O Cristianismo não é uma mera formalidade ou uma afiliação externa; é uma participação profunda e real na vida de Cristo. Ele exige arrependimento, transformação pessoal e uma experiência viva — não uma fé superficial ou um moralismo. Nesta palestra, o sacerdote Nikolaos Loudovikos critica a desvalorização contemporânea da vida espiritual e a tendência de relegar Cristo a um segundo plano. O verdadeiro objetivo de um fiel é um encontro pessoal com Ele, o serviço ao próximo e a participação na vida da Igreja. É por isso que a fé é um caminho sério e transformador, e não algo superficial ou meramente simbólico.
Na Igreja, não há espectadores, nem um público curioso. Há apenas membros. Esses membros são partes de um Ser vivo — intensamente vivo —: um Ser Divino. Trata-se do Verbo de Deus e de um ser humano. É um Ser inteiramente novo. Nada semelhante jamais existiu antes, e nada semelhante voltará a existir. Deus, em Sua totalidade, e, ao mesmo tempo, o Homem, em Sua totalidade, existem em uma comunhão ontológica tão profunda — uma comunhão que não é uma identificação, mas uma verdadeira comunhão —, pois constituem um único Ser.
Ele é Deus como homem. Cristo realiza as obras de Deus na condição de homem. Ele faz o que Deus faria se fosse homem — e Ele *é* homem. Contudo, o termo “se” não se aplica propriamente aqui; Ele é Deus como homem. Ele concretiza aquilo para o que o ser humano foi criado. Mas, como o homem encontrou dificuldades, o próprio Deus interveio para mostrar ao homem qual é a sua verdadeira vocação e qual pode ser o propósito preciso desta vida. E o propósito desta vida não é nada menos do que o ser humano tornar-se deus por graça.
As duas naturezas em Cristo não se confundem, mas permanecem unidas, inseparáveis. Trata-se de um ato de ousadia impressionante — repito, um ato de ousadia impressionante por parte de Deus. Não esperávamos algo assim. Na história das religiões, isso é algo único.
O santo Apóstolo Paulo também fala sobre isso: “Para os judeus, é uma pedra de tropeço” (cf. 1 Cor 1,23; Rm 9,32–33). E o que significa esta “pedra”? Uma barreira, um impedimento, um obstáculo. Para um judeu, é um escândalo — a própria ideia de que Deus pudesse entrar na natureza humana de tal maneira, tornando-se plenamente um ser humano, tal como nós — sujeito à história, à corrupção, à morte. Sujeito a tudo, na verdade, exceto ao pecado. O pecado existe em virtude do livre-arbítrio. O pecado não é d’Ele; o pecado não provém de Deus. O pecado é uma invenção de outra inteligência. Deus não deseja o pecado, nem tem qualquer relação com ele — contudo, para um judeu, isso é um escândalo.
É por isso que, quando Cristo diz: “Antes que Abraão existisse, Eu sou” — ao que os judeus responderam: “Ainda não tens cinquenta anos e vistes Abraão?”. Com isso, Ele aponta diretamente para a Sua natureza divina.
Esta é uma das várias passagens nos Evangelhos em que Cristo fala de Si mesmo como Deus. Menciono isso porque os muçulmanos frequentemente perguntam: “Onde Cristo Se apresenta como Deus?”. Ele faz isso constantemente — especialmente no Evangelho de João —, repetidas vezes: “Eu e o Pai somos um” (João 10:30). Que tipo de ser humano diria uma coisa dessas? Eu, por exemplo, jamais diria: “Quem Me viu, viu a Deus” (cf. João 14:9). E, se eu dissesse algo assim, vocês teriam de me trancar em algum lugar — para me ajudar a cair em mim — e me administrar alguma medicação.
São questões muito sérias, e é importante compreendê-las. Contudo, para os gregos, isso é loucura (1 Cor. 1:22). O Logos Supremo — o “Uno” de Platão, que está acima de todas as coisas, “além da essência” (como Platão expressa em *A República* e em outras obras), “além do ser” — que esse Ser entre na existência, assuma para Si fardos, labores, corrupção e carne, e, então, torne essa mesma carne incorruptível? Para a filosofia antiga, isso é uma abominação — que esta carne, este barro, possa tornar-se incorruptível!
