“BEM-AVENTURADOS OS QUE OUVEM A PALAVRA DE DEUS E A PRATICAM”

Qualquer pessoa que já tenha aberto o Evangelho conhece o Sermão da Montanha do Salvador e as nove Bem-aventuranças com as quais ele começa: “Bem-aventurados os pobres em espírito… bem-aventurados os que choram… bem-aventurados os mansos…” (Mateus 5:3-12). No entanto, há outro mandamento nas Escrituras que não está incluído nesta lista, mas que, em essência, engloba todos os nove. O Senhor o proferiu em outra ocasião, mas seu significado é tão profundo e abrangente que pode ser justamente chamado de décima Bem-aventurança, a universal. Está escrito: “Bem-aventurados aqueles que ouvem a palavra de Deus e a praticam” (Lucas 11:28).

Por que esse mandamento engloba todos os outros? Porque ser pobre em espírito, chorar pelos pecados, ser manso, ter sede de justiça, mostrar misericórdia, ter um coração puro, promover a paz, suportar o exílio e os insultos – tudo isso nada mais é do que diferentes aspectos de um todo: a vida segundo a palavra de Deus.

Quem acolhe esta palavra de todo o coração e a cumpre, inevitavelmente alcançará toda a bem-aventurança. Por outro lado, se alguém pensa que cumpre apenas um mandamento, mas negligencia a palavra de Deus em sua totalidade, sua virtude é imperfeita, frágil e vulnerável.

Escutar e ouvir: qual a diferença?

Em nossa linguagem cotidiana, as palavras “escutar” e “ouvir” são frequentemente usadas como sinônimos. Mas, em um sentido espiritual, existe uma vasta diferença, salvífica ou, ao contrário, condenatória, entre elas.

Escutar é um processo. Pode-se estar na igreja, ouvir atentamente a leitura da Epístola ou do Evangelho, até mesmo compreender o significado das palavras com a mente — e ainda assim permanecer surdo de coração. Escutar externamente sem aceitação interna é como olhar-se no espelho, afastar-se e imediatamente esquecer quem se é (cf. Tiago 1:23-24).

Escutar é um resultado. Biblicamente, isso significa não apenas perceber o significado contido nos sons, mas aceitar a palavra como verdade, internalizá-la, guardá-la no coração, como fez a Santíssima Mãe de Deus. O evangelista Lucas observa duas vezes que a Mãe de Deus guardava todas as palavras acerca de Seu Filho, “meditando-as em Seu coração” (Lucas 2:19; 51). Isso é ouvir: quando uma palavra deixa de ser informação externa e se torna o conteúdo interior da alma, seu tesouro. Uma pessoa que ouve não apenas conhece um mandamento — ela se lembra dele, testa cada movimento seu à luz dele, temendo quebrá-lo como teme perder algo querido. Ouvir significa valorizar a palavra.

O que é a palavra de Deus?

No sentido mais estrito e preciso, a palavra de Deus são as palavras que o próprio Deus dirigiu diretamente aos profetas, apóstolos e homens justos. “E o Senhor disse a Moisés…”, “A palavra do Senhor veio a Jeremias…” — essas fórmulas bíblicas apontam para o discurso direto de Deus às pessoas. Então o próprio Filho de Deus, tendo-Se encarnado, falou às pessoas com autoridade: “Mas Eu vos digo…” Suas palavras (logia) são também a palavra de Deus no sentido mais direto.

Em sentido amplo, a palavra de Deus refere-se a toda a Bíblia — o Antigo e o Novo Testamento, todo o Cânone inspirado estabelecido pela Igreja. O apóstolo Paulo escreve: “Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção e para a instrução na justiça” (2 Timóteo 3:16). Embora os livros das Escrituras tenham sido escritos por pessoas diferentes em épocas diferentes, seu verdadeiro autor é o Espírito Santo e, portanto, constituem a única palavra de Deus.

Mas há um nível teológico ainda mais elevado de compreensão. A Palavra de Deus não é apenas texto falado e escrito, mas também a Segunda Hipóstase da Santíssima Trindade, o próprio Filho de Deus, que é chamado de Verbo (Logos) no Evangelho (João 1:1): “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus”.

