SOBRE A PATERNIDADE ESPIRITUAL E A RELAÇÃO ENTRE PAI ESPIRITUAL E FILHO ESPIRITUAL

A questão da paternidade espiritual é uma das mais perenes e, ao mesmo tempo, uma das mais difíceis na vida da Igreja. O que é espiritualidade? Quem é um pai espiritual? Quais são os limites de sua autoridade e responsabilidade? Onde está a fronteira entre uma orientação espiritual genuína e uma intrusão destrutiva no mistério da alma humana? Essas questões se apresentam a todo cristão que busca um guia espiritual, e a todo sacerdote a quem recorrem pessoas pedindo que ele se torne seu pai espiritual.

O Metropolita Anthony de Sourozh, que refletiu sobre a paternidade espiritual ao longo de muitas décadas, oferece uma compreensão profunda e sóbria do tema, fundamentada na experiência dos Santos Padres e em seu próprio ministério pastoral. Suas palavras dirigem-se a todos — tanto aos leigos que buscam orientação quanto aos sacerdotes que, muitas vezes por inexperiência ou imaturidade espiritual, assumem um papel para o qual não foram chamados. O Metropolita Anthony não apresenta fórmulas prontas, mas aponta para a própria essência da paternidade espiritual: escutar, com reverência, a ação do Espírito Santo em uma pessoa e reconhecer, com humildade, que o pai espiritual é apenas uma testemunha e um companheiro, não um mestre ou um juiz.

O Metropolita Anthony enfatiza a necessidade de distinguir três níveis de orientação espiritual: o sacerdote paroquial, que celebra os Sacramentos; o pai espiritual, capaz de oferecer conselhos extraídos de sua própria experiência; e o Ancião (*starets*) — uma figura carismática cujos dons espirituais são concedidos pela graça e não podem ser adquiridos por meio de qualquer esforço. Não se pode simplesmente “tornar-se” um Ancião, nem aprender a sê-lo, assim como não se pode aprender a ser um gênio. Os Anciãos são pessoas que foram tocadas pela graça do Espírito Santo e responderam a ela.

Um jovem sacerdote que se imagina um Ancião apenas em virtude de sua ordenação torna-se o que chamamos de *mladostarets* — um “jovem ancião” autoproclamado —, um fenômeno destrutivo para as almas confiadas aos seus cuidados. A ordenação não confere a um homem inteligência, erudição, experiência ou maturidade espiritual. Ela lhe concede o privilégio imenso de estar diante do altar de Deus, onde apenas Cristo tem o direito de estar.

Um sacerdote é um ícone, mas ele só se torna um ícone no sentido pleno quando, pela graça do Espírito Santo, a Luz de Cristo resplandece através dele — quando as pessoas, ao olharem para ele, já não veem o sacerdote em si, mas veem Cristo por meio dele.

A espiritualidade não consiste em nossos exercícios de oração ou esforços ascéticos, mas na obra do Espírito Santo dentro de nós. Nesse sentido, a tarefa de um pai espiritual não é “educar” uma pessoa segundo padrões preconcebidos, nem treiná-la para se conformar a um modelo que pareça correto, mas sim discernir atentamente o que Deus está realizando naquela pessoa e proteger essa obra divina contra tentações e quedas. Um pai espiritual é chamado a ver, em cada pessoa, a imagem de Deus — que jamais pode ser retirada, mesmo quando foi desfigurada pelo pecado — e a permanecer em reverência diante dessa beleza, ajudando a remover tudo o que desfigura a imagem divina.

Assim como um jardineiro precisa compreender a natureza do solo e da planta para ajudá-la a se desenvolver conforme a sua própria natureza, o pai espiritual deve discernir as qualidades únicas e inimitáveis ​​de cada pessoa, permitindo que ela se torne verdadeiramente si mesma, em vez de uma réplica de seu mentor ou uma reprodução de um padrão predeterminado. Um exemplo disso é a relação entre os santos Antonio e Teodósio das Cavernas de Kiev. Teodósio foi formado sob a orientação de Antonio; contudo, seus modos de vida eram inteiramente distintos: Antonio era um eremita, enquanto Teodósio tornou-se o fundador da vida monástica comunitária. Um pai espiritual deve saber distinguir entre o desejo de tornar alguém semelhante a si mesmo e o desejo de torná-lo semelhante a Cristo.

