Arcipreste Alexander Berezovsky, clérigo da Igreja da Anunciação no Parque Petrovsky, Moscou:
Precisamos conduzir esse diálogo de forma que o ateu abandone sua posição e ouça as palavras de Deus, que o Senhor descreveu como palavras de vida. O objetivo é ajudá-lo a reconsiderar seus princípios e valores e voltar-se para Deus. Afinal, um ateu é simplesmente alguém que virou as costas para Deus. Isso não significa que Deus não exista. Quando alguém não quer perceber algo, vira as costas e diz: “Não vejo nada, não ouço nada”, mostrando que simplesmente não está interessado. Devemos tentar conduzir a conversa de forma que ele desenvolva um interesse pela vida eterna e pela vinda de Deus ao mundo. Como alcançar isso depende inteiramente da pessoa com quem estamos falando — sua visão de mundo e as razões por trás de seu ateísmo. Pode ser devido à sua educação, ou talvez a um profundo ressentimento contra Deus por uma tragédia passada que ele não consegue perdoar, escolhendo, em vez disso, expressar sua discordância com o Criador dessa maneira.
Mudar a opinião de alguém é incrivelmente difícil. Em vez disso, podemos ajudá-lo a questionar sua visão de mundo materialista fazendo algumas perguntas simples: “O que você planeja fazer amanhã? No mês que vem? No ano que vem? Daqui a dez anos? Quando você envelhecer? Quando você morrer? E o que vem depois?” Porque se não há nada depois desta vida, tudo perde o sentido. Como as pessoas sempre têm objetivos para o futuro, o futuro é um excelente tópico para discutir com um ateu. Converse sobre o futuro e como uma perspectiva materialista pode, na verdade, ajudá-lo na vida. “Você se sente completamente onipotente? Ou sente suas próprias limitações, sua incapacidade de superar, mudar ou entender certas coisas?”
É sempre melhor construir um diálogo em torno de perguntas em vez de afirmações. Isso permite que a pessoa reflita sobre coisas que nunca considerou antes — coisas que antes achava entediantes ou óbvias — e as veja sob uma perspectiva completamente nova. Dessa forma, podemos guiá-lo gentilmente para perceber que a vida não se limita à nossa existência terrena, mas continua na eternidade. E se isso se prolongar pela eternidade, então poderemos falar sobre o que nos espera lá e do que depende nosso estado eterno.
Essa conversa pode levar mais de uma sessão e mais de um dia. É melhor não apressar tudo de uma vez. Às vezes, as pessoas vêm à Confissão porque alguém as trouxe. Algumas até dizem: “Bem, eu sou meio materialista”. Mas o fato de terem vindo significa que responderam a um convite ou conselho para ir à igreja, conversar com um Padre e discutir certos assuntos. O melhor é dar-lhes apenas o suficiente para refletir. Não absorverão tudo de uma vez, mas se ficarmos repetindo as mesmas coisas, perderão o interesse. Por isso, precisamos guiá-los nesse caminho com muito cuidado e em doses bem medidas — fazendo perguntas e incentivando-os a refletir sobre as coisas.
Às vezes, nosso interlocutor afirma imediatamente que não acredita na vida após a morte. Podemos tentar explicar que a vida após a morte existe, ainda que apenas porque as pessoas adquirem certas qualidades e conhecimentos que não podem se desenvolver plenamente nesta vida terrena e que claramente exigem uma continuação. Ao longo da vida, as pessoas se tornam fisicamente mais fracas e envelhecem, mas adquirem sabedoria que não pode mais ser contida em seus corpos, às vezes frágeis — sabedoria que transcende nossa existência terrena. Podemos falar também sobre essa sabedoria e, dependendo das respostas, muitos assuntos podem ser abordados. Qualquer diálogo é imprevisível: o que a pessoa responderá, como reagirá a uma determinada pergunta ou se desejará continuar a conversa. Alguns dizem exatamente isso: “Vou pensar a respeito. Posso voltar?”. E voltam. Às vezes não imediatamente, às vezes depois de muito tempo, mas a pessoa retorna transformada.
É crucial dar a ele a oportunidade de enxergar os acontecimentos da vida de uma maneira diferente da que está acostumado. As pessoas frequentemente se prendem ao pensamento convencional — ouvem algo em algum lugar, aceitam como verdade e presumem que as coisas são assim mesmo, sem nunca tentar ir além ou olhar por outro ângulo. Precisamos ajudar nosso interlocutor a transcender o que já absorveu, a sair da rotina e a ver as coisas sob uma nova perspectiva. Mas, novamente, essa conversa depende inteiramente dos interesses da pessoa. Ajuda perguntar sobre ela para conhecê-la um pouco melhor. O que te motiva? O que te interessa? Além do trabalho, o que te entusiasma na vida? Como você se sente em relação à vida familiar? Você tem filhos? Como estão as coisas na sua família? E o relacionamento com seus pais — quanta autoridade eles exercem sobre você? Quais eram seus interesses na juventude, quando você estava na escola? Quem você queria ser quando crescesse? E quem você realmente se tornou? O que te impediu de realizar seu sonho?
