PELA VIDA DO MUNDO – PARTE 3C: O TEMPO DA MISSÃO

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Depois da semana e do ano – o dia: a unidade de tempo mais imediata e direta. É aqui, na realidade da vida cotidiana, que a teologia do tempo, expressa na experiência do Domingo e da Páscoa, deve encontrar sua aplicação. Estamos cientes, é claro, que o ciclo diário dos Ofícios, há tempos abandonado, não tem muito como ser restaurado. Mas o que precisa ser restaurado, ou antes redescoberto, é a relação da Igreja com o cristão individual no tempo do dia, a relação que era (e que teoricamente ainda é) o tema e o conteúdo dos Ofícios diários. Pois esse não eram “pausas para oração”, períodos de refresco espiritual e paz da mente, mas consistiam de fato em atos litúrgicos, ou seja, em atos realizados em benefício de toda a comunidade, como uma parte essencial da missão redentora da Igreja.

Contrariamente à nossa experiência secular do tempo, o dia litúrgico começa nas Vésperas, ou seja, no entardecer. Trata-se, é claro, de uma reminiscência da frase bíblica: “Fez o entardecer e o amanhecer, e foi o primeiro dia[5]”. Mas isso é mais do que uma reminiscência. Na verdade, é o fim de cada “unidade” do tempo quem revela seu padrão e seu significado, que lhe empresta sua realidade. O tempo sempre consiste em crescimento, mas somente no final podemos discernir a direção desse crescimento e ver seus frutos. É no final, e não no começo de cada dia que Deus viu que Sua criação era boa; foi no final da criação que Ele a entregou ao homem, e assim, é no final do dia que a Igreja inicia a liturgia da santificação do tempo.

Chegamos à Igreja, nós que estávamos no mundo tendo vivido muitas horas cheias, como de hábito, com trabalho e descanso, sofrimento e alegria, amor e ódio. Homens morreram e homens nasceram. Para alguns foi o dia mais feliz de suas vidas, um dia para ser lembrado para sempre. Para outros significou o fim de suas esperanças, a destruição de suas amas.  O dia todo está aqui agora – único, irreversível, irreparável. Ele se foi, mas seus resultados, seus frutos irão conformar o novo dia, pois o que fizemos permanece para sempre.

Mas o serviço de Vésperas não começa com um “diálogo” religioso do dia, como uma prece acrescentada a toda a demais experiência. Ela começa como o início, e isso implica uma “redescoberta”, em adoração e agradecimento, do mundo como criação de Deus. A Igreja nos leva como que ao primeiro crepúsculo no qual o homem, chamado por Deus à vida, abriu seus olhos e viu aquilo que Deus, em Seu amor, lhe havia dado, viu toda a beleza, toda a glória do templo no qual ele se encontrava, e deu graças a Deus. E nessa ação de graças ele se tornou ele mesmo.

Bendiz, o minh’alma o Senhor, bendiz ao Senhor…

Ó Senhor, quão maravilhosas são as tuas obras, a tudo fizeste com sabedoria.

A terra está cheia de Teus benefícios.

Cantarei ao Senhor por toda vida,

Cantarei ao Senhor enquanto eu existir[6].

Assim deve ser. Deve haver alguém nesse mundo – que rejeitou a Deus, e que, nessa rejeição, nessa blasfêmia, se tornou caos e escuridão – deve haver alguém que permaneça no seu centro, que distinga, que o veja outra vez como cheio de divinas riquezas, como uma taça cheia de vida e alegria, como beleza e sabedoria, e que agradeça a Deus por isso. Esse “alguém” é Cristo, o novo Adão, que restaura essa “vida eucarística”, que eu, o velho Adão, rejeitei e perdi; ele que me torna mais uma vez o que sou, e restaura o mundo em mim. E a Igreja está em Cristo, sua ação inicial é sempre uma ação de graças, o retorno do mundo a Deus.

Através do contraste com a beleza e a maravilha da criação, descobre-se, por outro lado, a escuridão e a falência do mundo, e esse é o segundo grande tema das Vésperas. Se o que diz o Salmo 104 é verdade, o mundo, tal como o conhecemos, é – por contraste – um pesadelo. Pelo fato de que primeiro vimos a beleza do mundo, podemos agora ver sua feiura, perceber o que perdemos, o modo como toda a nossa vida (e não um ou outro “deslize”) se tornou pecado, e podemos nos arrepender disso. Agora as luzes estão apagadas. As “portas reais” do santuário estão fechadas. O Celebrante despiu suas vestimentas; esse é o homem nu e sofredor que clama do lado de fora do Paraíso, em plena consciência de seu exílio, de sua traição, de suas trevas, e ele diz ao Senhor: “Das profundezas eu clamo a Ti, Senhor!”. Diante da glória da criação deve haver uma enorme tristeza. Deus nos deu um novo dia, e podemos dizer o quanto destruímos esse dom que nos foi dado. Nós não somos cristãos “bonzinhos” separados do resto do mundo mau. Se não nos vemos precisamente como representantes desse mundo, como o próprio mundo, se não carregamos seu peso todo nesse dia, nossa “piedade” pode até ser pia, mas não é cristã.

