questões. Como isso é possível? Como isso acontece? O que, exatamente, acontece nessa transmutação? E, exatamente, quando? Qual é sua causa? Nenhuma resposta parece satisfatória. Símbolo? Mas o que é um símbolo? Substância, acidentes? Sentimos imediatamente que algo está faltando em todas essas teorias, nas quais o Sacramento é reduzido às categorias do tempo, da substância, da causalidade, que são as categorias “desse mundo”.
Algo falta, porque o teólogo pensa no Sacramento e se esquece da Liturgia. Como bom cientista ele começa por isolar o objeto de seu estudo, reduzindo-o a um momento, a um “fenômeno” – e então, procedendo do geral para o particular, do conhecido para o desconhecido, ela dá uma definição que, de fato, levanta mais questões do que respostas. Mas através de nosso estudo o ponto principal sempre foi que a Liturgia por inteiro é sacramental, vale dizer, um ato transformador e um movimento ascendente. E o verdadeiro objetivo desse movimento de ascensão é o de nos retirar “desse mundo”, e nos tornar partícipes do “mundo do futuro”. Nesse mundo – o mundo que condenou Cristo e que, ao fazê-lo, condenou a si próprio – não há pão nem vinho que possa se transformar no corpo e no sangue de Cristo. Nada que faça parte dele pode ser “sacralizado”. Mas a Liturgia da Igreja constitui sempre uma anáfora, uma elevação, uma ascensão. A Igreja preenche a si mesma nos céus nesse novo éon que Cristo inaugurou com Sua morte, ressurreição e ascensão, e que foi dado à Igreja no dia de Pentecostes como sendo sua vida, como sendo o “fim” em direção ao qual ela se move. Nesse mundo Cristo é sacrificado, Seu Corpo é morto e Seu Sangue é derramado. E é para esse mundo que devemos nos dirigir, devemos ascender aos céus em Cristo para nos tornamos participantes do mundo que virá.
Mas esse não é um “outro” mundo, diferente daquele que Deus criou e nos deu. É o mesmo mundo nosso, já perfeccionando em Cristo, mas ainda não em nós. É o nosso mesmo mundo, redimido e restaurado, no qual Cristo “preenche todas as coisas Consigo”. E, uma vez que Deus criou o mundo como alimento para nós e nos deu o alimento como comunhão com Ele, como vida n´Ele, o novo alimento da nova vida que recebemos de Deus em Seu Reino é o próprio Cristo. Ele é nosso pão – porque desde o começo toda nossa fome era fome por Ele e todo nosso pão não era outra coisa do que um símbolo d´Ele, um símbolo que estava destinado e se tornar realidade.
Ele Se tornou homem e viveu nesse mundo. Ele comeu e bebeu, e isso significa que o mundo do qual Ele participou, o próprio alimento de nosso mundo, Se tornou Seu Corpo, Sua vida. Mas Sua vida era totalmente, absolutamente eucarística – tudo era transformado em comunhão com Deus e tudo ascendia aos céus. E agora Ele partilha dessa vida glorificada conosco. “Aquilo que Eu fiz, agora vos dou: tomai e comei…”.
Oferecemos o pão em memória de Cristo porque sabemos que Cristo é Vida, e que assim todo alimento deve nos conduzir a Ele. E agora, quando recebemos esse pão de Suas mãos, sabemos que Ele tomou toda vida, preencheu-a Consigo próprio e a tornou aquilo que ela tem que ser: a comunhão com Deus, o sacramento de Sua presença e amor. Somente no Reino podemos confessar com São Basílio que “esse pão é em verdade o Corpo precioso de nosso Senhor, que esse vinho é o Sangue precioso de Cristo”. O que é “sobrenatural” aqui, nesse mundo, se revela como “natural” lá. E é sempre capaz de nos conduzir “até lá” e nos tornar o que temos que ser para que a Igreja realize a si mesma na Liturgia.
