HOMILIA NO XXII DOMINGO APÓS O PENTECOSTES

Amados irmãos,

O apóstolo Paulo nos diz que é irrelevante sermos circuncidados ou incircuncisos, porque o que importa é o homem novo, é a mulher nova, o homem e a mulher que são renovados pelo Espírito Santo, o homem e a mulher renovados pelo Espírito que habitarão em céus novos e uma terra nova.

Então, vejam: antes da Reforma Protestante, a idéia de que alguns eram escolhidos e outros não eram escolhidos para a salvação já era vigente. Então, para o povo hebreu, a circuncisão dos homens era a grande marca de que eles eram os escolhidos.

Mas, apesar de ter sido decidido no primeiro concílio da Igreja, no Concílio de Jerusalém, do qual vemos no livro dos Atos dos Apóstolos, a circuncisão não se tornou obrigatória na Igreja e ela foi dispensada, e então, como modo de se entrar para o Corpo de Cristo ficou o Santo Batismo, como a única forma de se entrar para o Corpo de Cristo, juntamente com a Santa Unção Crismal, para que possamos receber o Santo Corpo e Precioso Sangue de nosso Senhor Deus e Salvador Jesus Cristo. Participar da Ceia do Senhor e participar do Seu Corpo é um privilégio para quem decide ter este privilégio. E não é privilégio para alguns tão somente, reforço: é para quem quer ter este privilégio. É por isso que, para Paulo, a regra da salvação, a regra que nos coloca na condição de sermos filhos de Deus, filhos da Igreja, é o homem e a mulher de vida nova. E o que é a vida nova? A vida nova é o homem e a mulher humilde, porque, como diz Santo Agostinho, no inferno será possível encontrar a mais casta das virgens, os mais santos externamente deste mundo, mas nunca encontraremos um humilde no inferno. Nunca! Porque o mal não resiste aos humildes. E reforço: não serão encontrados humildes no inferno!

Uma característica e grande marca do homem e da mulher novas criaturas em Cristo Jesus, não é a circuncisão, mas a humildade. É preciso ter humildade, pelejar para ter humildade.

O Senhor Jesus, no Evangelho de São Lucas, nos ensina hoje uma parábola. E as parábolas eram contadas para que o povo pudesse pensar como homem novo, para que o homem e a mulher que escutasse a parábola sentisse o desejo para penetrar e se aprofundar os Mistérios de Deus.

Por isso, a parábola no Novo Testamento já era prevista pelos profetas: o Senhor falaria em parábolas, como o santo profeta David, em um dos salmos, diz que Ele falaria por parábolas.

Por parábolas, vejam, amados irmãos, nós temos quatro cenários aqui:  

  1. O primeiro é o cenário do caminho para a zona rural;
  2. O segundo é o cenário do terreno pedregoso;
  3. O terceiro é o cenário dos espinheiros;
  4. E o quarto, a terra boa e fértil.

Olhando a Parábola do Semeador, nós podemos pensar: Nossa, que homem relaxado! Ele foi plantar sementes e foi derrubando sementes por todo o caminho. Mas, nesta idéia de relaxado não se encaixa aqui, o Senhor nos dá a grande pista do Evangelho: Ele diz que a semente é a palavra de Deus. E a palavra de Deus é jogada sobre todos os corações de todos os homens e mulheres, de todos os tempos e eras. É lançada aos corações!

No coração do caminho para a zona rural é aquele que escuta a palavra de Deus e é indiferente: “Ah, Deus falou, mas não é para mim. Ah, Deus falou, mas é muito difícil viver a palavra de Deus. Então, não é para mim”. Então, é pisada a semente, e os pássaros se alimentam delas. E diz o Senhor que o demônio faz esse trabalho dos pássaros. Aquele pouquinho de semente que talvez iria germinar no nosso coração é retirada pelo demônio para que a gente não encontre a salvação. Por exemplo, aquelas pessoas que vem a uma paróquia ortodoxa pela primeira (e única) vez e dizem: “ Ah, é muito demorado”; ou ainda: “Ah, é muito difícil a Fé Ortodoxa. Ah, é difícil seguir Jesus”. Isso é a retirada da Palavra de Deus de nosso coração pelo demônio.