Agora se inicia o terceiro tema das Vésperas: a redenção. A luz chega a esse mundo de pecado e escuridão: “Ó luz solene da santa glória do Pai, imortal, celestial, santo e bendito Jesus Cristo”. O mundo se encontra no entardecer, porque chegou o Único, que dá sentido a tudo; nas trevas desse mundo, a luz de Cristo revela mais uma vez a verdadeira natureza de todas as coisas. Não é o mesmo mundo de antes da vinda de Cristo: Sua vinda agora pertence ao mundo. O acontecimento definitivo do cosmos aconteceu.  Sabemos agora que o advento de Cristo deve transformar tudo o que se relaciona com nossas vidas. É por Sua causa que nosso coração glorifica a criação no início das Vésperas, apenas por ter Ele nos dado olhos para “contemplar a beleza das mãos de Deus em todas as Suas obras”. Agora que chegou o tempo de agradecer a Deus por Cristo, começamos entender que tudo se transformou, em Cristo, no seu verdadeiro esplendor. Na irradiação de Sua luz o mundo deixa de ser um lugar comum. O próprio chão sobre o qual estamos é um milagre de átomos esvoaçando no espaço. A escuridão do pecado é iluminada e seu peso é assumido. A morte perde sua finalidade, esmagada pela morte de Cristo. Num mundo no qual tudo o que parece ser presente se torna imediatamente passado, tudo o que está em Cristo se torna capaz de participar do eterno presente de Deus. Esse entardecer é o verdadeiro tempo de nossa vida.

E então chegamos ao último tema das Vésperas: o tema do fim. Ele é anunciado quando cantamos o hino do Ancião Simeão (Nunc Dimittis). Os versos são atribuídos no Evangelho ao Ancião Simeão, que passou sua vida na expectativa constante do Messias prometido, porque ele teve uma visão na qual ele não morreria antes de vê-Lo. Quando Maria e José levam o menino Jesus para ser apresentado a Deus no templo, ele estava lá e O recebeu em suas mãos, e o Evangelho recorda suas palavras:

Agora, Senhor, podes deixar Teu servo ir em paz, segundo a Tua palavra, porque meus olhos viram a Salvação que preparastes ante todos os povos, luz para iluminar as nações e glória de Israel Teu povo.

Simeão esperara toda sua vida, e finalmente o Menino Cristo foi-lhe entregue: ele segurou a Vida do mundo em suas mãos. Ali ele permaneceu por todo o mundo em sua expectativa e espera, e as palavras que ele utilizou para expressar seu agradecimento se tornaram as nossas. Ele pôde reconhecer o Senhor, porque estava esperando por Ele; ele O tomou em suas mãos porque era natural receber alguém amado em seus braços; e assim toda sua vida de espera se completou. Ele contemplou Aquele por quem aguardara tanto tempo. Ele realizou sua proposta de vida, e estava pronto para morrer.

Mas a morte para ele não representou uma catástrofe. Foi apenas a expressão natural da completação de sua espera. Ele não estava fechando seus olhos para a luz que veria pela última vez: sua morte era apenas o começo de uma visão interior dessa mesma luz. Do mesmo modo, as Vésperas constituem o reconhecimento de que o crepúsculo desse mundo se torna o anúncio do dia que não conhece ocaso. Neste mundo, todo dia termina na noite; o próprio mundo está diante da noite, pois ele não pode durar para sempre. Mas a Igreja segue afirmando que esse entardecer não é apenas um fim, mas também um começo, assim como cada entardecer é também o início de um novo dia. Em Cristo e por Cristo ele pode se tornar o começo de uma nova vida, do dia que não conhece ocaso. Pois nossos olhos viram a salvação e a luz que jamais se apaga. E por isso, o tempo desse mundo está prenhe de vida nova. Chegamos à presença de Cristo para oferecer a Ele nosso tempo, estendemos nossos braços para recebê-Lo. E Ele preenche esse tempo Consigo mesmo, Ele o cura e o transforma – uma e outra vez – no tempo de salvação.