14
É o Espírito Santo que manifesta o pão como corpo e o vinho como sangue de Cristo, conforme a Liturgia de São Basílio: “E faz desse pão o corpo precioso do Teu Cristo (…) e do que contém esse cálice o sangue precioso do Teu Cristo…”. A Igreja Ortodoxa sempre insistiu que a transmutação (metábole) dos elementos eucarísticos é realizada pela epiclese – a invocação do Espírito Santo – e não pelas palavras da instituição. Essa doutrina, porém, foi muitas vezes mal compreendida pelos próprios Ortodoxos. Não se trata de substituir uma “causalidade” – as palavras da instituição – por outra, por uma “fórmula” diferente. Trata-se de revelar o caráter escatológico do sacramento. O Espírito Santo veio no “último e grande dia” do Pentecostes. Ele manifestou o mundo por vir. Ele inaugurou o Reino. Ele sempre nos leva além. Estar no Espírito implica estar nos céus, pois o Reino de Deus é “alegria e paz no Espírito Santo”. E assim, na Eucaristia, é Ele quem sela e confirma nossa ascensão para os céus, que transforma a Igreja no corpo de Cristo e – por conseguinte – manifesta os elementos de nossa oferenda como comunhão no Espírito Santo. É nisso que consiste a consagração.
15
Mas antes de partilharmos do alimento celestial resta ainda uma última ação, absolutamente essencial: a intercessão. Estar em Cristo significa ser como Ele, significa transformar nosso movimento no próprio movimento de Sua vida. E como Ele “viveu para interceder” por todos “para que fossem a Deus por meio Dele[9]”, então não podemos aceitar Sua intercessão como se fosse nossa. A Igreja não é uma sociedade escapista – corporativa ou individualmente – desse mundo para experimentar um aperitivo místico de eternidade. A Comunhão não é uma “experiência mística”: bebemos do cálice de Cristo, e Ele Se entrega pela vida do mundo. O pão na patena e o vinho no cálice nos lembram da Encarnação do Filho de Deus, da cruz e da morte. Assim, é a verdadeira felicidade do Reino que nos faz recordar o mundo e orar por ele. É a própria comunhão com o Espírito Santo que nos torna capazes de amar o mundo com o amor de Cristo. A Eucaristia é o Sacramento de unidade e o momento da verdade: aqui vemos o mundo em Cristo, real como ele é, a não de nosso ponto de vista particular, limitado e parcial. A intercessão começa aqui, na glória do banquete messiânico, e essa é o único verdadeiro começo para a missão da Igreja. É quando “colocando de lado todo mundanismo”, parece-nos termos deixado esse mundo, e assim, de fato, recuperamo-lo em toda sua realidade.
A intercessão constitui, assim a única preparação real para a comunhão. Pois na Comunhão e através da Comunhão não apenas nos tornamos um corpo e um espírito, como somos restaurados nessa solidariedade e amor que o mundo perdeu. E a grande Oração Eucarística agora se soma à Oração do Senhor, e cada petição sua implica a total e completa dedicação ao Reino de Deus no mundo. Essa é a Sua prece, e Ele a dá para nós, Ele faz dela a nossa prece, assim como fez de Seu Pai o nosso Pai. Ninguém jamais foi “digno” de receber a comunhão, ninguém foi preparado para tanto. Nesse ponto, todos os méritos, toda justiça, toda devoção desaparece e se dissolve. A vida retorna a nós como um Dom, um dom divino e gratuito. É por isso que na Igreja Ortodoxa chamamos os elementos eucarísticos de Santos Dons. Adão é reintroduzido no Paraíso, resgatado do nada e coroado rei da criação. Tudo é gratuito, nada é devido e não obstante tudo é dado. E assim, a maior humildade e obediência consiste em aceitar o dom, em dizer sim – com alegria e gratidão. Não há nada que possamos fazer, e mesmo assim nos tornamos tudo o que Deus quis de nós desde a eternidade, e nos tornamos eucarísticos.
16
E então chega o momento em que devemos retornar ao mundo. “Retirai-vos em paz”, diz o celebrante enquanto deixa o altar, e esse é o último mandamento da Liturgia. Não devemos permanecer no Monte Tabor, bem ora saibamos que é bom para nós estar lá. Somos mandados de volta. Mas agora “vimos a verdadeira Luz, recebemos o Espírito celeste”. E é como testemunhas dessa Luz, como testemunhas do Espírito, que devemos “retornar” e começar a interminável missão da Igreja. A Eucaristia foi o fim da jornada, o final do tempo. E agora estamos novamente no começo, e as coisas que eram impossíveis são agora reveladas a nós como possíveis. O tempo do mundo se tornou o tempo da Igreja, o tempo de salvação e redenção. E Deus nos tornou competentes, como disse Paul Caudel, competentes para sermos testemunho Seu, para realizar o que Ele fez e continua a fazer. Esse e o sentido da Eucaristia; e é por isso que a missão da Igreja começa na Liturgia da ascensão, pois somente ela torna possível a Liturgia da missão.
Protopresbítero Alexander Schmemann
tradução de Tito Kehl