O segundo ponto é a semente que caiu no terreno pedregoso. Não tinha umidade necessária para germinar, o sol bateu com luz forte e quente, a raiz também não teve profundidade, assim como no primeiro terreno. O terreno pedregoso é aqueles que chegam endurecidos à igreja e saem endurecidos da igreja. É aqueles que não querem a palavra de Deus sobre nenhuma situação. Estes dizem: “Porque eu sou um homem honesto, ético, mas eu não quero ir para a Igreja. A Igreja não é para mim. Não quero, não quero, não preciso da Igreja! É aquela pessoa que diz estar a passar mal na Liturgia, como já aconteceu aqui: uma mulher disse que passou mal, se sentiu sufocada e foi para fora tomar ar, deixou a filha na capela, e depois a filha ficou aqui sem graça por grande tempo. E de repente as duas desapareceram. É um terreno pedregoso. A palavra de Deus foi jogada e tentou ser semeada, mas não vingou porque teve resistência.

Depois, nós temos os espinheiros. A palavra de Deus cai nos espinheiros. Ela até gera uma alegria no coração espinhoso, um bom ânimo inicial: “Nossa, como é linda a Ortodoxia! Nossa, como é bela a fé ortodoxa! Eu quero ficar aqui. Padre, eu quero batizar. Padre, eu quero crismar. Padre, quando o Senhor vai me crismar? Padre, e se eu morrer hoje, eu vou ser salvo?”. E ficam aquelas perguntas ansiosas querendo tudo depressa. E depois do Batismo e Crisma, recebe a primeira Comunhão, e não demora muito, desaparece. Este é o motivo de que a primeira lição dos apressados é aprender a ter temperança, saber esperar. Quem quiser prosperar na vida espiritual vai ter de aprender a esperar. Não há outro caminho! Porque é aqui que a gente assiste estes corações, quando da primeira provação, desistem mesmo tendo recebido a abundante graça de Deus.

E por último, a semente que caiu em solo fértil. Disto temos o testemunho dos santos, dos mártires, dos confessores, dos justos, dos apóstolos e de todas as pessoas que, de alguma maneira, testemunham o Cristo vivo e ressuscitado para nós. É aquela semente que vingou. É aquela semente que venceu a preguiça de vir para a Divina Liturgia. É aquela semente que tem energia para lutar contra as paixões da carne, porque tem o Céu como objetivo de vida. Não são aquelas pessoas que sempre criam desculpas: “Ai, eu tenho aqui que fazer tal coisa, lavar o quintal, porque, se eu não lavar, padre, ninguém lava o quintal”. Ou aquele: “Padre, eu preciso trabalhar muito, porque eu preciso poupar muito dinheiro”. Sobre este poupador, lembremos de um outro trecho do Evangelho em que Jesus chama essas pessoas de loucas, porque Ele diz assim: “Se você morrer hoje, vai ficar para quem tudo isso?”. Vão brigar pela sua conta corrente, vão brigar pelo seu carro, pela sua casa, pelo seu sítio, vão brigar por tudo, e você não vai levar nada. Nem a roupa do corpo vai ser levada; nem o teu corpo levarás, porque será consumido pelos vermes. O néscio diz: “Mas, padre, o senhor não quer, então, que eu guarde dinheiro e deixe rendendo?”. Não é isso, meu irmão. Eu também guardo dinheiro e deixo rendendo. E a conta da paróquia, também deixamos rendendo alguma coisa. Não podemos fazer disso nossa obsessão, colocar tudo acima de Cristo. Tudo que está acima de Cristo nos leva para a ruína. Todas as coisas de nossa vida tem de estar sempre abaixo de Cristo. Cristo vem primeiro, Cristo tem de vir primeiro! E onde nós estivermos, Cristo tem que estar, em todos os lugares que ocuparmos tem que haver um espaço para Cristo.

É essa a regra de Paulo: a nova criatura. O homem novo, a criatura nova, é o coração que acolheu a palavra de Deus com a boa semente da Palavra Divina.

Amados irmãos, o Evangelho de Jesus Cristo está sendo pregado e anunciado nos cinco continentes. E há mais de dois mil anos isso tem acontecido. E o mundo, quando a gente pensa que, de alguma maneira, ele está a se transformar em luz, ele declina para as trevas. Forças obsessoras criaram no nosso país um ódio de uns contra os outros, um terrível fratricídio! Nós, que cantamos o hino nacional e colocamos a mão no peito e dizemos que somos irmãos no hino nacional, estamos nos matando uns aos outros por causa de pessoas que, no final, brigam em debate, mas depois jantam juntos. Antigamente, quem torcia pelo Palmeiras e outros pelo Corinthians, quando se encontravam, acontecia uma terrível pancadaria. Agora é por político. Não é mais por futebol. E eu tenho uma feliz ou triste notícia para trazer a todos vós: não existe salvador político! Não, não existe salvador político! Só existe o teu voto e a tua consciência, e nada mais. O salvador político não existe nem está para nascer. Podem colocar quem quisermos no Executivo de nosso país para reger o Brasil. O Brasil vai continuar tendo muitas falhas e não agradará a todos.

