Para onde vai a alma depois da morte? Que jornada ela faz? Onde estão as almas dos falecidos? Por que os dias de comemoração em memória dos falecidos são importantes? Essas perguntas frequentemente levam as pessoas a recorrer aos ensinamentos da Igreja. Então, o que sabemos sobre a vida após a morte? A revista “Foma” procurou formular respostas para as perguntas mais frequentes sobre a vida após a morte, com base nos ensinamentos da Igreja Ortodoxa.
O que acontece com a alma após a morte?
A forma como encaramos a nossa morte futura — quer a aguardemos ou, pelo contrário, a apaguemos diligentemente da nossa consciência, tentando não pensar nela — influencia diretamente a forma como vivemos nossa vida presente e a nossa perceção do seu significado. Um cristão acredita que a morte, enquanto desaparecimento completo e final de uma pessoa, não existe. De acordo com a doutrina cristã, todos viveremos para sempre, e a imortalidade é o verdadeiro propósito da vida humana, sendo o dia da morte simultaneamente o dia do nascimento para uma nova vida.
Após a morte do corpo, a alma parte em uma jornada para encontrar o Pai. A forma exata como essa jornada da Terra para o Céu se dá, como será esse encontro e o que se seguirá dependem diretamente de como a pessoa viveu sua vida terrena. No ascetismo ortodoxo, existe o conceito de “memória da morte”, uma lembrança constante dos limites da vida terrena e da expectativa da transição para o outro mundo. Para muitos que dedicaram suas vidas a servir a Deus e ao próximo, a aproximação da morte não era uma catástrofe ou tragédia iminente, mas sim um encontro alegre e há muito esperado com o Senhor. O Ancião José de Vatopedi disse sobre sua morte: “Estou esperando meu trem, mas ele nunca chega.”
O que acontece com a alma após a morte, dia após dia?
Na Ortodoxia, não existem dogmas rígidos sobre etapas específicas na jornada da alma rumo a Deus. Contudo, tradicionalmente, o terceiro, o nono e o quadragésimo dia são designados como dias especiais de comemoração. Alguns autores da Igreja apontam que esses dias podem estar associados a etapas especiais na jornada de uma pessoa para o outro mundo — essa noção não é contestada pela Igreja, embora não seja reconhecida como uma norma doutrinal estrita. Se aderirmos à doutrina dos dias especiais após a morte, então as etapas mais importantes da existência póstuma de uma pessoa são as seguintes:
Três dias após a morte
O terceiro dia, em que geralmente se realizam os funerais, também tem uma ligação espiritual direta com a Ressurreição de Cristo, no terceiro dia após a Sua morte na cruz, e com a festa da vitória da Vida sobre a morte.
A respeito do terceiro dia de comemoração após a morte, Santo Isidoro de Pelúsio (370-437), por exemplo, diz: “Se quiserem saber sobre o terceiro dia, aqui está a explicação. Na sexta-feira, o Senhor expirou. Isso é um dia. Todo o sábado Ele permaneceu no túmulo, então chegou a noite. Com a chegada do domingo, Ele ressuscitou do túmulo — e esse é aquele dia. Pois, como vocês sabem, a partir da parte, o todo é conhecido. Assim também estabelecemos o costume de comemorar os mortos.”
Alguns autores religiosos, como São Simeão de Tessalônica, escrevem que o terceiro dia simboliza misticamente a fé do falecido e de seus entes queridos na Santíssima Trindade e sua busca pelas três virtudes do Evangelho: fé, esperança e amor. Simboliza também a maneira como uma pessoa age e se expressa em atos, palavras e pensamentos (através do poder de três faculdades internas: razão, emoção e vontade). De fato, na Liturgia de Sétimo Dia, pedimos ao Deus Trino que perdoe os pecados cometidos pelo falecido em atos, palavras e pensamentos.
Acredita-se também que a comemoração do terceiro dia serve para reunir e unir em oração aqueles que reconhecem o mistério da Ressurreição de Cristo em três dias.
Nove dias após a morte
Outro dia de comemoração pelos falecidos na tradição da Igreja é o nono. “O nono dia”, diz São Simeão de Tessalônica, “nos lembra das nove hierarquias de anjos, às quais — como espírito imaterial — nosso ente querido falecido poderia ser incluído.”
Os dias de comemoração existem principalmente para orações fervorosas pelos entes queridos falecidos. São Paisios do Monte Athos compara a morte de um pecador à sobriedade de um bêbado: “Essas pessoas são como bêbados. Elas não entendem o que estão fazendo e não sentem culpa. No entanto, quando morrem, a embriaguez [terrena] se dissipa de suas mentes e elas recobram o juízo. Os olhos de suas almas se abrem e elas reconhecem sua culpa, porque a alma, tendo deixado o corpo, move-se, vê e sente tudo com uma velocidade incompreensível.” A oração é a única esperança que temos para ajudar aqueles que partiram para o outro mundo.
40 dias após a morte
No quadragésimo dia, realiza-se também uma comemoração especial do falecido. Este dia, segundo São Simeão de Tessalônica, surgiu na tradição da Igreja “por causa da Ascensão do Salvador”, que ocorreu no quadragésimo dia após a Sua Ressurreição, que durou três dias. O quadragésimo dia também é mencionado, por exemplo, nas Constituições Apostólicas do século IV (Livro 8, Capítulo 42), que recomendam a comemoração dos mortos não apenas no terceiro e no nono dia, mas também “no quadragésimo dia após a morte, segundo o antigo costume”. Pois foi assim que o povo de Israel lamentou a morte do grande Moisés.
