NÃO A PAZ, MAS UMA ESPADA: SOBRE O VERDADEIRO SIGNIFICADO DO BATISMO

Reflexões de um catequista

Uma atitude incorreta em relação ao Batismo

Durante as discussões catequéticas, frequentemente nos deparamos com uma concepção errônea sobre o Sacramento do Batismo e, consequentemente, sobre a Igreja, a fé e a vida cristã. Afinal, o Batismo é a semente da qual o Cristianismo de uma pessoa germina ou não.

Por que não germina? Porque as pessoas, tendo recebido a semente da graça batismal, não cooperam com ela. Por que não cooperam? Porque não querem. Por que não querem? Porque inicialmente se aproximam do Batismo com uma motivação falsa e não cristã.

Muitas pessoas esperam que o Batismo lhes proporcione ajuda e proteção; veem-no como uma garantia de segurança e bem-estar, ou como um meio de pertencer à sua família, ao seu povo, ou ambos. “Agora estou batizado, assim como a maioria das pessoas ao meu redor.” Esse pensamento traz uma sensação de bem-estar. Aqui, o Batismo é um meio de organizar a vida terrena, completamente desprovido de seu propósito celestial e salvífico.

Ao se aproximarem do Batismo, muitas pessoas nem sequer pensam em salvação do pecado, da decadência, da morte ou da escravidão ao demônio. O Batismo não está associado a nada disso em suas mentes. Elas vêm para serem batizadas porque querem ser batizadas como seus pais, seus avós, seus ancestrais. O Batismo, aqui, é uma homenagem à memória de seus antepassados. “Eles eram ortodoxos, e eu também devo ser ortodoxo”, pensam. Quando se pergunta: “O que significa ser ortodoxo?”, a resposta é: “Ser batizado na Igreja Ortodoxa”. O círculo se completa. Isso é mais do que suficiente para elas. Qualquer outra ação para o aprimoramento pessoal ou espiritual simplesmente não é considerada.

Portanto, no início da primeira conversa, o catequista deve identificar a verdadeira motivação daqueles que estão sendo catequizados, para que possa então se esforçar para revelar-lhes o verdadeiro significado do Batismo, seu propósito e a extensão da responsabilidade que o batizando e os padrinhos assumem.

O perigo de uma abordagem pagã

Se o Batismo for visto como um meio de produzir cristãos prontos, então tudo começa e termina com ele. Depois do Batismo, a pessoa pode se autodenominar cristã batizada e não fazer mais nada. Essas pessoas são como um recém-nascido que parou de se desenvolver e crescer porque decidiu que nascer é suficiente para se tornar uma pessoa plenamente formada. Mas o Batismo é um nascimento espiritual que implica em crescimento espiritual contínuo.

Como crianças recém-nascidas, desejem o leite puro da palavra, para que por meio dele cresçam para a salvação (1 Pedro 2:2).

Ou são como um soldado que fez um juramento e abandonou o campo de batalha. Na Terra, isso se chama deserção e é punido severamente. No Batismo, a pessoa faz um juramento de fidelidade a Cristo e se torna Seu guerreiro na batalha espiritual. Se, depois de fazer o juramento, ela se esquiva de cumprir os mandamentos de Deus, torna-se uma traidora de Cristo, arriscando não apenas sua vida terrena, mas também sua vida eterna.

Ninguém que põe a mão no arado e olha para trás é apto para o Reino de Deus. (Lucas 9:62)

O verdadeiro significado: união com Cristo

O Batismo é o Sacramento de entrada na Igreja como comunidade de discípulos e seguidores de Cristo. Neste Sacramento, a pessoa renuncia voluntariamente ao mal, a Satanás e a todas as suas obras, e faz um juramento de fidelidade a Cristo, aceitando a fé n´Ele como seu Senhor, Salvador e Mestre.

“Se confessares com a sua boca que Jesus é o Senhor e crer em seu coração que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo.” (Romanos 10:9).