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“Houve um entardecer e um amanhecer…”. quando despertamos, a primeira sensação é sempre a da noite, não da iluminação; estamos enfraquecidos, desprotegido. É como se fosse a primeira experiência real de vida de um homem retirado do calor familiar, em todo seu absurdo e toda sua solidão. A cada manhã descobrimos a inércia da vida em toda sua amorfa escuridão. Assim é que o primeiro tema das Matinas é, mais uma vez, a chegada da luz na escuridão. Ela não começa como as Vésperas, com a criação, mas com a queda. Mas nessa desesperança reside uma expectativa oculta, uma sede e uma fome. E nesse cenário a Igreja proclama sua alegria, não só contra a semente desse mundo, mas com sua realização plena. A cada manhã a Igreja anuncia que Deus é o Senhor, e ela começa a organizar a vida em torno de Deus.

Na igreja, as primeiras luzes das Matinas são velas, como uma “antecipação” do sol. Então o próprio sol se levanta, dispersando as trevas do mundo, e a Igreja vê nisso o raiar da verdadeira Luz do mundo, o Filho de Deus. Sabemos que nosso Redentor vive, e que no meio do absurdo da vida Ele novamente Se revelará a nós. Embora os azares da vida nos “tirem do ritmo”, a cada manhã podemos aclamar com o nascer do sol a vinda do longamente esperado Messias. Apesar de tudo, “esse é o dia que o Senhor preparou – e nele nos regozijamos e nos alegramos. Bendito o que vem em Nome do Senhor”.

Na medida em que cresce a luz, o Ofício se refere à nova manhã de um novo tempo. Assim como as Vésperas se referem ao crepúsculo de toda a experiência cristã do mundo como um “ocaso”, também as Matinas se referem à manhã como sendo a “alvorada” da experiência cristã da Igreja, como um início.

Essas duas dimensões complementares e absolutamente essenciais do tempo moldam nossa vida no tempo e, dando sentido ao tempo, o transformam e tempo cristão. Essa dupla experiência é, de fato, aplicada a tudo o que fazemos. Estamos sempre entre a manhã e a tarde, entre Domingo e Domingo, entre Páscoa e Páscoa, entre as duas vindas de Cristo. A experiência do tempo como um fim dá uma importância absoluta a seja o que for que fazemos agora, e torna isso final, decisivo. A experiência do tempo como começo enche todo nosso tempo de alegria, por acrescentar a ele o “coeficiente” de eternidade: “Eu não morrerei, mas viverei e proclamarei as obras do Senhor”. Estamos a trabalho no mundo, e esse trabalho – em verdade, qualquer trabalho – é analisado em termos do mundo em si, e se torna sem significado, fútil, irrelevante. E a cada entardecer existe a corrida das mesmas pessoas, sujas e cansadas, voltando na direção oposta. Mas há muito, muito tempo um homem sábio olhou para essa corrida (cuja forma muda sempre, mas que permanece sem sentido) e disse:

Vaidade das vaidades! É tudo vaidade.

Que proveito retira o homem de todo o seu trabalho sob o sol?

Uma geração passa, outra vem,

Mas a terra permanece paras sempre.

O olho não se satisfaz com o que vê, nem o ouvido com o que ouve.

Não há nada de novo sob o sol…[7]

E isso permanece verdadeiro no mundo decaído. Mas nós, cristãos, também nos esquecemos de que Deus redimiu o mundo. Por séculos pregamos a esse povo apressado: sua correria diária não tem sentido, é preciso aceitar isso – e então você poderá ser recompensado em outro mundo com um descanso eterno. Mas Deus nos revelou e nos ofereceu essa Vida eterna em meio ao tempo – e em meio da correria do tempo – como sendo seu segredo e seu objetivo. E assim Ele transformou o tempo, e nosso trabalho no tempo, no Sacramento do mundo futuro, na Liturgia da realização e da ascensão. É quando encontramos o próprio fim da autossuficiência do mundo que ele recomeça para nós como a matéria do sacramento que devemos realizar em Cristo.

“Nada há de novo sob o sol”. E cada dia, cada minuto, ressoa agora como uma afirmação vitoriosa: “Vede, eu fiz novas todas as coisa, Eu sou o Alfa e o Ômega, o princípio e o fim…[8]”.

______________________

[5] Gênesis 1: 5.

[6] Salmo 104.

[7] Eclesiastes 1.

[8] Apocalipse 21: 5-6.


Protopresbítero Alexander Schmemann
tradução de Tito Kehl

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Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

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