A VIDA ASCÉTICA SIGNIFICA CUIDAR DA SAÚDE ESPIRITUAL E NÃO RESTRINGIR SUA LIBERDADE

Algumas pessoas têm boa saúde física, outras têm saúde frágil. Pessoas sensatas cuidam da saúde, principalmente quando sentem que ela está debilitada. Nos dias de hoje, observamos uma paixão generalizada por esportes e atividades físicas. Com nossa vida urbana sedentária, as pessoas percebem que o exercício é vital para a boa saúde.

Além da saúde física, existe também a saúde da alma, que não é menos importante. Embora as pessoas tendam a se preocupar menos com a alma do que com o corpo. Algumas pessoas resolvem diversos quebra-cabeças para evitar o declínio cognitivo. Outras lutam contra distúrbios emocionais e melancolia crônica. Tornou-se moda participar de treinamentos e seminários psicológicos, que nem sempre têm efeitos positivos, para dizer o mínimo.

Em geral, é claro o que significam saúde física e mental. Mas o que é saúde espiritual? Vamos responder em uma palavra: a saúde espiritual humana é a ausência de paixões. Ou seja, um estado em que a pessoa não é perturbada por nenhuma paixão. Não é coincidência que, em russo, “paixão” seja um parônimo de “sofrimento” [compare: “strast” — paixão, e “stradaniye” — sofrimento. — Trad.] — ou seja, trata-se de uma condição doentia.

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Quais são as paixões mais difundidas e perigosas? Pessoas sensatas desde os tempos antigos tentaram resistir às paixões da vaidade, da embriaguez, da gula, da luxúria, da ira e da cobiça. Em nossos dias, existe a nova paixão do vício em jogos. Na maioria dos casos, trata-se de uma obsessão por jogos de computador, embora alguns ainda sejam fanáticos por jogos de azar tradicionais.

A mais recente paixão que surgiu é o vício em dispositivos eletrônicos. Muitos jovens moradores de cidades estão totalmente concentrados em suas telas e não nos carros enquanto atravessam a rua. Parece que a obsessão por dispositivos eletrônicos é mais forte do que o instinto de autopreservação. Entre outras paixões modernas disseminadas, podemos citar o vício em drogas, o vício em internet e o vício em séries de TV.

A ausência de paixões significa a libertação de todos os tipos de vícios nocivos e de todas as paixões.

Os antigos gregos, embora pagãos, sentiam profundamente o mal das paixões e tentavam combatê-las. Assim, teve origem o ascetismo filosófico na Antiguidade. É uma pena que esses filósofos não conhecessem a revelação bíblica sobre a origem das paixões humanas e não tivessem noção da queda do homem. Isso teria sido de grande ajuda para eles.

Nossos pecados e nossa suscetibilidade às paixões são transmitidos de geração em geração. Qual é a origem das paixões? A natureza das paixões reside no pecado — na desobediência aos mandamentos de Deus. As pessoas foram criadas por Deus. Ele dá os mandamentos como instruções paternas para seus filhos amados e como um aviso de perigo. Deus é a fonte de nossas vidas, nossa saúde e felicidade. O pecado separa o homem de Deus, e a vida se enche de sofrimento e gradualmente se esvai. O ascetismo oferece um remédio seguro para o pecado — o arrependimento.

Como disse Cristo: “Todo aquele que pratica o pecado é servo do pecado” (João 8:34). Eis a revelação fundamental: o pecado tem consequências negativas; ele provoca dependência pecaminosa — isto é, paixão. O pecado pode parecer atraente e sedutor, mas pensemos em suas implicações. Este é um ponto muito importante: suas implicações. O uso de drogas parece atraente inicialmente porque elas provocam sensações emocionais agradáveis. Mas isso é apenas no começo. Em seguida, surge um vício insuportável. Essa é uma doença terrível, um tormento para o viciado em drogas e uma tragédia para seus entes queridos.

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Um pecado que alguém repete incessantemente escraviza a pessoa e se torna sua obsessão — ou seja, uma doença espiritual crônica. O que fazer nesse caso?

Durante uma crise aguda de uma doença crônica, a pessoa chama um médico ou, em casos extremos, uma ambulância. O paciente recebe medicamentos e é hospitalizado se sua vida estiver em perigo. Após a alta hospitalar, o médico recomenda que ele siga um regime para recuperar a saúde, vá a um resort de saúde ou seja registrado como pessoa com deficiência. Enquanto estão em remissão, muitas vezes nos esquecemos de nossas doenças e nos tornamos negligentes. Isso geralmente resulta em novas crises agudas e em mais uma chamada para a ambulância.