Em resposta a isso, a Igreja o batiza em Nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo e o unge com o Crisma, purificando-o da impureza do pecado, concedendo-lhe uma nova vida espiritual, eterna e cheia de graça, e tornando-o cristão. Mas aqui é importante compreender o essencial: no Batismo, a pessoa não recebe simplesmente um conjunto de benefícios ou se torna membro de uma organização religiosa — ela se une pessoal e experiencialmente ao próprio Cristo. O apóstolo Paulo fala sobre isso com a máxima clareza:

“Estou crucificado com Cristo; e já não vivo eu, mas Cristo vive em mim” (Gálatas 2:20).

O Batismo é um encontro, não uma negociação.

Não um ritual, não um ato mágico, mas um encontro entre uma pessoa viva e o Deus vivo. Portanto, é impossível tratá-lo de maneira consumista, segundo o princípio pagão: “Você me dá, eu te dou”. Um pagão dirige-se ao seu ídolo com um pedido claro e pragmático: faço um sacrifício, obtenho uma colheita; realizo um ritual, ganho proteção. Mas tal barganha é impossível com Cristo. Se a atitude for consumista, o encontro não acontecerá e o Batismo não atingirá o seu propósito. A graça que será comunicada por meio dEle não será acolhida no coração da pessoa, porque este já está ocupado por falsas expectativas e sentimentos alheios a Cristo — a própria atitude pagã que transforma o Sacramento em magia.

O Batismo não é realizado para que a pessoa tenha tudo “correndo bem para ela” no sentido mundano mais tarde. É um rito sagrado para que, juntamente com Cristo, dotado da Sua graça e utilizando todos os meios salvíficos da Igreja, possa tomar e carregar a sua cruz, vencendo as tentações e cumprindo os mandamentos.

Não sabeis vós que todos quantos fomos batizados em Jesus Cristo fomos batizados na sua morte? Portanto, fomos sepultados com Ele pelo Batismo na morte, para que, assim como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pela glória do Pai, assim também nós vivamos uma vida nova. (Romanos 6:3-4).

Vida em Cristo: o Caminho da Crucificação e da Ressurreição

A vida de uma pessoa é um caminho de carregar a sua cruz, seguindo o Cristo crucificado com a sua própria cruz ao longo do caminho que Ele já percorreu — até o Gólgota e até a Ressurreição.

“Se alguém quiser vir após Mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me.” (Marcos 8:34).

Não há necessidade de alimentar ilusões sobre o Batismo entre pessoas mundanas e não frequentadoras de igrejas. Precisamos explicar-lhes que suas expectativas mundanas a respeito do Batismo são falsas e abrir seus olhos para a verdadeira situação. O Batismo não livra do sofrimento. Ele dá a força para superá-lo, para perseverar à imagem e semelhança de Cristo.

É necessário que, por meio de muitas tribulações, entremos no Reino de Deus (Atos 14:22).

Somos batizados para entrar na Igreja, na comunidade de discípulos fiéis, e para segui-Lo juntos: primeiro até o Gólgota, depois até a Ressurreição e Ascensão. Para buscar, antes de tudo, o Reino de Deus, deixando de lado as coisas boas deste mundo vão, que se encontra no mal.

Mas buscai primeiro o Reino de Deus e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas (Mateus 6:33).

Assim, o Sacramento do Batismo não é um rito mágico de “proteção” nem um ato formal de inscrição na “comunidade dos batizados”. É a morte do velho homem e o nascimento do novo; é entrar em batalha sob a bandeira de Cristo, o que exige da pessoa uma luta de fé e fidelidade até o fim. Como diz o Apóstolo Paulo: “Porque fostes comprados por um preço” (1 Coríntios 6:20), e esse preço é o Sangue de Cristo, que nos obriga a uma vida ativa e sacrificial n´Ele.


Sacerdote Tarásio Borozenets
tradução de monja Rebeca (Pereira)

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Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

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