Durante séculos, as pessoas usaram naturalmente termos simples e compreensíveis para definir “o que é bom e o que é mau”. Um homem poderia dizer ao seu vizinho: “Tema a Deus!” ou “Você não tem cruz!” — e tudo fica claro. De fato, o conceito de pecado é fundamental para distinguir entre o que é permitido e o que é proibido, entre o bem e o mal.

Se você assistiu a “Um Romance Cruel”, de Ryazanov, aquela vibrante adaptação de “O Dote”, que vale muito a pena assistir, provavelmente se lembra das cenas finais. Nelas, o personagem principal, apaixonado, é levado num barco a vapor por um homem incrivelmente bonito. O barco não lhe pertence mais. Foi vendido, e o novo dono está comemorando a compra com uma festa animada de ciganos. O próprio homem bonito (interpretado brilhantemente por Nikita Mikhalkov) está noivo de uma mulher rica para melhorar sua situação financeira. E ele simplesmente devora essa moça, que está apaixonada por ele, por diversão, como uma aranha devora uma mosca.

Na manhã seguinte, por assim dizer, “après”, ele confessa, de ressaca, que não pode ser marido daquela mulher que usou. A moça percebe, horrorizada, que foi cruelmente usada, que agora está “caída”, publicamente desonrada.

A língua russa tem muitas expressões fortes para esse pesadelo. Mas a heroína profere, até mesmo exala, uma frase simples e pesada: “Isso é ímpio!” E essa frase descreve perfeitamente o que aconteceu.

Poderíamos, é claro, dizer: “Isso é ilegal. Isso é desonesto. Isso é repugnante.” Todas essas palavras seriam verdadeiras, pois tirar a virgindade de uma jovem por aposta, bêbado, por mera “diversão”, na véspera de seu casamento com outra mulher — isso é desonesto, repugnante e ilegal. Mas, de alguma forma, todas essas palavras empalidecem em comparação com a dimensão da tragédia. Na realidade, tudo o que aconteceu foi verdadeiramente ímpio!

Foram precisamente essas caracterizações precisas que a língua russa e a consciência coletiva perderam ao longo do tempo, por razões bem conhecidas. E o fato de o cinema soviético ter permitido, acidentalmente, que essa frase de ouro aparecesse nas telas apenas reforça a regra geral.

Os russos passaram todo o século XX se desvencilhando dessas caracterizações precisas e pertinentes da vida ao seu redor, características dos provérbios e ditados russos, com sua impiedade acusatória e sutil ironia. O povo de Deus se lembrava e discernia com sensibilidade o que era pecaminoso e o que não era.

Afinal, existem coisas perfeitamente legais que, no entanto, são pecaminosas. O mal pode ser belo, aceito pela sociedade e legitimado pela lei. Mas um breve e ameaçador “É pecado!”, como o lampejo de um sabre no ar, coloca tudo em seu devido lugar.

E algum crítico confundirá o mundo inteiro, discutindo os significados sutis de uma nova estética. Tudo o que precisam fazer é cuspir e dizer: “Que vergonha!” e se afastar.

Aparentemente, precisamos reintroduzir na língua russa e na prática cotidiana aquelas descrições breves e vívidas que criaram e mantiveram a força moral ao longo da história russa, até a época da infidelidade soviética. Porque a verbosidade apenas obscurece o significado, e a ausência de termos como “pecado” e “vergonha” na língua priva as pessoas de seus últimos marcadores e salvaguardas morais.


Arcipreste Andrey Tkachev
tradução de monja Rebeca (Pereira)

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Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

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