PELA VIDA DO MUNDO – PARTE 2A: EUCARISTIA

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Cristo foi rejeitado por esse mundo. Ele era a expressão perfeita da vida pretendida por Deus. A vida fragmentária do mundo foi reunida em Sua vida; Ele era o pulso do coração do mundo, e o mundo O matou. Mas nesse assassinato o mundo todo morreu. Ele perdeu sua última chance de se tornar o paraíso para o qual Deus o criou. Podemos desenvolver mais e melhores coisas materiais. Podemos construir uma sociedade mais humana que pode até evitar com que aniquilemos uns aos outros. Mas quando Cristo, a verdadeira vida do mundo, foi rejeitado, esse foi o começo do fim. Essa rejeição teve uma finalidade: Ele foi crucificado pelo bem. Como disse Pascal, “Cristo permanecerá em agonia até o final do mundo”.

O Cristianismo parece às vezes pregar que, se o homem procurar com todo esforço viver uma vida Cristã, a crucificação pode ser, de algum modo, revertida. Isso é porque o Cristianismo esqueceu de si mesmo, esqueceu que ele sempre, e em primeiro lugar, deve permanecer junto à cruz. Não que esse mundo não possa ser melhorado – um dos nossos objetivos certamente consiste em trabalhar pela paz, pela justiça, pela liberdade. Mas, ainda que ele possa ser melhorado, ele jamais se tornará o lugar pretendido por Deus. O Cristianismo não condena o mundo. O mundo condenou a si mesmo quando, no Calvário, ele condenou Aquele que era a sua própria verdade. “Ele era o mundo, o mundo foi feito por Ele, e o mundo não O conheceu[1]”. Se pensarmos seriamente a respeito do verdadeiro significado, do real conteúdo dessas palavras, saberemos que como cristãos e na medida mesma em que somos Cristãos, somos, em primeiro lugar, testemunhos desse fim: fim de toda alegria natural, fim de toda satisfação do homem com o mundo e consigo mesmo, fim, realmente da vida em si como uma “busca pela felicidade”, racional e racionalmente organizada. Os cristãos não precisam esperar pelos que propões a ansiedade, o desespero e o absurdo para serem conscientes disso. E, embora no decurso de sua longa história, os cristãos tenham muitas vezes esquecido o sentido da cruz, e desfrutado da vida como se “nada houvesse acontecido”, embora muitos de nós tiremos “férias” – sabemos que, no mundo em que Cristo morreu, a “vida natural” foi conduzida a seu fim.

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E ainda assim, nos seus começos o Cristianismo foi a proclamação da alegria, da única alegria possível nesse mundo. Ele tornou impossível toda felicidade tal como a pensávamos possível. Mas dentro dessa impossibilidade, no fundo mesmo dessa escuridão, ele anunciou e trouxe uma nova e abrangente alegria, e por meio dessa alegria ele transformou o Fim num Começo. Sem a proclamação dessa alegria o Cristianismo é incompreensível. Foi somente enquanto felicidade que a Igreja se tornou vitoriosa no mundo, e ela perdeu o mundo quando perdeu sua alegria, e deixou de ser uma testemunha confiável dela. De todas as acusações contra os cristãos, a mais terrível foi a de Nietzsche, quando disse que os cristãos não têm alegria.

Mas vamos esquecer por um momento as discussões técnicas a respeito da Igreja, de sua missão e seus métodos. Não que essas discussões estejam erradas ou sejam desnecessárias – mas elas só podem ser úteis e significativas dentro de um contexto fundamental, e esse contexto é o da “grande alegria” a partir da qual todo o resto do Cristianismo se desenvolve e adquire sentido. “Não temais, Eu vos trago boas novas de grande alegria[2]” – assim começa o Evangelho, que irá terminar assim: “Eles O adoraram e retornaram a Jerusalém com grande alegria[3]”. É preciso recuperar o sentido dessa grande alegria. Se possível, devemos partilhar dela, antes de discutir qualquer outra coisa – programas, missões, projetos e técnicas.