Precisamos conversar um pouco com ele sobre sua trajetória de vida. E nessa conversa podemos inserir algumas reflexões sobre Deus e Sua obra na vida de cada pessoa. Afinal, Deus age de maneiras sutis. Uma pessoa precisa amadurecer e crescer antes de começar a perceber a mão de Deus em sua vida. Mas, por ora, ela pode simplesmente olhar para trás e lembrar daqueles momentos da vida que parecem um milagre — coisas que não podem ser explicadas de um ponto de vista materialista.
Na realidade, até mesmo aqueles que se dizem materialistas vivenciam milagres. Em público, uma pessoa pode agir de uma maneira — declarando em voz alta que rejeita, desacredita, não sabe e não quer. Contudo, em uma conversa particular, sua resposta a essas mesmas coisas pode ser completamente diferente. Defender publicamente uma posição é uma coisa; a alma é outra. Toda alma humana busca a Deus, porque foi criada por Ele e porque sem Ele é incompleta e sofre. Sentimentos de depressão, desânimo e desespero são simplesmente o estado de uma alma em busca de Deus. Alegria e paz, porém, preenchem a alma no momento em que O encontra.
O que quero dizer é que essa conversa não pode ser roteirizada. Não é um manual de instruções onde você simplesmente se senta com alguém por uma hora ou uma hora e meia, explica tudo, e seu ouvinte absorve tudo e sai transformado. A fé é algo muito sutil e delicado. Você não pode forçá-la. Por exemplo, não devemos simplesmente começar a envergonhar alguém por sua ignorância, dizendo coisas como: “Você leu tantos livros, mas nunca nem pegou no Evangelho…” Ele só sairá ofendido e nunca mais vai querer nos encontrar. Precisamos conversar com ele de uma maneira que desperte o interesse em um relacionamento com Deus. Ainda há muitas coisas que ele não entende ou aceita, e muita coisa pode soar estranha para ele. Mas pelo menos ele está desenvolvendo algum interesse nesse assunto.
Eu diria o seguinte: primeiro, precisamos despertar o interesse em Deus e no propósito humano nesta vida. Muitos aspectos de nós mesmos permanecem adormecidos, e essa curiosidade precisa ser despertada. Depois disso, precisamos avaliar o quão preparada a pessoa está para responder.
Sabemos, por exemplo, que quando os apóstolos entraram no ambiente pagão, ganharam seguidores desde o primeiro sermão. Alguns creram em Cristo desde as primeiras palavras, mas muitos resistiram, e os apóstolos tiveram que retornar para confirmá-los e fortalecê-los na fé. Pois mesmo aceitar Cristo intelectualmente não significa começar a viver segundo os Seus mandamentos. Muitos O aceitam intelectualmente, mas continuam com seu antigo modo de vida. E se uma pessoa não é fortalecida na fé e não começa a mudar de vida, esse antigo modo de vida a puxa de volta para sua antiga maneira de pensar. Portanto, é crucial que o processo de comunicação com um materialista não seja interrompido. No entanto, deve ser feito com muita delicadeza e cautela: para não ferir, não estragar as coisas, não assustar, não afastar e, de forma alguma, ofender.
Às vezes, um crente se sente ofendido por declarações de não crentes; eles atacam a fé, Cristo ou a Igreja e começam a criticá-los — geralmente com frases feitas. Eles descarregam toda a sua negatividade, e é tudo muito superficial: “A Igreja é um negócio”, “A religião é uma forma de enganar as pessoas”, e assim por diante. Mas, por outro lado, precisamos iniciar uma conversa: “Você está atacando a Deus — como Ele o feriu? Quando Ele o enganou? Quando Ele o roubou? Quando Ele o prejudicou? De que Deus é culpado? Vamos analisar sua vida especificamente. Você ficou doente? Sim, ficou. E depois melhorou? Melhorou. Você acha que foi apenas o efeito do remédio? Você pode ver que, para a mesma doença, o mesmo remédio funciona de maneira diferente. Se o remédio fosse a panaceia para todas as doenças, então, toda vez que o tomássemos, teríamos a garantia de nos recuperar. No entanto, às vezes você toma o remédio e ele ajuda; na próxima vez, não ajuda. Isso significa que o remédio, o médico ou o procedimento sozinhos não são suficientes. Significa que algo mais é necessário além disso…” Este é um assunto vasto, e precisamos envolver nosso interlocutor nele, convidando-o a refletir.
E não há necessidade de falar com jovens durante o período em que eles estão se sentindo negativos em relação à fé e à Igreja. Devemos orar fervorosamente por eles, pois uma certa escolha já foi feita por eles, mas não por eles. O diabo os seduziu com os valores materiais desta vida, e eles desviaram seu foco para esta esfera puramente externa, corporal e material. A intervenção divina é necessária aqui. Argumentos e exortações não bastam, porque essas pessoas, em geral, fogem desse diálogo.
