Uma Homilia para a Dormição da Mãe de Deus
Em Nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.
Nossos amigos!
“Cantemos o divino sepultamento da Mãe de Deus.”
Foi um grande evento que deu origem a esta festa. “O céu se alegra agora com a terra, glorificando o repouso da Mãe de Deus.” E assim como o mundo venera o Túmulo Vivificante do Filho de Deus e do Filho da Virgem — a fonte da nossa ressurreição —, ele se prostra diante do túmulo da Mãe de Deus. “Getsêmani, acolhendo o túmulo bendito e virginal, é honrado como um palácio real.” E até hoje, pessoas de todo o mundo acorrem a lá, ao seu túmulo. Oferecem-lhe orações de gratidão e alegria, súplicas em meio às tristezas, aflições e doenças; oferecem o amor de seus corações e sua confiança inabalável em seu amor e cuidado maternos.
E cada igreja ortodoxa tem agora um ícone da Dormição da Mãe de Deus ou uma representação de seu sudário no centro. E em todo o mundo, a Rainha Celestial ouve nossas orações e vê nossa piedosa veneração pelo feito de Sua vida e pela glória que A coroou. E Seu túmulo, fonte de lágrimas, tornou-se fonte de alegria, e a morte se tornou a Dormição. Ouvimos a voz da Mãe de Deus dirigida a nós nos hinos da Igreja hoje: “Filhos do Senhor e meu Filho! Que a alegria da Minha partida para Deus não se transforme em pranto. Alegrai-vos! Estou convosco sempre, até o fim dos tempos.”
A partir deste dia glorioso de Sua Dormição, a Virgem portadora de luz torna-Se a Mãe de toda a humanidade e a Rainha do Céu. E o Seu cuidado maternal abre-se claramente ao homem. A vida terrena da Virgem Maria estava escondida na humildade, no silêncio e no mistério. Foi somente a partir do túmulo que a luz da Sua glória e a grandeza da Sua vida brilharam sobre o mundo. Pelo Seu nascimento e morte Ela revelou que pertence à natureza humana. Mas quantas pessoas sabiam durante a vida da Santíssima Virgem que a Sua concepção não teve sementes, o Seu nascimento foi incorrupto e a Sua morte foi imortal? A morte e a sepultura não puderam deter Aquela que deu à luz o Destruidor da morte; e depois de três dias o Seu túmulo foi encontrado vazio, proclamando ao mundo o grande mistério da vida de Maria, da imortalidade da Sua alma e do Seu corpo.
E este testemunho vive no mundo de geração em geração e ultrapassa os limites da vida, quando se encontra no limiar da eternidade a sua fervorosa Intercessora – a Mãe de Deus, que está pronta a ajudar a alma que sai da terra. E muitos santos e justos deixaram-nos testemunhos verdadeiros sobre como a Mãe de Deus lhes apareceu nos dias anteriores à Sua morte, encorajando-os com a brilhante esperança da Sua ajuda. A própria Virgem Puríssima prestou à morte um tributo à raça humana, mas apenas por um breve momento. Seu Filho e Deus receberam Sua alma em Suas mãos, e Seu corpo, elevado sobre uma carruagem angelical, iluminado pela graça, ascendeu ao Céu. E é a partir deste dia que a Mãe de Deus – a Rainha do Céu – situada à direita de Deus, o Rei, está sentada bem acima de todo ser criado.
Com admiração diante da majestade da Mãe de Deus, São João de Damasco diz que nossas mentes não conseguem imaginar o brilho que envolve a Santíssima Virgem no Paraíso. Ela, a Rainha do Céu, é venerada por todas as categorias de anjos; Ela é glorificada pela própria Divindade Tri-hipostática: o Espírito Santo – como a Noiva Solteira; o Filho e a Palavra – como a Mãe Solteira; Deus, o Pai – como a donzela amada.