Porque a palavra de Deus que caiu em terra fértil não faz o irmão agredir outro irmão. O homem novo não humilha o seu irmão por causa do voto, por causa de time de futebol ou porque tem uma posição social diferente de um do outro. Não! Não! E, não!

A violência desse mundo ainda impera porque nós ouvimos a Palavra de Deus e não a encarnamos! E o chamado do Senhor hoje é este: que ouçamos a Palavra de Deus, que leiamos a Palavra de Deus, mas que a coloquemos prática. Porque, senão, nós seremos mais uma era que não fez diferença na vida de ninguém nem na sociedade.

Ficamos muito preocupados em converter os outros, mas nós mesmos não nos convertemos a Jesus Cristo. Nós mesmos não imitamos os passos de Jesus. Nós mesmos queremos só o conforto, a alegria, as boas coisas da vida, mas não aceitamos quando o Senhor no permite uma cruz. A gente quer negar essa cruz o tempo todo, que é o que aqueles que buscavam a circuncisão na comunidade dos gálatas faziam. Com medo de apanhar dos judaizantes, eles mesmo sendo cristãos, eles faziam a circuncisão.

Não andem, amados irmãos, com o movimento das grandes massas, porque quem vai com a massa é igual à força do mar: vai te levando, vai te levando, e quando você estiver lá no meio do oceano, vai se afogar. Caminhe com Jesus Cristo e escolha sempre por Cristo, ainda que isso te coloque na contramão deste mundo. Esse é o chamado do Senhor para nós. Esse é o sentido e o dever daqueles que são batizados na Igreja. Assuma o teu Batismo! O grande problema deste Brasil e do planeta Terra é que muitos cristãos, um grande número de cristãos que depois de vinte, trinta, quarenta, cinquenta, setenta anos de seu Batismo, ainda não o assumiu seu Batismo.

E então a banalidade do mal incita a gente quer fazer justiça com as próprias mãos. Insistimos em semear a semente em terreno pedregoso, continuamos acreditar que falar o que é certo sem viver o certo, tentar persuadir os outros vai adiantar alguma coisa para mudar este mundo. Isto não vai adiantar, não é o remédio certo. Portanto, se ninguém ver o Evangelho em mim e em você, ninguém vai mudar de vida. Se as pessoas não enxergar em mim e em você o homem novo, a criatura nova, a mulher nova, ninguém vai crer em Jesus Cristo. Continuaremos a insistir viver esse Cristianismo anêmico que assistimos por aí: “Eu amo Jesus meu papai, eu choro por Jesus, eu dou cambalhota de alegria”. Eles batem palminha no culto, e tudo então está bem. Quando sai da reunião espiritual atropela o gato ou o cachorro na rua, acha que matar um ser humano é justo. É isso que acontece, ou não? E vem a justificativa: “Ah, mas o gatinho, ele entrou na frente do carro”. Não, o senhor motorista cristão ao avistar o gatinho virou o volante e atropelou o gato. Eu já vi gente fazer isso. Falo do que vi.

Eu me lembro de um pregador — não da Igreja Ortodoxa — dizendo assim: “Tudo o que é meu é de Jesus”. E, ao final, ele terminou do grupo de oração, quando se dirigiu até seu veículo, ele encontrou um menino dentro do carro dele brincando de dirigir. Ele repreendeu o garoto dizendo: “Sai daí, menino, esse carro é meu!”; o garoto surpreso diz: “Ué, mas você disse que tudo o que é seu é de Jesus, então é meu também”. Sejamos cautelosos meus amados irmãos, se você se entrega para Cristo, entregue-se mesmo. E, se você se entrega para Cristo, se entregue mesmo, se entregue totalmente porque o Senhor vai pedir conta das nossas entregas.

Faço agora uso de um jargão do mundo corporativo: “indústria quatro ponto zero”. Vamos pensar e viver um “Cristianismo 4.0”, que nada mais é que uma fé verdadeira e genuína que se entrega totalmente a Deus e a prática da justiça, um cristianismo que realmente faz a diferença na sociedade, que seja sal e fermento para levedar a massa.

Uma santa e abençoada semana a vós todos!

 E que Deus, cuja paz que supera toda a nossa compreensão, guarde os vossos corações e mentes em Cristo Jesus, nosso Senhor.


Sacerdote Nicolau Machado

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Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

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