A felicidade, naturalmente, não é algo que se possa definir e analisar. A pessoa fica feliz. “Vem e participa da minha alegria[4]”. E não temos outro modo de participar dessa alegria, nenhuma maneira de compreender isso, a não ser por meio da única ação que, desde o início, foi para a Igreja tanto a fonte quanto a plenitude da felicidade, o verdadeiro sacramento da alegria, a Eucaristia.

A Eucaristia é a Liturgia. Mas quem diz Liturgia atualmente se envolve numa espécie da controvérsia. Pois, para alguns – os que possuem uma “mente litúrgica” – de todas as atividades da Igreja, a Liturgia é a mais importante, senão a única. Para outros, a Liturgia constitui um desvio estético e espiritual da verdadeira tarefa da Igreja. Existem hoje igrejas “litúrgicas” e “não litúrgicas”, assim como cristãos. Mas essa controvérsia é desnecessária, pois ela tem suas raízes num erro básico: o entendimento “litúrgico” da Liturgia. Trata-se da redução da Liturgia às categorias “cultuais”, sua definição como um ato sagrado de adoração, diferente, não apenas da área “profana” da vida, mas até das demais atividades da própria Igreja. Mas esse não é o sentido originas da palavra grega leitourgia. Ela significa uma ação por meio da qual um grupo de pessoas incorporam-se umas às outras de uma maneira que vai além de uma mera coleção de indivíduos – um todo que é maior do que a soma de suas partes. Isso implica também uma função, ou “ministério” do homem ou de um grupo em favor e no interesse de toda uma comunidade. Assim é que a leitourgia do antigo Israel consistia no trabalho corporativo de alguns escolhidos no sentido de preparar o mundo para a vinda do Messias. E, nesse ato de preparação, eles se tornaram aquilo que foi chamado de Israel de Deus, o instrumento escolhido para Seu propósito.

Assim, portanto, a própria Igreja é leitourgia, um ministério, uma chamada para a ação nesse mundo depois da manifestação de Cristo, para dar testemunho d´Ele e de Seu Reino. A Liturgia Eucarística, dessa forma, não deve ser aproximada e entendida apenas no sentido “litúrgico” e “cultual”. Assim como o Cristianismo pode – e deve – ser considerado como o fim da religião, também a Liturgia Cristã em geral, e a Eucaristia em particular, constituem de fato o fim do culto, do ato religioso “sagrado” isolado e oposto à vida “profana” da comunidade. A primeira condição para o entendimento da Liturgia é esquecer tudo a respeito de uma “piedade litúrgica” específica.

A Eucaristia é um Sacramento, mas quem diz sacramento está se envolvendo numa controvérsia. Quando falamos de Sacramento, onde está o Verbo? Não estaremos nós caminhando para os perigos do “sacramentalismo” e da “mágica”, numa traição do caráter espiritual do Cristianismo? Para essas questões não existem resposta. Pois a proposta desse ensaio é a de mostrar que o contexto dentro do qual essas questões são colocadas não é o único possível. Nesse momento, tudo o que podemos dizer é: a Eucaristia constitui a entrada da Igreja na alegria de seu Senhor. E o verdadeiro chamado da Igreja, sua leitourgia fundamental, consiste em entrar nessa alegria, para que sejamos testemunhas disso no mundo – esse é o sacramento por meio do qual ela “se torna o que ela é”.

Na breve descrição da Eucaristia que se segue, faremos referências em primeiro lugar à Liturgia eucarística Ortodoxa, e isso por duas razões. Primeiramente, na área da Liturgia só é possível falar com convicção na medida em que tenhamos experimentado aquilo sobre o que falamos. E essa experiência o autor encontrou na Tradição Ortodoxa. Em segundo lugar, é a opinião geral dos “liturgistas” que a Liturgia Ortodoxa preservou os elementos e ênfases que constituem o próprio tema desse livro.