Assim, quando ouvimos as Sagradas Escrituras, ouvimos a voz do próprio Verbo e, por meio d´Ele, a voz de toda a Trindade: pois o Filho fala pela vontade do Pai e pelo poder do Espírito Santo. Nesse sentido, ouvir a palavra de Deus significa ouvir o próprio Deus, falando conosco pessoalmente.

E isso é, simultaneamente, motivo de grande temor, grande alegria e grande responsabilidade. Tudo depende de quem ouve e de seu estado espiritual. Para os pecadores impenitentes, a palavra de Deus é uma voz de condenação e, portanto, aterradora; para os justos, uma voz de bênção e, portanto, de alegria; para os pecadores arrependidos, é uma voz de condenação, bênção, aterradora e consoladora, dependendo se a pessoa direciona sua vida para o pecado ou para a justiça.

Não basta ouvir — é preciso praticar.

E aqui chegamos ao ponto mais importante. O Senhor não disse simplesmente: “Bem-aventurados os que ouvem a palavra de Deus”. Ele acrescentou: “e os que a praticam”. Por que isso é tão importante?

O apóstolo Tiago exorta: “Sejam praticantes da palavra e não apenas ouvintes, enganando-se a si mesmos” (Tiago 1:22). Conhecimento sem ação não é apenas inútil — pode ser prejudicial. Lembrem-se da Parábola dos dois filhos: um disse: “Eu vou”, mas não foi; o outro recusou, mas depois foi. Qual deles cumpriu a vontade do pai (cf. Mateus 21:28-31)? O mesmo se aplica à vida espiritual: “a fé sem obras é morta” (Tiago 2:26). Pode-se conhecer o Evangelho de cor, citar os Santos Padres, participar de debates teológicos — e ainda assim permanecer longe do Reino dos Céus em seu coração.

Além disso, o Senhor profere palavras duras:

“Aquele servo que conhecia a vontade do seu senhor e não se preparou nem a cumpriu, receberá muitos açoites; mas aquele que não a conhecia e praticou atos dignos de açoites, receberá poucos açoites” (Lucas 12:47-48).

Ou seja, alguém que ouviu a palavra de Deus (conhece a vontade de Deus), mas não a cumpre, é julgado com mais severidade do que alguém que não a conhecia nem a cumpriu.

No mundo, “a ignorância não exime nem diminui a responsabilidade”, mas “o juízo de Deus não é o juízo dos homens”. O Senhor todo-misericordioso e onisciente leva em consideração todas as circunstâncias atenuantes para a nossa salvação.

Ouvir nos é dado como um dom, mas esse dom requer nossa aceitação ativa. Caso contrário, o conhecimento se transforma de bênção em condenação.

Bem-aventurados os que obedecem a Deus

Assim, o mandamento de ouvir e obedecer à palavra de Deus é, em sua essência, um mandamento de obediência. No grego do Novo Testamento, a palavra ὑπακοή (“obediência”) vem do verbo ὑπακούω e é traduzida como “escuta atenta” e, em significado, “concordância”, “submissão” ou “aceitação”. Uma pessoa obediente é aquela que ouve e obedece ao que ouve. No Antigo Testamento, o Senhor chama o Seu povo: “Ouve, ó Israel” (Deuteronômio 6:4). Jesus Cristo nos dá o maior exemplo de obediência: “O Filho nada pode fazer de si mesmo, senão o que vir o Pai fazer” (João 5:19). E Ele mesmo “humilhou-se a si mesmo e foi obediente até a morte, e morte de cruz” (Filipenses 2:8).

Portanto, se quisermos expressar o significado desta bem-aventurança universal de forma sucinta e precisa, poderíamos dizer: “Bem-aventurados os que obedecem a Deus”. Essa obediência abrange a pobreza espiritual (pois os obedientes não confiam em seu próprio entendimento), o choro arrependido pelos pecados (pois pecado é desobediência), a mansidão, a verdade, a misericórdia, a pureza de coração, a pacificação e a disposição de sofrer pelo nome de Cristo. A obediência abarca e cobre tudo.

Acima do Jejum e da Oração

Nesse sentido, a tradição patrística chegou a desenvolver um aforismo que, à primeira vista, pode parecer paradoxal: “A obediência está acima do jejum e da oração”.