Se você realmente compreendesse o que é o Cristianismo, passaria a amá-lo profundamente. Mas o problema é que não o compreendemos. Colocamo-nos diante de Deus e Lhe dizemos:
“Dá-me isto! Dá-me aquilo! Deixa-me ganhar na loteria!”
— exatamente como as pessoas têm feito ao longo dos séculos.
E quem compreende a natureza singular do Cristianismo? A Santíssima Theotokos. A Santíssima Theotokos compreende-a. É por isso que a Santíssima Theotokos não fala. Ela não fala porque não pode falar. E a quem Ela deveria falar? E o que haveria para dizer? Contudo, a Santíssima Theotokos sabe. E como podemos notar que Ela sabe? Notamos que Ela sabe porque, nas bodas de Caná, diz: “Faça o que podes fazer”:
— Faça o que podes fazer. Sei que Tu podes fazê-lo. Fá-lo.
— A Minha hora ainda não chegou (João 2,4).
Quem, senão Ela, saberia Quem Ele é, o que Ele fez e o que Ele tem realizado durante todo este tempo? Mas a quem Ela poderia, afinal, dizer isso?
Estas são as questões mais importantes, e quero que as compreendamos. Este é, de fato, o propósito divino para o mundo. A Encarnação é o maior acontecimento que já ocorreu no universo. Digo isso como alguém que passou anos de sua vida lendo praticamente toda a filosofia, tanto antiga quanto moderna. Cheguei, inclusive, a escrever um livro introdutório sobre filosofia antiga, disponível para qualquer pessoa interessada. E, hoje, sou professor de teologia — portanto, sei muito bem do que estou falando. Li o Alcorão, o Bhagavad Gita, o Tao Te Ching e tudo o mais.
Esta é uma iniciativa do próprio Deus — um empreendimento formidável, marcado por uma audácia impressionante e um amor avassalador. É o amor divino que torna Deus tão audacioso. Só se é capaz de tamanha audácia quando se está amando. Apenas aqueles que amam — aqueles que amam algo com grande intensidade — realizam atos tão ousados. Eles praticam ações “sem cálculos”. É essa a “falta de cálculo” do próprio Deus. A Encarnação, por exemplo? Eu não O teria aconselhado a fazê-la. Se Ele me tivesse perguntado, eu Lhe teria dito: “Não faça isso”.
Portanto, não somos meros membros de um clube qualquer. Somos participantes de um acontecimento — em Cristo. É isso o Batismo: o Sacramento da adoção. Não se trata apenas do perdão do pecado original ou algo do gênero (essa é a doutrina de Santo Agostinho); trata-se de adoção. Imagine que você vê um migrante desamparado na rua; você estende a mão e o acolhe:
“Venha cá. Farei de você o herdeiro da minha riqueza.”
“Você fará de mim… o quê?!”
O migrante, naturalmente, acabará por crucificá-lo — mas, ao fazê-lo, perceberá com quem está lidando.
Quando Cristo desceu à Terra, Sua única expectativa era que, ao final, nós O compreendêssemos. Nenhum dos discípulos entendeu coisa alguma. O próprio apóstolo Pedro disse:
“Eu Te seguirei. Aonde quer que fores, eu irei. Estarei con´Tigo, até a morte.”
“Vamos nós também, para morrermos com Ele” (João 11:16). E o que aconteceu depois? Temos Tomé, o incrédulo, e — a expressão máxima da descrença — Judas. E há a solidão absoluta de Cristo. Ele pergunta aos Seus discípulos:
“Quem sou Eu?”
“O Filho de Deus”, respondem eles.
Bravo! E, então, na hora da provação, todos se dispersaram.
Só a Mãe de Deus sabe. Mas a Mãe de Deus está sozinha, e não consegue convencer ninguém. Como Ela poderia contar-lhes tudo isso?