A partir do dia da Dormição, a profecia do Salmista e do Rei David sobre a futura Rainha recebeu o seu fim: À Tua direita está a Rainha, vestida com vestes forjadas em ouro… (Sl. 44:9).
“A partir de hoje, a alegria inefável e a honra imensurável de Maria estão com Seu Filho Jesus e reinam no Céu e na Terra”, diz a Santa Igreja, ecoando o patriarca e profeta. A grandeza da Mãe do Senhor foi revelada aos mundos terreno e celestial por sua Dormição, e a Igreja se encheu de hinos a Ela, que é mais honrada que os Querubins e incomparavelmente mais gloriosa que os Serafins.
Mas as primeiras orações devotas à Santíssima Virgem foram trazidas à Terra pelos habitantes do Céu ainda durante sua vida. O Arcanjo Gabriel trouxe-Lhe uma oração de alegria e anunciação: “Ó Mãe de Deus e Virgem, alegra-te, Maria cheia de graça…” Os anjos de Deus nos ensinaram a glorificação celestial da Rainha Celestial: “É verdadeiramente digno bendizer-Te, ó Mãe de Deus…”
A profecia da futura veneração foi proferida pela própria Virgem Puríssima quando Sua vida ainda estava misticamente oculta aos homens. Revelando inadvertidamente o segredo de Sua escolha perante a justa Isabel, ela diz: “Desde agora todas as gerações Me chamarão bem-aventurada” (Lc 1,48).
O primeiro século do Cristianismo não preservou evidências diretas da glorificação da Virgem Maria. Há poucas menções a Ela no Santo Evangelho. Nosso Senhor Jesus Cristo e Seus Apóstolos silenciaram a Seu respeitos, e isso demonstra a misteriosa dispensação da providência de Deus, que concede a veneração da Santíssima Virgem à livre inspiração da fé e do amor. O amor pela Mãe de Deus no coração cristão nasce com evidências inegáveis e força irresistível, sendo vividamente confirmado pela própria vida e pela medida de nossa vida na Igreja.
Na Igreja, firmados no poder salvador vital do feito do Salvador na Cruz, contemplamos a santidade perfeita d´Aquela que Se tornou a causa de nossa salvação, unindo Deus ao homem. E nos curvamos e silenciamos diante da majestade da abundante beleza do homem revelada n´Ela. Na Santíssima Virgem, vemos como a fé em Deus e a devoção a Ele uniram a vontade do homem à vontade de Deus. São Filareto, Metropolita de Moscou, disse: “Nos dias da criação do mundo, quando Deus pronunciou Sua voz viva e poderosa: Haja…, a Palavra do Criador trouxe as criaturas ao mundo, mas no dia sem precedentes em que a divina Maria pronunciou Sua voz mansa e obediente: Faça-se em Mim…, a palavra da criatura traz o Criador ao mundo.”
E a impecabilidade da Virgem Maria, a Sua santidade mais perfeita mesmo na Sua permanência terrena, foram a causa da Sua escolha, excepcional na força e única na profundidade da santificação.
Tendo Se tornado Mãe de Deus, a Santíssima Virgem recebeu grandes direitos de maternidade, e deu esses direitos à humanidade, adotada por Seu Filho na Cruz, tornando-Se Sua intercessora e padroeira. Não vemos a realização da ordem geral de salvação estabelecida por Deus para a humanidade na vida do Santíssimo Theotokos? A Santíssima Virgem percorreu o caminho da vida terrena desde o nascimento natural até a morte, crescendo na humildade, na obediência, na cruz da maternidade e na completa devoção à vontade de Deus até a perfeita santidade. Santo Efrém, o Sírio, comparando a santidade da Mãe de Deus com a grandeza da santidade do Salvador, escreve: “Tu, ó Senhor, assim como Tua Mãe, és perfeitamente santo, pois não tens mancha, ó Senhor, e Tua Mãe não tem pecado”.