3

A Liturgia da Eucaristia é melhor entendida como uma viagem, ou uma procissão. Trata-se da viagem da Igreja para a dimensão do Reino. Usamos essa palavra “dimensão”, porque parece ser a melhor maneira de indicar nossa entrada sacramental na ressuscitada de Cristo. Transparências coloridas se tornam “vivas” quando vistas em três dimensões, ao invés de em duas. A presença dessa dimensão acrescentada nos permite ver melhor a verdadeira realidade daquilo que foi fotografado. De maneira muito parecida, embora toda analogia esteja condenada a falhar, nossa entrada na presença de Cristo constitui uma entrada numa quarta dimensão que nos permite ver a realidade última da vida. Não se trata de uma fuga do mundo, mas sim de uma chegada a um ponto de vista a partir do qual podemos ver mais profundamente dentro da realidade desse mundo.

A viagem começa quando os cristãos deixam seus lares e seus leitos. De fato, eles deixam suas vidas no mundo presente e concreto, e ainda que tenham que dirigir centenas de quilômetros, ou caminhar muitos quarteirões, uma ação sacramental já começou a agir, uma ação que é a condição primária para tudo o mais que vier a acontecer. Porque agora eles estarão no caminho para constituir a Igreja, ou, para ser mais exato, para se transformarem na Igreja de Deus. Eles eram indivíduos, brancos, negros, ricos e pobres, eles eram o mundo “natural” numa comunidade natural. E agora eles estão sendo chamados a “virem juntos a um lugar”, a trazer suas vidas, seu próprio “mundo” consigo, para que se tornem mais do que foram até então: uma nova comunidade com uma nova vida. Ainda estamos distantes das categorias do louvor comum e da oração. A proposta desse “ir juntos” não é simplesmente a de acrescentar uma dimensão religiosa à comunidade natural, para torná-la “melhor” – mais responsáveis, mais Cristãos. A proposta é de preencher a Igreja, e isso significa tornar presente Aquele em quem todas as coisas têm seu fim, e todas as coisas têm seu começo.

A Liturgia começa a ser uma real separação do mundo. Em nossa tentativa de tornar o Cristianismo um chamado para o homem comum, frequentemente nós minimizamos, ou até esquecemos por completo, essa necessária separação. Tentamos tornar o Cristianismo “compreensível” e “aceitável”, para esse mítico homem “moderno” das ruas. E esquecemos que o Cristo de que falamos “não é desse mundo”, e que depois de Sua ressurreição Ele não foi reconhecido nem por Seus próprios discípulos. Maria Madalena pensou que Ele fosse o jardineiro. Quando dois de Seus discípulos iam a caminho de Emaús, o próprio Jesus “aproximou-Se deles e caminhou ao seu lado”, e eles não O reconheceram, até que Ele “tomou o pão, abençoou-o, partiu-o e o deu a eles”[5]. Ele apareceu aos doze “estando as portas fechadas”. Aparentemente essas coisas não foram simplesmente para que eles soubessem que Ele era o filho de Maria. Não havia um imperativo físico em reconhecê-lo. Em outras palavras, Ele já não era “parte” desse mundo, dessa realidade, e reconhecê-Lo, entrar na alegria de Sua presença, estar com Ele, implicava uma conversão a uma outra realidade. A glorificação do Senhor não tinha o caráter impositivo, a evidência objetiva de Sua humilhação da cruz. Sua glorificação é conhecida apenas por através da misteriosa morte na pia batismal, através da unção do Espírito Santo. Ela só pode ser conhecida na plenitude da Igreja, na medida em que ela reúne as pessoas para encontrar o Senhor e partilhar de Sua ressurreição.

