Hoje, não quero falar sobre a história do ícone. Quero falar sobre Ela mesma. Quem Ela é. O que Ela significa para cada um de nós que estamos diante do Ícone de Vladimir da Mãe de Deus.
Ao longo da Bíblia, Deus fala com as pessoas. E, vez após vez, Ele recebe respostas diferentes. Adão se esconde. Caim nega. O povo de Israel deixa o Egito — e imediatamente reclama. Os profetas hesitam — Moisés diz: “Estou sem palavras; enviem outro”. Jonas foge de seu chamado em um navio na direção oposta.
A história do Antigo Testamento pode ser lida como uma história de afastamento de Deus.
E aqui estamos nós — Nazaré, a casa do carpinteiro. A jovem Maria. Um anjo aparece para Ela e diz: “Um filho nascerá de Ti, e lhe dará o Nome de Jesus. E por meio de Ti, Deus entrará no mundo”.
Maria poderia ter feito o que os profetas fizeram. Perguntar: Por que Eu? Como isso é possível? O que as pessoas dirão? O que José dirá? O que os vizinhos dirão? Como posso viver com isso? Mas Ela responde:
“Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em Mim segundo a Tua palavra.”
Este é o primeiro “sim” puro do homem a Deus em toda a história do mundo. Não “sim, mas…”. Não “sim, se…”. Não “sim, então…”. Simplesmente — sim. Completamente. O ser humano inteiro, entregando-se à vontade de Deus.
Teólogos chamam Maria de a palavra mais grandiosa e aterradora: a Mãe de Deus, que deu à luz a Deus. Na antiguidade, as pessoas discutiram, lutaram e se exilaram por causa dessa palavra. Porque é algo impressionante. Como pode uma criatura dar à luz um Criador? Como pode uma criatura conter um Criador?
A resposta da Igreja é simples: ela pôde — porque se tornou um lar, um lugar onde Deus pôde habitar não de longe, mas como Filho — dentro dela.
Cristo esteve n´Ela por nove meses como não esteve em mais ninguém depois. Ela foi a primeira pessoa a carregá-Lo fisicamente. Quem sentiu Seu coração bater. Quem percebeu Seus primeiros movimentos. Quem O amamentou. Quem Lhe ensinou Suas primeiras palavras. Quem segurou Sua mão enquanto Ele dava Seus primeiros passos.
Ninguém na história esteve tão perto de Deus. E isso A torna única. Ela é a casa de Deus. E todo o propósito da vida cristã é se tornar essa casa. Não em igual medida, é claro. Mas em uma medida acessível a cada um de nós. Através do arrependimento, da oração, da Comunhão. Através do simples consentimento de dizer “sim” a Deus em nossas pequenas ações cotidianas.
Será que Ela nos deixou Suas alianças, Seus mandamentos, uma palavra dirigida a nós? A resposta é simples, e Ela mesma a deu. Em Caná da Galileia, quando o vinho acabou no casamento, Ela Se dirigiu aos ministros com uma única frase que permaneceu Seu principal sermão à Igreja:
“Façam tudo o que Ele vos disser.”
Ela está sempre perto, sempre nos conduzindo ao Filho.
No ícone de Vladimir, a Mãe de Deus inclina a face em direção ao Menino Jesus. Ele A abraça pelo pescoço. Ela O aperta contra Si. Seus rostos se tocam. Tais ícones são chamados de Eleusa em grego, que significa “misericordiosa” ou “terna”.
Este ícone retrata, antes de tudo, não a majestosa Rainha do Céu, mas a Mãe. Sua face pressionada contra Seu Filho. E através disso, Ela se estende a cada um de nós. Pois Se Ela ama tanto Seu Filho, Ela também ama aqueles que Ele mesmo adotou em Si nos momentos finais de Sua vida terrena. E estes somos nós, toda a raça cristã! “Mulher, eis aí o Teu Filho.” “Eis aí a Tua Mãe.”
Não tenha medo de orar à Mãe de Deus de forma simples. Uma palavra curta basta — como uma criança chama por sua mãe. “Mãe de Deus, ajuda-me” — basta. “Não me abandones” — basta. “Vês como é difícil para mim” — basta. E esta festa celebra o fato de termos uma Mãe no céu, que jamais nos abandonará.
Santíssima Mãe de Deus, salva-nos! Amém.
Metropolita Tikhon (Shevkunov) de Simferopol e Criméia
tradução de monja Rebeca (Pereira)