O ouvinte mais receptivo é aquele que vem até nós por iniciativa própria. Ele pode não saber nada e pode ter seus próprios argumentos; mas, como já veio, podemos dialogar com ele. Correr atrás de alguém, agarrá-lo pelo braço e tentar forçar algo é completamente inútil. Só encontraremos grosseria ou blasfêmia descarada. Por que provocar alguém a blasfemar? Às vezes, o Senhor deixa a pessoa seguir seu próprio caminho para que ela possa experimentar todos os “prazeres” de tal vida.
Como você deve se lembrar, na Parábola do Filho Pródigo, o desejo do filho mais novo de deixar a casa do pai não surgiu sem motivo; havia uma razão. Embora a parábola não diga isso explicitamente, havia claramente um sentimento de insatisfação com os pais, as regras da casa paterna e sua incapacidade de satisfazer os próprios desejos. De fato, o que o filho mais novo fez depois de receber a herança e sair de casa? Desperdiçou sua riqueza em uma vida desregrada. Era isso que ele queria, mas era impossível na casa de seu pai. Contudo, seu pai não tentou convencê-lo do contrário nem lhe deu explicações. Teve que esperar até que o filho, como diz a parábola, caísse em si (Lc 15,17). Tendo ficado na miséria, faminto e reduzido a alimentar porcos, ele finalmente caiu em si e decidiu voltar. Só então surgiu a oportunidade de um reencontro com o pai. O pai não foi atrás dele até aquela terra distante, mesmo sabendo onde o filho estava. Esperou o momento em que esse reencontro se tornaria possível.
O Senhor espera, mas age. Ele não apenas espera; Ele está sempre agindo. Deus sempre trabalha, porque sem a obra de Deus, este mundo não pode existir. Ele age através da consciência, das circunstâncias da vida, dos encontros e das reflexões; há tantas ações diferentes de Deus. E assim, passo a passo, a pessoa cai em si. Às vezes, muitos anos se passam antes que ela caia em si e volte a ansiar pela comunhão com o Pai Celestial. Esse retorno será repleto de dúvidas, hesitações e talvez vergonha pelo que foi feito. Nesse momento, devemos apoiar a pessoa, ajudá-la, não a rejeitar, e estender-lhe uma mão amiga para que ela possa se libertar do estado em que caiu.
Não há palavras melhores do que as do Evangelho. Portanto, um sacerdote deve naturalmente falar a partir do Evangelho, pois o próprio Senhor nos deu essas palavras divinas que trazem uma pessoa da morte para a vida. E devemos ser pacientes com a fraqueza humana. Sempre procuro encontrar as pessoas dentro da igreja. Por quê? Para que elas possam cruzar o limiar da igreja, para que possam entrar. É claro que podemos nos encontrar na rua, sentar em um banco ou conversar em um parque. Mas devemos falar de Deus na casa de Deus. Percebi isso há muito tempo: o melhor é que a pessoa venha à igreja, cruze seu limiar, entre, respire o ar que a preenche e ali, cercada por ícones sagrados, compartilhe seus problemas e tudo o que a trouxe até ali.
O argumento principal em uma conversa como essa é difícil de apontar, porque tudo depende de como alguém ouve, de sua capacidade de escutar. Lembre-se do que o Senhor diz: “Quem tem ouvidos para ouvir, ouça” (Mt 11:15). E sabemos que, entre a multidão de pessoas ao redor de Cristo, poucos realmente ouviram, e menos ainda entenderam o que ouviram. Até mesmo os discípulos, às vezes, perguntavam ao Senhor sobre coisas aparentemente simples: “Senhor, explica-nos a parábola”. Aqui, tudo é profundamente individual. É como uma fogueira — às vezes mal está acesa, e é importante soprar suavemente e acrescentar algumas folhas secas de grama para que não se apague. E mais tarde, quando aquela pequena faísca de fé se torna perceptível, podemos começar a jogar gravetos e galhos para fazer o fogo crescer.
O foco principal, é claro, é o tema do amor de Deus pela humanidade. Porque, como resultado da nossa conversa, devemos finalmente abordar este tema: Deus não é a causa do sofrimento humano, mas, pelo contrário, a Fonte da própria vida, bem como da felicidade, da bondade, da paz e de tudo o que traz a maior alegria às pessoas. Deus é a Fonte de tudo isso. E sem Ele, alcançar qualquer uma dessas coisas é impossível. O que às vezes percebemos como alegria na vida é muito fugaz e instável. É apenas um substituto para a alegria, não a alegria verdadeira. É algo que existe na superfície de nossas vidas, mas não penetra nas profundezas. Mas Deus, que penetra nas profundezas de nossos corações, traz a verdadeira alegria para dentro deles, ensinando-nos o que a verdadeira vida humana realmente significa.
Arcipreste Alexander Berezovsky
tradução de monja Rebeca (Pereira)