Os primeiros cristãos perceberam que, para que se tornassem Templo do Espírito Santo, eles deveriam ascender aos Céus para onde Cristo havia subido. Eles entenderam também que essa ascensão era a condição primordial de sua missão no mundo, de seu ministério no mundo. Pois lá – nos Céus – eles estariam imersos na nova vida do Reino; e quando, depois dessa “Liturgia da ascensão”, eles retornavam ao mundo, seus rostos refletiam a luz, a “alegria e a paz” desse Reino, do qual eles se tornavam verdadeiras testemunhas. Eles não traziam programas ou teorias; mas aonde quer que fossem, as sementes do Reino brotavam, acendia-se a fé, a vida era transfigurada, as coisas impossíveis se tornavam possíveis. Eles eram testemunhas, e quando lhes perguntavam: “De onde vem essa luz, qual é a fonte desse poder?”, eles sabiam o que responder e aonde conduzir as pessoas. Mas na Igreja de nossos dias, frequentemente só encontramos o mesmo velho mundo, e nem Cristo, nem Seu Reino. Não nos damos conta de que não vamos a parte alguma, porque jamais abandonamos o lugar em que estamos.

Ir, vir… Esse é o começo, o ponto de partida do Sacramento, a condição de sua transformação em poder e realidade.

4

A Liturgia Ortodoxa começa com a solene Doxologia: “Bendito é o Reino do Pai, do Filho e do Espírito Santo, agora e sempre, e pelos séculos dos séculos”. Desde o início se anunciava o destino: a jornada é para o Reino. É para onde todos estamos indo – e não simbolicamente, mas de verdade. Na linguagem da Bíblia, que é a mesma linguagem da Igreja, bendizer o Reino não equivale simplesmente a aclamá-lo. Mas é declará-lo como sendo o objetivo, o cume de todos os nossos desejos e interesses, de toda nossa vida, o valor supremo e máximo de tudo o que existe. Bendizer significa aceitar com amor e se mover em direção ao que é amado e aceito. Assim é que a Igreja constitui a assembleia, a reunião daqueles para quem o destino último de toda a via fi revelado e que o aceitaram. Essa aceitação é expressa na solene resposta à Doxologia: “Amém”. Essa é, de fato, uma das palavras mais importantes do mundo, porque ela expressa a concordância da Igreja em seguir a Cristo em sua subida ao Pai, e para fazer dessa subida o destino do homem. É um presente de Cristo para nós, pois somente Nele podemos dizer Amém a Deus, ou antes, é Ele próprio nosso Amém a Deus e a Igreja constitui um Amém a Cristo. É sobre esse Amém que o destino da raça humana é decidido. Ele revela que o movimento para Deus começou.

Mas ainda estamos muito no começo. Deixamos “esse mundo”. Nós o fizemos juntos. Ouvimos o anúncio de nosso destino derradeiro. Dissemos “amém” a esse anúncio. Somos a ecclesia, a resposta a esse chamado e mandamento. E começamos com nossas “preces comuns e súplicas”, com um ato comum e alegre de louvor. Mais uma vez, é preciso enfatizar o caráter alegre da reunião litúrgica. Pois a ênfase medieval na cruz, embora não fosse errada, era certamente unilateral. A Liturgia é, antes de qualquer coisa, a reunião alegre daqueles que encontraram o Senhor ressuscitado e que com Ele penetraram na Câmara Nupcial. Essa é a alegria da expectativa e essa espera alegre á expressa em música e ritual, vestimentas e incenso, em toda essa “beleza” da Liturgia, que tantas vezes foi denunciada como desnecessária e até pecaminosa.