A morte não pode separar aqueles que amam, e a oração torna-se a ponte entre os dois mundos. O quadragésimo dia é um dia de intensa oração pelos falecidos — neste dia, com especial amor, atenção e reverência, pedimos a Deus que perdoe todos os pecados do nosso ente querido e lhe conceda o paraíso. A tradição do sorokoust (celebração litúrgica) — isto é, a comemoração diária do falecido durante a Divina Liturgia — está ligada ao significado especial dos primeiros quarenta dias na vida após a morte. Este período é igualmente importante para os entes queridos, que oram e choram pelo falecido. É um tempo em que os entes queridos devem aceitar a separação e confiar o destino do falecido nas mãos de Deus.
Para onde vai a alma após a morte?
A questão da localização exata da alma, que não deixa de existir após a morte, mas passa para outro estado, não pode ser respondida precisamente em termos terrenos: é impossível precisar essa localização, pois o mundo incorpóreo está além do mundo material que percebemos. Uma resposta mais simples é perguntar: para quem vai a nossa alma? E aqui, de acordo com o ensinamento da Igreja, podemos esperar que, após a nossa morte terrena, a nossa alma vá para o Senhor, para os Seus santos e, claro, para os nossos familiares e amigos falecidos que amamos em vida.
Onde reside a alma após a morte?
Após a morte de uma pessoa, o Senhor decide onde sua alma residirá até o Juízo Final — no Céu ou no Inferno. A Igreja ensina que a decisão do Senhor é unicamente a Sua resposta ao estado e à disposição da alma, e àquilo que ela escolheu com mais frequência durante a vida — luz ou trevas, pecado ou virtude. O Céu e o Inferno não são lugares, mas sim estados da existência póstuma da alma humana, caracterizados pela comunhão com Deus ou pela rebelião contra Ele.
Ao mesmo tempo, os cristãos acreditam que, antes do Juízo Final, todos os mortos serão ressuscitados pelo Senhor e reunidos aos seus corpos.
As provações da alma após a morte
A jornada da alma até o trono de Deus é acompanhada por provações, ou testes da alma. Segundo a Tradição da Igreja, a essência das provações é que os espíritos malignos acusam a alma de vários pecados. A própria palavra “provações” remete à palavra “mytnya”, um local para a cobrança de multas e impostos. O pagamento neste “escritório de alfândega espiritual” são as virtudes do falecido, bem como as orações oferecidas na igreja e em casa por seus entes queridos. É claro que é impossível entender as provações no sentido literal, como algum tipo de tributo oferecido a Deus pelos pecados. Em vez disso, trata-se de um reconhecimento pleno e claro de tudo o que pesou sobre a alma da pessoa durante a vida e que ela não conseguia compreender completamente.
Além disso, o Evangelho contém palavras que nos dão esperança de evitar essas provações: “Quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou não entrará em juízo” (João 5:24).
A vida da alma após a morte
“Para Deus não há mortos”, e aqueles que vivem na Terra e na vida após a morte estão igualmente vivos para Deus. Contudo, a forma como a alma humana viverá após a morte depende diretamente de como vivemos e construímos nossos relacionamentos com Deus e com os outros durante a vida. O destino póstumo da alma é, em essência, uma continuação desses relacionamentos, ou a ausência deles.
Julgamento após a morte
A Igreja ensina que, após a morte, uma pessoa enfrenta um julgamento parcial, que determina o destino da alma até o Juízo Final, após o qual todos os mortos ressuscitarão. Durante o período entre o julgamento parcial e o Juízo Final, o destino da alma pode ser alterado, e meios eficazes para isso são as orações dos entes queridos, as boas ações realizadas em sua memória e a comemoração na Divina Liturgia.
Dias de Comemoração após a morte
A palavra “pominki” significa “comemoração” e refere-se principalmente à oração — ou seja, pedir a Deus que perdoe o falecido por todos os seus pecados e lhe conceda o Reino dos Céus e a vida na presença de Deus. Essa oração é oferecida de maneira especial no terceiro, nono e quadragésimo dia após a morte de uma pessoa. Nesses dias, os cristãos são chamados a ir à igreja, orar de todo o coração por seu ente querido e providenciar um serviço funerário, pedindo à Igreja que ore com eles. O nono e o quadragésimo dia também são frequentemente acompanhados por uma visita ao cemitério e uma refeição memorial. O primeiro e os aniversários subsequentes da morte são considerados dias de comemoração especial em oração.
No entanto, os Santos Padres nos ensinam que a melhor maneira de ajudar nossos irmãos falecidos é através de nossa própria vida cristã e boas ações, como uma extensão do nosso amor por eles. Como disse São Paisios do Monte Athos: “Mais benéfica do que todas as comemorações e serviços fúnebres que possamos realizar para os falecidos será nossa vida atenta, a luta que empreendemos para eliminar nossas falhas e purificar nossas almas.”
O caminho da alma após a morte
É claro que a descrição da jornada da alma após a morte, movendo-se de sua morada terrena para o Trono de Deus e depois para o céu ou inferno, não deve ser tomada literalmente como uma espécie de rota cartográfica predeterminada. A vida após a morte é incompreensível para nossa mente terrena. Como escreve o autor grego contemporâneo Arquimandrita Vasily (Bakkoyannis): “Mesmo que nossa mente fosse onipotente e onisciente, ainda assim não poderia compreender a eternidade. Porque ela, sendo limitada por sua natureza, sempre estabelece instintivamente um limite temporal, um fim, na eternidade. No entanto, a eternidade não tem fim, caso contrário deixaria de ser eternidade!” Nos ensinamentos da Igreja sobre o caminho da alma após a morte, manifesta-se simbolicamente uma verdade espiritual difícil de compreender, a qual reconheceremos e veremos plenamente após o fim de nossa vida terrena.
Pavel Fedosov
tradução de monja Rebeca (Pereira)






