Cristo está entre nós, meus queridos leitores!
Hoje, a Santa Igreja nos apresenta, para nossa reflexão em oração, as palavras do santo Apóstolo Paulo: “Porque, se eu vos entristecer, quem me alegrará, senão aquele que por mim é entristecido?” (2 Coríntios 2:2). Nessas palavras, revela-se o mistério do verdadeiro ministério pastoral, o mistério do amor cristão e o complexo processo de cura espiritual da alma humana.
À primeira vista, as palavras do Apóstolo podem parecer contraditórias. Como pode aquele a quem causamos tristeza tornar-se a fonte da nossa alegria? Mas o Apóstolo está falando aqui daquela dor difícil, porém necessária, que surge quando o pecado encontra a verdade de Deus.
O Apóstolo Paulo repreendeu os Coríntios. Escreveu-lhes palavras severas e amargas, admoestando-os, corrigindo-os e chamando-os ao arrependimento. Contudo, essas repreensões nunca foram para ele uma expressão de ira humana, vaidade ou desejo de afirmar sua própria autoridade. Pelo contrário, o Apóstolo apresenta sua repreensão como uma manifestação do maior amor, o amor sacrificial.
Na vida espiritual, a dor causada em nome da correção é remédio, não veneno. Quando um médico limpa uma ferida, causa dor ao paciente, mas essa dor é salutar. Da mesma forma, uma palavra pastoral de repreensão, proferida com amor, entristece o homem carnal, mas revigora o espírito. A verdadeira alegria de um pastor reside na correção e no crescimento espiritual de seu rebanho. E a alegria do próprio rebanho reside na consolação que advém quando o arrependimento cura a dor do pastor e restaura a unidade.
Vivemos em uma época em que o coração humano está exausto de tanta tristeza. Portanto, como cristãos, não temos o direito de nos tornarmos uma fonte de nova e insensata dor onde já existe tanta angústia. Nosso dever é buscar todas as oportunidades de reconciliação, perdão mútuo e oração sincera uns pelos outros. Somos chamados a orar até mesmo por nossos inimigos e a pedir incessantemente a Deus aquela paz “que excede todo o entendimento” — a paz que vem do próprio Cristo.
Nossos relacionamentos com os outros exigem o mais alto grau de discernimento espiritual. Os Santos Padres frequentemente ensinavam que existem dois tipos de tristeza e dois tipos de palavras. Há as tristezas que causamos ao nosso próximo por nossa própria vaidade, irritação, ressentimento ou obstinada vontade de insistir em nosso próprio caminho. Tais palavras e ações devemos evitar com toda a força de nossa alma. Elas não curam; apenas ferem, aprofundam o abismo entre as pessoas e envenenam o ambiente de nossas vidas.
Mas existe outro tipo de verdade — quando o silêncio equivaleria a uma traição ao amor. Se a nossa palavra, mesmo que desagradável, difícil e amarga, for capaz de levar outra pessoa a reconhecer o seu erro, a arrepender-se e a retornar ao caminho da vida, então essa palavra deve ser proferida. Mas deve ser proferida unicamente com amor, mansidão e fervorosa oração pela pessoa a quem nos dirigimos. Se, porém, sentirmos que a nossa repreensão é motivada apenas por ressentimento, orgulho ou pelo desejo de humilhar a outra pessoa, é melhor permanecermos em silêncio e arrependermo-nos do que há em nosso próprio coração.
Ao refletirmos sobre as palavras que dirigimos aos outros, não nos esqueçamos do outro lado deste mistério espiritual. Se tal palavra — uma palavra amarga, dolorosa e repreensiva — nos for dirigida, não nos apressemos a ofender-nos e a fechar os nossos corações. A reação natural do homem caído à correção é a autodefesa, a autojustificação e a retaliação. Mas uma pessoa espiritual esforça-se por ver além da forma exteriormente desagradável e compreendê-la como uma oportunidade para a sua própria correção.
Se a verdade nos entristece, aceitemo-la como um remédio amargo, mas benéfico. Se, no entanto, estivermos entristecidos injustamente, aceitemos isso como uma oportunidade para praticar a paciência e a humildade.
Que o Senhor nos conceda sabedoria celestial para discernir quando a nossa palavra deve tornar-se o remédio do amor – corajoso mas manso – e quando deve tornar-se o silêncio da humildade, cobrindo o pecado do próximo com oração e perdão.
Lembremo-nos de que o objetivo da vida cristã não é a vitória nas disputas nem a prova de que estamos certos, mas o amor, a paz e a salvação das almas. Que aquela alegria da qual o Apóstolo Paulo nos fala hoje – a alegria da correção mútua, do arrependimento sincero e da reconciliação profunda cheia de graça – se torne também a nossa alegria, fortalecendo-nos no caminho para o Reino dos Céus.
Metropolita Luka (Kovalenko) de Zaporozhyn e Melitopol
tradução de monja Rebeca (Pereira)