De fato, ela é desnecessária, porque estamos além das categorias da “necessidade”. A beleza nunca é “necessária”, “funcional” ou “útil”. E quando, esperando por alguém que amamos, colocamos uma linda toalha na mesa e a decoramos com flores e velas, não o fazemos por necessidade, mas por amor. E a Igreja é amor, espera e alegria. É o céu na terra, de acordo com nossa tradição Ortodoxa: é a alegria da infância redescoberta, essa alegria livre, incondicionada e desinteressada, a única capaz de transformar o mundo. Em nossa piedade adulta e séria exigimos definições e justificativas, mas elas estão enraizadas no medo – medo da corrupção, do desvio, das “influências pagãs” e o que mais for. Pois “no perfeito amor não existe medo[6]”. Na medida em que os cristãos amarem de fato o Reino de Deus, e não apenas não discutirem a respeito, eles realmente o “representarão” e darão significado a ele com arte e beleza. E a celebração do Sacramento de alegria aparecerá numa magnífica casula, porque estará revestida da glória do Reino, porque mesmo na forma do homem Deus aparece em glória. Na Eucaristia nos colocamos na presença de Cristo e, como Moisés diante de Deus, nos revestimos de sua glória. O próprio Cristo vestiu uma túnica inconsútil que os soldados junto à cruz não puderam dividir: ela não foi comprada no mercado, ao contrário – com toda probabilidade, foi confeccionada pelas mãos amorosas de alguém. Sim, a beleza de nossa preparação para a Eucaristia não tem uma utilidade prática. Mas Romano Guardini falou sabiamente sobre a inutilidade da beleza. Ele disse, a respeito da Liturgia:

“O homem, com a ajuda da graça, tem a oportunidade de alterar sua essência fundamental, de realmente se tornar aquilo que deve ser de acordo com seu destino divino: um filho de Deus. Na Liturgia, ele “caminha para Deus, que dá alegria à sua juventude” (…) É pelo fato de que a vida da Liturgia é mais elevada do que tudo o que a realidade costumeira e capaz de apresentar como oportunidade ou modo de expressão, que ela adapta as formas e os métodos adequados dessa esfera única na qual elas podem ser encontradas, ou seja: na arte. Ela fala compassada e melodiosamente; ela emprega gestos formais e rítmicos; ela se recobre com cores e vestimentas que não encontramos na existência de todo dia (…) Ela constitui o mais alto sentido da vida de uma criança, na qual tudo é pintura, melodia e canções. Esse é o fato maravilhoso que a Liturgia nos mostra: ela une o ato e a realidade numa infância sobrenatural diante de Deus[7]”.

5

O próximo ato da Liturgia é a entrada: a chegada do celebrante ao altar. Já foram dadas muitas explicações simbólicas para isso, mas não se trata de um “símbolo”. Ela representa o próprio movimento da Igreja como passagem do velho para o novo, “desse mundo” para o “mundo futuro”, e, como tal, ela constitui o movimento essencial da “jornada” litúrgica. “Nesse mundo” não existe altar, e o templo foi destruído. Pois o único altar é o próprio Cristo, Sua humanidade que Ele assumiu e deificou, tornando-a templo de Deus, o altar de Sua presença. E Cristo subiu as céus. Assim, o altar é o sinal de que em Cristo recebemos acesso aos céus, que a Igreja consiste na “passagem” para os céus, a entrada no santuário celestial, e que apenas “entrando”, subindo aos céus a Igreja se torna plena, se torna o que ela é para ser. E assim a entrada na Eucaristia, essa aproximação do celebrante – e, com ele, de toda a Igreja – ao altar, não é um símbolo. Trata-se do ato decisivo e crucial nos qual as verdadeiras dimensões do Sacramento são reveladas e estabelecidas. Não é a “graça” que desce; é a Igreja que entra na “graça”, e a graça implica uma nova existência, o Reino, o mundo futuro. E, na medida em que o celebrante se aproxima do altar, a Igreja entoa o hino que os anjos cantam eternamente junto ao trono de Deus – “Santo Deus, Santo poderoso, Santo imortal” – e o sacerdote diz: “Santo Deus, Tu que és celebrado três vezes santo na voz dos Querubins, que és glorificado pelos Serafins e adorados por todas as potências celestiais”.

