SE, POIS, O TEU OLHO FOR SIMPLES – PARTE I

SOBRE O JULGAMENTO E O OLHO SIMPLES

Toda a Lei e os Profetas podem ser resumidos no mandamento de amar a Deus e ao próximo (Mt 22,40). Deus desce do Céu e identifica-Se com o nosso próximo. Ele chama a Si mesmo de “prisioneiro”, “enfermo”, “estrangeiro”, “faminto” e “nu”, e diz que, sempre que visitamos um prisioneiro, um enfermo ou um mendigo, visitamos a Ele (Mt 25,35–40). No próximo, encontramos ou a salvação ou a perdição. É por isso que o encontro com o próximo — isto é, os desafios que dele provêm — é como uma luta com um anjo (cf. Gn 32,24–30), da qual saímos ou tendo contemplado a Deus, como Jacó, ou amaldiçoados, como Caim (cf. Gn 4,11–12).

Se, portanto, o teu olho for simples, todo o teu corpo será cheio de luz (Mt 6,22). Cristo nos diz que nosso corpo pode ser luminoso. Essa luz é introduzida pelo nosso olho, mas apenas se ele for “simples” [ou “puro”]. Um olho puro é aquele que está livre de inveja e condenação.

Na Parábola dos trabalhadores, um dos contratados fica descontente pelo fato de o patrão ter pago ao homem que chegou apenas na undécima hora a mesma quantia que a ele. O patrão respondeu: É mau o teu olho porque eu sou bom? (Mt 20,15). Um olho invejoso turva-se ao contemplar a bondade. O descontentamento e a ira são as trevas que inundam todo o corpo, tornando-o morada e instrumento de todo tipo de maldade.

Por isso, Cristo enfatiza que a malícia deve ser detida no nível do olho, para que não penetre no corpo e não incite o coração à condenação e à ira. A luz do corpo é o olho (Mt 6,22). Se, portanto, a luz que há em ti são trevas, quão grandes serão essas trevas! (Mt 6,23). Se o que vês fora de ti parece distorcido à primeira vista, isso significa que te equivocaste por inveja e julgamento precipitado; quão mais tenebroso, então, será o teu corpo, no qual pensamentos malignos se endureceram ao longo de toda a tua vida?

Um olhar puro — um olhar purificado da inveja — ilumina o coração e todos os membros do corpo, tornando-os participantes da visão da misericórdia de Deus, de tal modo que todo o seu ser se transforma em visão.

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Não julgar é o sinal supremo do cristão, o selo do amor e da misericórdia. Não julgar — ou não condenar — separa-nos daqueles que atiram pedras e coloca-nos à direita do Filho (Jo 8,7). Não existe um único caso em que sejamos chamados a julgar alguém. Todo julgamento foi realizado pelo Filho, de uma vez por todas, e encontra-se nas Escrituras (Jo 5,22).

O próprio Cristo nos exorta e nos ordena a não julgar ninguém (Mt 7,1). Esse Mandamento não é simplesmente uma regra de comportamento; é uma condição fundamental para a salvação. Seremos julgados da mesma forma que julgamos os outros (Mt 7,2). Tudo o que dissermos em tom de condenação, toda expressão de espanto — como “Como ele pôde fazer tal coisa?” —, nós mesmos ouviremos sendo dirigida a nós no dia do Juízo: “Pelas tuas palavras serás justificado, e pelas tuas palavras serás condenado” (Mt 12,37; cf. Lc 19,22).

Não, as pessoas não piorarão se deixarmos de julgá-las. Os mandamentos de Cristo não são como os imperativos abstratos de Kant. Cristo sabe que as pessoas não mudarão, que o mal se multiplica a cada dia; portanto, Seus Mandamentos não são dados para mudar o mundo e torná-lo melhor (cf. Jo 1,10; 7,7; Mc 8,36). Seus Mandamentos são dados àqueles que estão sendo salvos (cf. Jo 9,39). “Um novo Mandamento vos dou” (Jo 13,34). A vós, não ao mundo. Exige-se de nós que não julguemos nem condenemos, pois isso é o início do assassinato (Mt 5,21-22). Se a lei o obrigasse a apedrejar um pecador (cf. Jo 8,5), então a sua condenação não seria mais mera calúnia, mas o ato de um assassino. A não condenação é o ato supremo de misericórdia, pois, quando imploramos misericórdia a Deus, na verdade estamos suplicando que Ele não nos condene. Não tenhamos medo de ser misericordiosos — isso não é fraqueza, mas um ato salvífico que nos torna semelhantes a Deus e constitui o caminho mais curto e seguro para a salvação.

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O que significa “julgar” e quando o julgamento é pecado? Qualquer observação negativa pode suscitar a repreensão: “Quem é você para julgar?” Isso é justo, pois o julgamento pertence a Cristo; e quem julga o outro comete o pecado do Anticristo, ao colocar-se no lugar de Cristo.

Cristo nos diz que todo homem será condenado ou justificado por suas próprias palavras (Mt 12,37). Assim, o único julgamento que ainda ocorre na Terra é o julgamento das palavras. Ou seja, no momento em que alguém profere uma palavra distorcida, já sabemos que essa palavra é, precisamente, a sua própria sentença, selada pelo próprio Cristo.

