Excerto da homilia de Sua Eminência o Metropolita Neófito de Morfo na Igreja de Santo Antônio, o Grande, na vila de Spilia, Chipre, em 17 de janeiro de 2020.
Todos nós hoje — monges e leigos, solteiros ou casados — temos um grande problema: a inquietação. Não conseguimos encontrar paz e tranquilidade em nossas almas. Todos estamos sobrecarregados com muitas preocupações. À medida que novas tecnologias se desenvolvem, a quantidade de preocupações e problemas aumenta, embora pareça que deveria ser o contrário… Por que isso acontece? Na verdade, o homem encontra paz somente na Verdade. A tecnologia não pode dar descanso ao homem, porque facilita a vida apenas para o corpo. Mas o homem não é apenas um corpo: ele tem corpo e alma.
É por isso que devemos encontrar uma maneira de dar descanso tanto ao corpo quanto à alma. Há um paradoxo na Igreja: quando o corpo se cansa por amor a Cristo ou ao próximo — os pobres ou doentes, os necessitados —, então, apesar da fadiga física, uma paz maravilhosa se instala na alma. Tal pessoa encontra descanso em sua alma. E então esse descanso é transmitido da alma para o corpo, dando-lhe novas forças para agir. Esse sentimento era maravilhosamente familiar aos santos: paz, repouso, graça e grande alegria. Mas para alcançar a paz espiritual, é preciso trabalhar. É necessário esforço para adquirir a graça divina. Devemos amar trabalhar pela causa de Deus e para o benefício dos outros…
Precisamos reservar um tempo para o silêncio. Claro que não podemos ficar no deserto 24 horas por dia, como Santo Antonio, o Grande, mas seria bom se pudéssemos ficar em silêncio por pelo menos alguns minutos, especialmente à noite. Não passe a noite inteira no celular e dormindo. Dedique parte da noite à vigília, prive-se de um pouco de sono, e então encontrará vitalidade de espírito; sua mente se tornará clara. E nos tornaremos, pelo menos um pouco, como Santo Antonio, o Grande, São João Batista, o profeta Moisés e o profeta Elias. E o próprio Cristo e a Santíssima Mãe de Deus nos ajudarão, como ajudaram todos os santos mencionados. O que une todos esses santos? Todos tinham um desejo em comum: adquirir a energia Divina — a graça do Espírito Santo.
O silêncio sagrado, o desapego, a oração e o jejum não eram fins em si mesmos para eles, mas meios para um fim. Eles não eram apegados a tudo isso. O mesmo se aplica à leitura do Saltério. Não é um fim, mas um meio. E qual é o nosso objetivo final? Nosso objetivo é alcançar a pureza de coração: “Cria em mim um coração puro, ó Deus, e renova dentro de mim um espírito reto” (Salmo 50:12)…
Que Deus nos conceda alcançar este bom e nobre objetivo. E para termos objetivos tão grandiosos, precisamos de grandes exemplos. Por favor, lede as vidas dos Santos se desejais viver uma vida espiritual, para que o desejo pelo silêncio sagrado, o desejo pelo desapego, o desejo pela oração, o desejo pela santidade possam nascer em vossos corações. Caso contrário, chegaremos à velhice e herdaremos não a santidade, mas a corrupção…
Apelo àqueles que vivem nas cidades: querem ser modernos e seguir a moda? Deixem a cidade. Encontrem uma aldeia tranquila onde possam descansar da agitação urbana. Mas não levem a agitação da cidade para o campo, senão a sua tranquilidade será perturbada. Na natureza, fora da cidade, podemos desfrutar da paz e do silêncio, especialmente à noite. Quando venho a Evrychou, consigo aproveitar algumas horas de silêncio todos os dias, apesar dos meus deveres episcopais.
Usem bem essas horas de silêncio, para estudar as Sagradas Escrituras, para orar e para comungar com a Santíssima Trindade, a Theotokos e os santos. E tenham um exemplo a seguir na pessoa dos santos.
Muitas vezes me lembro de São Iakovos de Evia. Poucas pessoas sabem de qual santo ele se inspirou em tudo. Pensam que foi São David de Evia. Mas, na verdade, não. Ele imitou São Daniel Stilita. Certo ano, durante a Páscoa, ele comeu tão pouco que eu comentei sobre isso. Ele respondeu: “O que você acha que São Daniel comia quando estava em sua coluna?” Claro, ele não era um stilita, mas realmente desejava ser. E agora, por seu esforço e imitação desse santo, o Senhor o glorificou entre os santos, como São Daniel.
Então, repito: Tenhamos grandes exemplos a seguir e reservemos tempo para o silêncio. O silêncio tem sua própria voz e estimula o trabalho espiritual. Leiam o Saltério, pois nele encontrarão uma fonte de lágrimas que purificam o coração e uma fonte de alegria.
Uma mulher que ama muito o Saltério e lê os Salmos todos os dias veio me visitar recentemente. O que ela me disse? “No começo, eu não entendia muita coisa. Havia muitas palavras que eu não conhecia. Mas quando termino de ler, sinto uma alegria maior do que jamais senti. De onde vem essa alegria no meu coração?” Respondi: “Essa alegria vem da iluminação do Espírito Santo.”
Qualquer que seja o tipo de vida que você leve — monástica ou familiar —, tenha grandes exemplos a seguir e certamente se beneficiará. E terá algo para transmitir aos seus filhos e netos.
Metropolita Neófito (Masouras) de Morfo
tradução de monja Rebeca (Pereira)