A situação com as doenças espirituais é muito semelhante. As pessoas costumam ir à igreja quando enfrentam problemas sérios e provações difíceis em suas vidas, que não conseguem superar. Frequentemente, as pessoas não compreendem as raízes espirituais desses problemas. Elas simplesmente esperam que Deus realize um milagre, que intervenha, após o que “tudo ficará bem”.

Um padre muitas vezes ajuda as pessoas “em regime de emergência”. Os médicos de emergência ouvem as queixas dos pacientes ou de seus familiares, consolam-nos, prestam os primeiros socorros e os encaminham ao hospital, se necessário. Um sacerdote também ouve alguém que chega com sua dor, demonstra compaixão, consola-o e, se for da vontade de Deus, ajuda-o a se apresentar diante de Cristo em oração, nos Sacramentos da Confissão, da Comunhão e da Unção dos Enfermos. Se uma pessoa se abre para o Senhor, Deus é capaz de fazer coisas que nem sequer podemos imaginar.

Com o tempo, o sacerdote explica à pessoa as raízes espirituais de seus problemas. Por exemplo, como a paixão do orgulho está arruinando sua saúde, destruindo sua vida familiar e fazendo com que pessoas que sempre lhe foram próximas o odeiem. Assim, o caminho da cura espiritual gradual se abre diante dela.

Deus nos ajuda neste caminho, mas não automaticamente. Ele ajuda, desde que peçamos Sua ajuda em nossas orações. Os antigos gregos que lutavam contra as paixões pouco sabiam, ou quase nada, sobre isso. É verdade que eles também oravam — mas eram típicos feitiços pagãos, “negociações” com divindades, súplicas cotidianas. E no ascetismo ortodoxo, a luta contra os pecados nos leva a um outro nível espiritual, estabelecendo a harmonia interior, quando as paixões se acalmam. Essa restauração da saúde é chamada de quietude das paixões.

A vida ascética conduz a uma experiência especial de oração, chamada oração do coração. Esta é precisamente a oração de uma pessoa que está se recuperando espiritualmente. Um asceta ortodoxo alcançou a perspectiva da ausência de paixões — a completa recuperação espiritual. A ausência de paixões ortodoxa não é como a indiferença emocional dos filósofos pagãos; pelo contrário, é repleta de amor ativo por Deus e pelo próximo.

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Os melhores representantes dos antigos gregos consideravam a luta contra as paixões o caminho para a sabedoria e a felicidade. Eles sonhavam com a ausência de paixões, embora nunca a tenham alcançado. Em contraste, Cristo mostrou aos seus seguidores um exemplo vivo de uma vida real livre de paixões. E concedeu aos Apóstolos a oportunidade de experimentar a bem-aventurada ausência de paixões.

O que aconteceu depois? No século IV d.C., formou-se uma forte tradição ascética ortodoxa; essa tradição ainda está viva. É um caminho cristão bem trilhado, “passo a passo”, rumo à ausência de paixões. Isso continuou por mais de mil anos. Mas então, a história da luta contra as paixões trouxe uma surpresa desagradável. No século XVIII, as pessoas começaram a romantizar as paixões humanas! Milhares de romances fascinantes foram escritos sobre isso! Muitas pessoas tentaram cultivar as paixões porque viam nas paixões intensas o valor da vida humana!…

A cultura do século XX aproxima as paixões do ídolo moderno de milhões — as energias do subconsciente. Além disso, desenvolveu-se toda uma indústria comercial das paixões: luxúria, ira, gula, desânimo, vaidade…

Além disso, as paixões insaciáveis ​​do século XX incitaram as pessoas a esgotar os recursos naturais do nosso planeta e a poluí-lo sem restrições. Até mesmo cientistas e ativistas públicos, distantes da Igreja, levantaram suas vozes para insistir que devemos usar os recursos naturais com mais sensatez e parcimônia. Começaram a falar, sem rodeios, sobre a necessidade de uma vida ascética. Caso contrário, na insensatez do consumismo, a humanidade ultrapassará um ponto sem retorno, quando não será mais possível restaurar o equilíbrio ecológico. E então, as gerações futuras herdarão um lixão miserável em vez de um planeta belo.

O cultivo das paixões nos levou a um beco sem saída. As paixões prometem prazer instantâneo, mas são desvantajosas a longo prazo. Repetidamente, chegamos à conclusão de que as paixões arruínam nossas vidas. Algum tipo de vida ascética é necessária…

O ascetismo ortodoxo não é um sistema de “proibições rituais” e “tabus medievais infundados”. É a arte da cura espiritual de que precisamos agora. É verdade que existem proibições no ascetismo, mas se você as analisar com atenção, verá que são justificadas. Elas servem para tornar a atmosfera da vida humana saudável e garantir que as pessoas vivam sempre como irmãos, felizes com Deus, seu Pai Celestial.

Sacerdote Pavel Serzhantov
tradução de monja Rebeca (Pereira)

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