Cristo perdoou todos os pecados. Ele perdoou a mulher pelo seu adultério, os cobradores de impostos pela sua extorsão e o assassino pelo seu crime, mas não perdoa a blasfêmia verbal contra o Espírito Santo. Toda palavra contrária à verdade é uma blasfêmia contra o Espírito Santo, pois o Espírito Santo é o Espírito da Verdade. É por isso que os Santos Padres condenavam severamente as heresias, enquanto para todos os outros pecados prescreviam um caminho de arrependimento, estando autorizados a fazê-lo por Cristo.

Seguindo os ensinamentos de Cristo, nós também perdoamos e nos abstemos de condenar os pecados alheios, mas confessamos firmemente que ninguém pode ser justo se as suas palavras são distorcidas, e ninguém pode ser bom se as suas palavras são más. Pois todo homem é julgado pelas suas próprias palavras — um princípio mantido até mesmo nos tribunais humanos, onde o primeiro direito é o direito de permanecer em silêncio.

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Cristo é severo, mas isso não contradiz a Sua mansidão. Cristo é manso e humilde de coração (Mt 11,29), mas isso não significa que alguém possa alterar sequer um iota das Suas palavras (Mt 5,18).

Tudo o que se diz sobre o inferno, sobre o castigo eterno dos pecadores e dos obstinados, é verdade — mas isso não contradiz o amor de Deus; pelo contrário, prova-o e confirma-o.

Na Grande e Santa Segunda-Feira, a Igreja reflete sobre o milagre do secamento da figueira, amaldiçoada por Cristo por não dar frutos: De manhã, ao voltar para a cidade, teve fome. E, vendo uma figueira à beira do caminho, aproximou-se dela e não encontrou nela nada além de folhas; e disse-lhe: “Nunca mais nasça fruto de ti, para sempre”. E imediatamente a figueira secou (Mt 21,18-19).

O episódio da figueira não é um caso isolado; insere-se numa longa série de castigos divinos que compõem os significados mais profundos das Escrituras. A maldição da figueira ocorre justamente quando Cristo Se dirige ao Templo, onde Ele estava prestes a açoitar os mercadores e a lançar as suas mercadorias sobre os degraus, à vista de todos.

Com a parábola da figueira, Cristo mostrou o que as pessoas devem fazer e o que Ele próprio certamente fará se elas não produzirem frutos eternos; mas, por enquanto, Ele ainda lhes dá mais uma oportunidade de arrependimento. Ele vira as mesas, mas não castiga as pessoas. Ele castiga a árvore para que as pessoas possam compreender como é o amor de Deus!

São João Batista utiliza a mesma metáfora ao convocar ao arrependimento: “E já está posto o machado à raiz das árvores; toda árvore, pois, que não produz bom fruto é cortada e lançada no fogo” (Mt 3,10). E, sobre Cristo, São João diz: “A sua pá ele tem na mão, e limpará a sua eira, e recolherá o seu trigo no celeiro, mas queimará a palha com fogo que nunca se apaga” (Mt 3,12).

Hoje é uma ocasião de reflexão para todos aqueles que inventaram para si mesmos uma espécie de Cristo “ursinho de pelúcia”, um camarada conivente com sua própria negligência — todos aqueles que imaginaram que o Senhor do céu e da terra é apenas um slogan de camiseta e que Ele não estragará o humor deles no dia do juízo. Esse espírito de zombaria penetrou tão profundamente na Igreja que ouvimos cada vez mais a teoria favorita do Cristo “amigo”, esquecendo-nos de que Cristo também chamou Judas de amigo, mas isso não ajudou este último quando sua mente se obscureceu.

O espírito de superficialidade é a porta de entrada para a blasfêmia e para a perda completa do temor e do amor a Deus. A alegria da graça, com a qual Cristo nos consola nos momentos de arrependimento, não deve transformar-se em frivolidade em nós, mas sim estabelecer-nos no temor de Deus, que é o princípio da sabedoria (Pv 1,7).

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Nada pode erradicar melhor uma afirmação falsa do que um argumento que prove sua falta de fundamento. A história das controvérsias cristãs confirma que os detratores de nossa fé estão iludidos. O Evangelho não censura o boato falso espalhado pelos judeus de que o corpo de Cristo fora roubado pelos discípulos durante a noite (cf. Mt 28,13), mas o registra para fortalecer nossa fé na Ressurreição.

É por isso que quem afirma querer promover a verdade não censura nem oculta os ensinamentos dos blasfemadores, mas os contrapõe com evidências que tornam a sua fé ainda mais convincente.

Não há espetáculo mais triste do que a corrupção da mente humana, o que equivale à perda da imagem. A imagem de Deus em nós é a sabedoria, assim como o obscurecimento da mente é a perda dessa imagem. Se Deus criou tudo como sendo extremamente bom (Gn 1,31), então somos semelhantes a Ele quando praticamos o bem conscientemente. Se iluminar alguém é o maior bem, então corromper a mente de alguém é o maior mal existente no mundo atual, sob formas cada vez mais organizadas. A saúde da mente é comprovada pelo Evangelho.


Hieromonge Savati (Bastovoi)
tradução de monja Rebeca (Pereira)

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Aurora Ortodoxia

Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

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