A obediência, na compreensão ortodoxa, é, acima de tudo, uma questão de “escutar” com todas as faculdades da alma, e não uma submissão cega. Ela exige humildade de ambas as partes: o discípulo escuta atentamente as palavras de seu guia espiritual, o tom de sua voz e cada manifestação de sua personalidade, esforçando-se, por meio desse encontro, para transcender a si mesmo. O pai espiritual, por sua vez, deve escutar — com toda a sua experiência e oração — aquilo que o Espírito Santo está realizando na pessoa que se confiou aos seus cuidados.

Todo ser humano é, potencialmente, uma “sarça ardente”; e um pai espiritual só pode pisar nesse solo sagrado após “tirar as sandálias”, aproximando-se com reverência e temor — tal como o publicano que, no limiar do Templo, não ousa entrar, a menos que o próprio Deus lho ordene.

A humildade é um estado de reconciliação com a vontade de Deus, de abertura diante d’Ele e de prontidão para acolher tudo como um dom divino. É como um solo fértil que permanece em silêncio, aberto e vulnerável sob o céu, recebendo o calor abrasador, a chuva e o sustento que lhe chegam, para, então, dar frutos.

O pai espiritual não é um juiz, mas uma testemunha — o “amigo do Esposo” —, que permanece diante do mistério do encontro de uma pessoa arrependida com Deus, contemplando, com reverência, esse milagre. Se até mesmo o sacerdote menos experiente se aproximasse da Confissão com esse espírito, ele já seria um verdadeiro celebrante do Mistério.

Uma das principais tarefas de um pai espiritual é nutrir uma pessoa na liberdade espiritual — na “liberdade real dos filhos de Deus” —, de modo que ela não permaneça espiritualmente imatura por toda a vida, recorrendo constantemente ao seu pai espiritual por qualquer questão trivial, mas que cresça a ponto de aprender, por si mesma, a ouvir o que o Espírito Santo diz em seu coração.

O Metropolita Anthony adverte enfaticamente contra a coerção na vida espiritual. Nunca se deve impor o monaquismo ou o matrimônio a outra pessoa, romper relacionamentos existentes ou interferir em decisões que alguém deve tomar livremente. Se alguém não sabe se deve abraçar o monaquismo ou casar-se, isso significa que não está preparado para nenhum dos dois; que ainda não amadureceu o suficiente para qualquer uma dessas vocações. Um sacerdote que apresenta um ultimato, dizendo: “Encontre uma noiva e case-se dentro de uma semana, porque preciso que você se torne padre”, está cometendo uma falta grave.

Um pai espiritual deve ser capaz de dizer “não sei” — tal como fez Santo Ambrósio de Optina, que, ao não receber uma resposta da Mãe de Deus, recusou-se a responder àqueles que o procuravam com perguntas.

A verdadeira paternidade espiritual não se baseia em autoridade e controle, mas em compaixão, companheirismo e serviço reverente ao mistério do encontro entre Deus e o ser humano. Pois Deus não busca escravos para Si, mas filhos, irmãos e irmãs.

O Metropolita Anthony dirige uma advertência solene aos sacerdotes: “Cuidado, meus irmãos, meus colegas sacerdotes! Cuidado para não assumirem um papel que não corresponda à sua maturidade espiritual. Sejam simples! Sejam simplesmente sacerdotes — isso, por si só, já é algo grandioso!”

Ser alguém que, pela graça do Espírito Santo, pode celebrar a Divina Liturgia, batizar uma criança e ungir com o Santo Crisma não é pouca coisa. É algo tão grandioso que não requer pretensões adicionais ao status de um “ancião” ou guia espiritual.

A humildade de um sacerdote começa quando ele contempla o que acontece entre Deus e o homem e percebe que não tem participação na realização disso, que não pode fazer com que isso ocorra, e que lhe foi concedido, tão somente, o privilégio de permanecer em admiração, tremor e reverência diante desse milagre.

O culto à personalidade, que frequentemente se desenvolve em torno de pais espirituais experientes, deve ser erradicado, antes de tudo, pelo próprio sacerdote — o qual deve lembrar-se constantemente de que ele nada é, a menos que seja guiado pela graça de Deus.

A Igreja é estruturada como uma pirâmide invertida, apoiada sobre a própria ponta de seu vértice. Quanto mais uma pessoa se aproxima de Deus, mais ela deve descer, cada vez mais fundo. E, por fim, exatamente nesse ponto da pirâmide invertida, encontra-se o próprio Cristo, sobre quem tudo se sustenta.

A paternidade espiritual torna-se, assim, parte da vida espiritual e do crescimento em santidade aos quais cada um de nós é chamado — um caminho no qual todo pai espiritual deve ajudar seus filhos espirituais a avançar.


Sacerdote Anthony Rusakevich
tradução de monja Rebeca (Pereira)

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Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

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