Contudo, na Transfiguração, eles O contemplam de repente. Se esses pescadores simples — homens sem grande destaque intelectual — não O tivessem visto… Já lhes disse antes: se Cristo tivesse escolhido filósofos como Seus apóstolos — se tivesse escolhido homens como eu —, eu jamais teria acreditado neles, pois não teriam dito nada além de bobagens. Mas o que diz o discípulo?
“Nós O vimos; tornamo-nos testemunhas desta Sua glória” (cf. João 1,14; 19,35; 21,24).
“Testemunhas oculares” — essa é, precisamente, a palavra usada aqui (2 Pedro 1,16).
Nós vimos. Nós vimos, e é algo impressionante — porque, na Igreja, nós simplesmente vemos. Não recorremos à meditação ou ao ioga; não há necessidade disso… Às vezes, digo: “Se eu não fosse quem sou, teria me tornado um budista convicto. É nisso que eu teria me transformado”. Digo isso com toda a sinceridade. E por que budista? Porque essa é a única forma de espiritualidade que compreendeu que a dor neste mundo não pode ser curada — portanto, a única coisa que resta a fazer é partir. “Parta”, diz o Nirvana. “Parta.”
Mas aqui, contemplamos a presença de Deus em todas as coisas. E isso é algo de grande seriedade. “Não seguimos mitos engenhosamente criados. Tornamo-nos testemunhas oculares de Sua glória e majestade. Nós as vimos.”
“Até que todos cheguemos à unidade na fé e no conhecimento do Filho de Deus, tornando-nos uma pessoa madura, alcançando a medida da estatura plena de Cristo” (Ef 4,13).
Até que, em um determinado momento, você comece a ver as coisas como elas realmente são. Isso significa que a Igreja espera que nós também percebamos essa realidade de Cristo — que vejamos Cristo como Ele realmente é. Não como uma espécie de divindade grega duvidosa, mas como aquilo que Ele de fato é: a obra eterna de Deus no mundo.
E assim, essas pessoas simples — que se dispersaram e seguiram cada uma o seu caminho, sem ter compreendido nada (com exceção da Mãe de Deus) — não deram ouvidos a ninguém; afinal, quem era que viam diante de si? Monstros. Os fariseus, os escribas, a população inteira, as autoridades romanas — todos estavam contra eles. E o que, diga-me, poderia fazer um simples pescador? Pouco tempo depois, esse mesmo “homem simples” dá um passo à frente e diz:
“Eu ressuscitei!”
“Vou te reduzir a cinzas!”
“Pode tentar, me reduza a cinzas!”
“Vou te cortar em pedaços!”
“Pode tentar, corte-me em pedaços!”
“Vou te assar vivo!”
“Pode tentar, asse-me! Eu ressuscitei!”
E Ele não apenas ressuscitou, mas também realizou milagres com a sua própria sombra. Pedro — o Pedro arrependido. Com a sua sombra, ele fez com que os desafortunados e até mesmo os mortos voltassem a ficar de pé (Atos 5:15). Esse é o poder de Deus. Não é de origem humana.
E os santos que conhecemos — eu, por exemplo, entrei para a Igreja justamente por tê-los visto; caso contrário, estaria até hoje fora de seus muros — possuíam exatamente essa qualidade. Eram seres humanos divinos. Veja, por exemplo, o episódio em que o Padre Paisios tocou a cabeça de uma criança, e ela, de repente, recuperou a visão — conheço essa história e essas pessoas pessoalmente. Ou considere o que ele fez por mim: nunca mencionei isso antes, mas ele me curou de uma doença incurável. Bem, talvez eu conte isso na minha autobiografia, algum dia. Ele compreendia tudo, sem que eu precisasse dizer uma palavra sequer. Eu estava prestes a lhe contar…
E ele responde:
“Eu sei.”
Olhei para ele e perguntei:
“Mas… por que [isso está acontecendo comigo]?”
Ele responde:
“Para que você possa ter maiores direitos (espirituais).”
E, quando voltei para casa, eu já não tinha mais nada. A doença incurável com a qual eu havia nascido tinha desaparecido.
Ou pense em uma amiga nossa dos tempos de escola. Na época em que eu era estudante, tínhamos nosso próprio círculo de amizades, e eu comentei com eles:
“Eu conheço o Padre Porfírio, em Atenas.”