Essas palavras pertencem a um dos maiores santos russos, São Serafim de Sarov. Dirigindo-se às irmãs do Monastério de Diveyevo, que ele fundou, instruía-as constantemente: “A obediência é algo grandioso! A obediência está acima do jejum e da oração!”. E não apenas a elas, mas também ao diretor espiritual do monastério, o padre Vasily Sadovsky, legou: “A obediência, padre, está acima do jejum e da oração: lembre-se disso e sempre lhes diga”. Assim, esse dito curto e sucinto entrou para o uso da Igreja, tornando-se o testamento espiritual do próprio santo.

O que isso significa? Estaria o santo realmente defendendo o abandono da oração e do jejum? Claro que não. O próprio São Serafim foi um grande defensor da oração e do jejum. O significado aqui é outro e está diretamente relacionado ao nosso mandamento universal da Bem-aventurança. Primeiramente, como já dissemos, a obediência é ouvir e cumprir. Uma pessoa pode jejuar rigorosamente, manter longas rotinas de oração e, ainda assim, permanecer surda à vontade de Deus, fazendo tudo segundo a sua própria vontade e entendimento. Tal jejum e oração, desprovidos de obediência, podem facilmente se transformar de um meio de salvação em uma fonte de ilusão e orgulho. Portanto, os desobedientes jejuam e oram a Deus em vão. Afinal, a própria queda da humanidade ocorreu por meio da desobediência a Deus, e, portanto, o retorno a Ele reside na obediência.

Em segundo lugar, a obediência é o fundamento e o propósito do jejum e da oração, seu alfa e ômega. O jejum é necessário para humilhar a carne e torná-la obediente ao espírito. A oração é necessária para ouvir a Deus e alinhar nossa vontade à Sua. Mas se uma pessoa jejua e ora, mas se recusa a ouvir e cumprir o que Deus lhe revela, sua luta é vã. Ao contrário, uma pessoa que adquiriu a obediência não pode mais ser estranha nem à oração nem ao jejum. São Siluan, o Athonita, ensina: “Os obedientes possuem todas as virtudes: oração sincera, dada em troca de obediência, contrição e lágrimas.”

A obediência dá origem à humildade, e um coração humilde é o próprio coração puro capaz de verdadeira oração, o único coração agradável a Deus. Portanto, as palavras “a obediência está acima do jejum e da oração” não significam desprezo pelo feito, mas uma indicação de seu lugar na hierarquia espiritual das virtudes: o jejum e a oração são meios preciosos, mas a obediência é o objetivo ao qual conduzem e o fundamento sobre o qual somente podem ser salvíficos.

Conclusões Práticas

Portanto, a obediência é o cerne de todas as Bem-aventuranças. Mas como alcançamos essa obediência salvadora? O que devemos fazer?

Em resumo, devemos ouvir a Palavra de Deus para que a compreendamos e a coloquemos em prática ativamente em nossas vidas.

Isso significa, em primeiro lugar, amar a Palavra de Deus — lê-la e ouvi-la não ocasionalmente, mas diariamente, como o nosso pão de cada dia. Não devemos simplesmente folheá-la, cumprindo mecanicamente nossos deveres diários, mas sim mergulhar profundamente nela com a nossa mente, orar com o nosso coração e compará-la verdadeiramente com as nossas vidas. É útil memorizar passagens das Escrituras para que a Palavra de Deus esteja sempre conosco.

Em segundo lugar, devemos examinar as nossas vidas à luz da Palavra de Deus: estou realmente praticando o que aprendi nas Escrituras? Se sei que não devo condenar, condeno? Se sei que devo perdoar, perdoo? Se sei que devo me humilhar, não me orgulho? Devo ser honesto comigo mesmo e com Deus.

Em terceiro lugar, devo aprender a obedecer nas pequenas coisas — aos mais velhos da família, à hierarquia, aos regulamentos da igreja. Pois quem é desobediente nas pequenas coisas não será obediente nas grandes. Do pequeno ao grande, passo a passo — esse é o caminho da nossa ascensão virtuosa a Cristo.

Quando observarmos essas três condições em nossas vidas, então a bem-aventurança universal de Cristo, que transcende todas as alegrias terrenas, se cumprirá em nós: “Bem-aventurados os que ouvem a palavra de Deus e a praticam”.


Sacerdote Tarasius Borozenets
tradução de monja Rebeca (Pereira)

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Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

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