Os anjos não estão aqui como decoração ou inspiração. Eles estão precisamente por causa dos céus, acima e além do qual só conhecemos uma coisa: que ele ressoa eternamente com os louvores de divina glória e santidade. “Santo” é o verdadeiro Nome de Deus, do Deus “que não é dos acadêmicos e dos filósofos”, mas do Deus vivo da fé. O conhecimento sobre Deus resulta em definições e distinções. O conhecimento de Deus conduz apenas a uma palavra, incompreensível, ainda que óbvia e inescapável: santo. E nessa palavra expressamos tanto que Deus é Absolutamente Outro, Aquele sobre Quem nada sabemos, e que Ele é o fim de nossa fome, de todos os nossos desejos, o inacessível Um que mobiliza nossa vontade, o misterioso tesouro que nos atrai, e que não há nada para ser conhecido sobre Ele. “Santo” é a palavra, a música, a “reação” da Igreja na medida em que ela penetra nos céus, na medida em que ela se coloca diante da glória celestial de Deus.

6

Agora, pela primeira vez desde que se iniciou a jornada da Eucaristia, o celebrante se volta e encara o povo. Até esse momento, ele era o encarregado de conduzir a Igreja em sua ascensão, mas agora o movimento alcançou seu objetivo. E o sacerdote, cuja liturgia, cuja única função e obediência na Igreja consiste em re-presentar, em tornar presente o sacerdócio do próprio Cristo, diz ao povo: “A paz esteja convosco”. Em Cristo o homem retorna a Deus e em Cristo Deus Se torna homem. Como o novo Adão, como o homem perfeito, Ele nos conduz a Deus; como Deus encarnado Ele revela o Pai a nós e nos reconcilia com Deus. Ele é a nossa paz – a reconciliação com Deus, o perdão divino, a comunhão. E a paz que o sacerdote anuncia e distribui a todos é a paz que Cristo estabeleceu entre Deus e Seu mundo, e no qual nós, a Igreja, acabamos de penetrar.

É dentro dessa paz – “que ultrapassa todo entendimento” – que agora se inicia a Liturgia do Verbo. Os Cristãos Ocidentais estão tão acostumados a distinguir o Verbo do sacramento, que pode ser difícil para eles entender que na perspectiva Ortodoxa a Liturgia do Verbo é tão sacramental quanto o sacramento é “evangélico”. O Sacramento é uma manifestação do Verbo. E, a menos que seja superada a dicotomia entre o Verbo e o Sacramento, o verdadeiro sentido de ambos, e em especial o verdadeiro sentido do “sacramentalismo” cristão não pode ser captado em todas as suas maravilhosas implicações. A proclamação do Verbo é um ato sacramental por excelência, porque se trata de um ato transformador. Ele transforma as palavras humanas do Evangelho na Palavra de Deus e num templo do Espírito. A cada noite de sábado, na solene Vigília da Ressurreição, o evangeliário é trazido em procissão solene passando em meio à congregação, e com essa ação o Dia do Senhor é anunciado e manifestado. Pois o Evangelho não é apenas um “registro” da ressurreição de Cristo; o Verbo de Deus constitui a eterna vinda a nós do Senhor Ressuscitado, o próprio poder e a alegria da ressurreição.

Na Liturgia, a proclamação do Evangelho é precedida pelo “Aleluia”, a celebração dessa misteriosa palavra “teófora” que constitui a alegre ação de graças de todos os que veem o Senhor chegar, que têm consciência de Sua presença, e que expressam sua alegria diante dessa gloriosa “Parusia”. “Aqui está Ele!”, seria a tradução mais adequada para esse termo intraduzível.

É por isso que a leitura e a pregação do Evangelho na Igreja Ortodoxa é um ato litúrgico, uma parte integral e essencial do Sacramento. Ele é ouvido como sendo a Palavra de Deus, e é recebido no Espírito – vale dizer, na Igreja, que é a vida do Verbo e sua “expansão” no mundo.


___________________


[1] João 1: 10.

[2] Lucas 2: 10.

[3] Lucas 24: 52.

[4] Mateus 25: 21.

[5] Lucas 24: 15-16, 30.

[6] I João 4: 18.

[7] Guardini, Romano – The Church and the Catholic, and the Spirit of the Liturgy, NY, 1950.



Protopresbítero Alexander Schmemann
tradução de Tito Kehl

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Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

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