E Ela – a maior dentre as santas – santificou a vida humana, deixando aos Seus filhos um exemplo de vida vivida para a salvação. Submetendo-Se voluntariamente à lei da morte que é comum à humanidade, a Theotokos subiu ao último degrau de Sua ascensão à glória celestial. E a Sua Dormição tornou-se uma transição para o reino da existência eterna. “A vida da era futura, que ainda aguardamos, já é para Ela uma vida eterna presente, no mais alto grau de glória.” A ascensão da ressuscitada Mãe de Deus é confessada como uma crença indubitável da Igreja Ortodoxa. “Contemplando a Dormição da Puríssima, os anjos ficaram maravilhados, pois a Virgem sobe da terra ao Céu.”
E devido à Sua proximidade com Deus, a Theotokos possui um poder incomparavelmente grande, que é prometido àqueles que acreditam em Seu Filho. Através da Mãe de Deus realiza-se a nossa graciosa união com Cristo, com o Corpo de Cristo na Sagrada Comunhão. Assim como Eva se tornou mãe de todos aqueles que vivem por origem natural, a Virgem Maria Se tornou mãe de todos os que vivem pela graça. Através do Seu Filho, Ela adota aqueles que acreditam no Seu Filho. Aqueles que não confessam o Seu Filho são privados da Sua bendita filiação.
Em pé diante do trono de Deus, Ela intercede por nós, concedendo-nos a graça que vivifica o poder de nossas almas. A importância da Mãe de Deus em nossa salvação é tão grande e poderosa que nos voltamos para Ela não apenas como auxílio em nossa salvação, mas como Aquela que a realiza. Rezamos: “Santíssima Theotokos, salva-nos!” Esta nossa fé tornou-se conhecimento experiencial de receber Sua misericordiosa ajuda em espírito de amor e compaixão por nós, que somos fracos e pecadores. E o Troparion da festa de hoje testemunha que nossa vida dentro dos limites da Igreja de Cristo passa sob a proteção da Rainha Celestial em unidade com Deus: “Ao adormecer, não abandonaste o mundo, ó Theotokos. Foste trasladada para a vida, ó Mãe da Vida, e por Tuas orações, livras nossas almas da morte.”
Que veneração, gratidão e poder de amor devemos oferecer a Ela em nossos corações — à iniciadora de nossa salvação, à intercessora de nossa salvação, à nossa auxiliadora no caminho da salvação.
E se Cristo disse que Ele é o Caminho, a Verdade e a Vida, então a Mãe de Deus, a Filha do homem, seguiu inabalavelmente Seu Filho neste caminho que conduz à vida eterna, deixando-nos a certeza inquestionável de seu caráter salvífico, dando-nos inspiração e fonte de força para completá-lo, e com a alegria da união com Deus e a Mãe de Deus.
Assim, meus queridos, que estes dois nomes salvíficos — Jesus Cristo e a Theotokos Maria — estejam sempre inscritos nas tábuas de nossos corações; que sejam o princípio e o fim de nossas orações.
E a Santíssima Virgem, Rainha do Céu e nossa Mãe, jamais envergonhará nossas orações, pois o mar de Suas graças é inesgotável, a fonte de Seu amor é inextinguível e Sua misericórdia não conhece limites.
Ó, graciosa e gloriosa Rainha! De Teu divino esplendor, envie sobre nós, Teus filhos que reverentemente se prostram diante de Teu túmulo, um raio da luz de Tua glória, e que ele santifique nossas mentes obscurecidas pelas paixões, que fortaleça nossa vontade debilitada, que nos conceda a visão de Teus divinos estatutos, para que possamos seguir zelosamente Teu exemplo rumo à salvação. Esperamos de Ti, ó Santíssima Virgem, a alegria e a consolação dos cristãos, bem como ajuda e intercessão. Amém.
Arquimandrita Ioann(Krestiankin)
tradução de monja Rebeca (Pereira)