Uma das moças — éramos um grupo misto de rapazes e moças — ouviu nossa conversa e disse:
“Vou visitá-lo.”
E assim, ela foi ver o Padre Porfírio. No momento em que ela entrou, ele lhe disse:
“Que moça adorável você é! E que olhos azuis lindos você tem! Combinam perfeitamente com o azul que você está vestindo!”
Ora, essa pobre moça sempre se considerou pouco atraente durante toda a sua vida. E veja só o que aconteceu em seguida — nós presenciamos tudo. Ela começou:
“Geronda, é que…”
“Olha”, disse ele, “você é uma filha de Deus muito boa. Portanto, não fique triste.”
Ela estava chegando ao ponto de desespero — não sei por quê — e estava convencida de que era feia. Na verdade, ela não era feia, mas tinha certeza de que era. As mulheres tendem a acreditar em coisas assim; aliás, as mulheres são, em geral, as mais insatisfeitas com o próprio corpo. Mas, neste caso, a história era outra.
Então, ela volta para casa e, no dia seguinte, chega à escola exclamando:
“Ah, o que foi aquilo? Ele me disse isso, aquilo e tantas outras coisas! Ah, o que foi aquilo? Ora, ele é um santo!”
Passam-se três meses, e ela vai ver o Padre Porfírios novamente. Assim que ele a vê, diz:
“Seja bem-vinda! E então, você ainda está sentindo dor?”
E, naquele momento, ela ficou sem fala. Acontece que, sempre que estava menstruada, ela ficava completamente prostrada — como um cadáver — por cerca de quatro dias. Todos nós sabíamos disso, pois fazíamos parte do mesmo círculo de amigos. Ele presenciou essa situação e a curou, sem dizer uma palavra sequer. E, quando ela retornou três meses depois, ele lhe perguntou:
“Você sente alguma dor agora?”
Ela respondeu:
“Nenhuma dor.”
Ora, então — de quem é essa obra? De um ser humano?”
Menciono isso porque, hoje, o acontecimento de Cristo está caindo no esquecimento; e, quando nós — teólogos e pessoas ligadas à Igreja — discutimos moralidade ou nos envolvemos em política, tendemos a fazer concessões com demasiada facilidade, tornando-nos ou excessivamente rígidos ou excessivamente modernos — atitudes que, ambas, são insensatas. O resultado é que Cristo, que deu origem a essa história, acaba permanecendo fora dela.
Somente a espiritualidade ortodoxa é centrada em Cristo. É com Ele que lidamos ao nos confessarmos diante de um sacerdote; é Ele quem perdoa os pecados. Ao recitar a oração “Senhor Jesus Cristo, tem piedade de mim” — a oração fundamental da Igreja —, você está se dirigindo a Ele. E, ao receber a Sagrada Comunhão, você está participando do Seu Corpo. Consequentemente, Ele não pode ocupar um segundo lugar; contudo, hoje, infelizmente, Ele tem sido relegado a um segundo plano.
Quem dera meus colegas — aqueles que fundam academias inteiras, com programas de pós-graduação e diversos cursos de aperfeiçoamento profissional — pudessem me ouvir! Na prática, eles estão tentando esquecer Cristo. Você talvez pergunte: “Será que eles realmente querem esquecê-Lo?” Talvez não, mas muitos também não têm o menor desejo de lembrar-se dEle. É como se eu tentasse justificar os seus pecados abraçando você e dizendo: “Venha cá, meu caro — você fez tudo direitinho”.
A teoria da restauração (apokatastasis) de todas as coisas também é popular hoje em dia. Ela surgiu na América e, segundo ela, todos nós acabaremos sendo salvos. Mas por quê? O Senhor vai me salvar à força? E o que significa dizer que “todos nós seremos salvos”? Como, exatamente, todos nós seremos salvos?
Isso é o diabo tentando “salvar” Deus. O diabo diz a Ele:
“Escute, o Senhor vai se tornar como eu — eu não vou me tornar como o Senhor.”
Sacerdote Nikolaos Loudokivos
tradução de monja Rebeca (Pereira)







