Há uma antiga lenda que conta um estranho acontecimento na vida de São Martinho. Certa vez, enquanto lia atentamente as Sagradas Escrituras em sua cela, ouviu uma suave batida na porta. “Entre”, disse o monge. A porta se abriu e diante dele apareceu um belo desconhecido com aparência de águia, em trajes principescos. “Quem é você?”, perguntou São Martinho. “Eu sou Cristo”, respondeu o desconhecido. Contudo, a voz imponente e a postura altiva do visitante não perturbaram o modesto monge, que, lançando-lhe um olhar interrogativo, disse: “E onde estão as feridas dos pregos?” Ele notou, ou seja, a ausência de feridas nas mãos, atributo inevitável do Salvador crucificado. A postura imperial e as ricas vestes do estrangeiro não atestavam sua veracidade. Em suas mãos, cobertas de anéis preciosos, não havia vestígios da crucificação. Apanhado em mentira, em sua intenção maligna, Satanás, pois era isso que ele era, desapareceu rapidamente da cela monástica.

O que essa história nos ensina hoje? É claro que muitas pessoas se escondem em Nome de Cristo, mesmo em nossos dias, mas como podemos distinguir a mentira da verdade? Este santo monge encontrou uma solução para essa questão: ele buscou vestígios da crucificação na ilusão da glória humana. Sem a morte do Salvador na cruz, sem o Seu sacrifício redentor, o Seu Evangelho perderia todo o seu poder. A Cruz de Cristo é o fundamento e o centro de onde emanam raios brilhantes de paz, alegria e esperança. Aquilo que não traz os vestígios do Salvador crucificado, que não está imbuído do espírito da Cruz e contradiz o ensinamento do Evangelho, não pode ser chamado pelo Nome de Cristo, não pode pertencer a Ele, nem pode emanar d’Ele. “Amados, não acreditem em qualquer espírito, mas ponham os espíritos à prova para ver se procedem de Deus” (1 João 4:1), adverte São João o Teólogo. Portanto, se não tivermos sabedoria suficiente, seremos facilmente seduzidos por qualquer um e levados para qualquer lugar. Observemos, então, quem hoje tem as mãos ensanguentadas até os cotovelos, embora não haja um único ferimento nelas, e quem tem as mãos com feridas de pregos que não pararam de sangrar até hoje? E é uma verdadeira pena que nós, sérvios, não lemos as Sagradas Escrituras, porque se as lêssemos, saberíamos que hoje, como naquela época, só temos uma escolha: Cristo ou Barrabás? E faremos essa escolha, e conforme a nossa escolha, assim será para nós.

É claro que sabemos que Cristo é o amor encarnado e que, desse amor crucificado na cruz, resplandeceram sobre nós a liberdade eterna e imperecível, a alegria, a vida, a salvação, a esperança e todas as virtudes possíveis, despertando-nos das trevas do mal! Sabemos também que Ele não fez o Seu maior sacrifício na velhice e na plenitude da vida, quando de alguma forma também era hora de morrer, mas no início da Sua pregação pública, quando era jovem! Como é possível, então, que alguém que se diz cristão e frequenta a igreja seja incapaz de ver os reflexos de tudo isso em nossos dias, todo o sacrifício e sofrimento que essas nossas crianças, todos esses jovens, esses nossos estudantes, se entregam desinteressadamente e despertam em todos nós o que há de mais belo no homem, precisamente aquela liberdade, alegria, vida e esperança que resplandeceram para nós desde o Gólgota! Quem não consegue ver e sentir isso agora, pode se autodenominar o que quiser, mas certamente não tem nada de humano e cristão em si, e muito provavelmente jamais terá.

Com a Tua Cruz, ó Cristo, destrói agora todo esse poder infernal!


Stanimir Gundelj
tradução de monja Rebeca (Pereira)

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