ELOGIO A SÃO JOÃO (MAXIMOVICH)
O ideal do monasticismo ortodoxo — com oração solitária e silêncio — é pouco compreendido no mundo ocidental. A Europa prática e a América calculista querem medir até mesmo a santidade em termos de “benefício social”…
Mas o século XX mudou muita coisa — tanto no mapa-múndi quanto na mentalidade das pessoas. Quando uma onda de emigrantes cruzou as fronteiras do antigo Império Russo, preservando ícones russos e construindo igrejas ortodoxas, o mundo se deparou com a Ortodoxia. Nosso compatriota, São João de Xangai e São Francisco, tornou-se uma verdadeira revelação da Ortodoxia para o mundo. Com sua vida notável, ele disse muito à Europa, à América e à China — sobre amor, misericórdia, esforço monástico. E sobre a verdadeira Igreja, à qual ele pertencia com toda a sua alma.
É fácil escrever e falar sobre pecadores, já que “eu sou o principal deles”. Em parte experiência, em parte imaginação, nos ajudará a refletir sobre qualquer situação nessa área da vida onde a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida reinam supremas. É muito mais difícil falar e escrever sobre santos. Não há experiência suficiente. Corremos o risco de cair em um deleite infantil e elogios desenfreados, ou de sucumbir à dúvida. Esses dois extremos se cruzam e até se fundem no mundo espiritual, onde o olho terreno nada pode ver. É precisamente a dúvida que gosta de se esconder atrás de frases pomposas e laudatórias, e são aqueles que amam ditirambos que correm maior risco de cair na descrença.
Elogiar um santo não é um testemunho de lealdade, como os poemas sobre um líder que escrevemos para evitar sermos fuzilados. Por que nossas palavras servem ao próprio santo? Se falamos de um homem santo, é apenas para revelar, através de sua experiência, aos fiéis da Igreja, alguma faceta importante da vida espiritual. Talvez várias facetas, mas elas devem ser relevantes, não apenas para exibição ou para o benefício de um erudito, mas para a vida.
***
Então decidi falar sobre João (Maximovich) e, como sempre nessas situações, fico em silêncio por um tempo, ouvindo a mim mesmo. Minha mente está tranquila, não por falta de pensamentos, mas pela admiração diante da magnitude de sua personalidade. Minhas mãos tremem levemente diante da enormidade da tarefa. Não posso dizer tudo, então devo dizer o mais importante. O quê?
Começarei pela Liturgia. “Ele é inteiramente santificado por Deus através do sagrado rito dos Puríssimos Mistérios” — assim se diz de João no troparion. Ele servia com frequência, quase diariamente, independentemente do número de pessoas na igreja. Ele amava servir como um simples sacerdote e consumir os Santos Dons após a Liturgia. Ele os consumia por um longo tempo, durante o qual rezava sobre o Sangue de Jesus. Só Deus conhece o fervor dessas orações. Lembro-me de um livro sobre Paisios, o Athonita, onde se conta que um certo sacerdote sempre chorava ao receber a Sagrada Comunhão e se incomodava com as lágrimas “desagradáveis” que pingavam no cálice. O padre Paisios disse-lhe: “Reze por mim, para que o Senhor me conceda que eu não tenha que engolir suas lágrimas ‘desagradáveis'”. Aparentemente, o bispo João tinha algo semelhante, e até mais. De qualquer forma, ele não se afastava do altar por muito tempo. Ainda conseguia ler o Evangelho, conseguia rezar o cordão de oração. Ao sair do santuário, podia dizer com um suspiro: “Eu realmente não quero deixar a igreja”.
***
Cada Liturgia é celebrada “por todos e para todos”. Cada Liturgia é um evento de significado universal. No serviço, toda a história do mundo é condensada ao tamanho de um ponto geométrico. Tanto o passado quanto o futuro do mundo são desenrolados para dentro, como um pergaminho, como o céu no Apocalipse, em direção ao centro, e o celebrante vê ambos juntos. Aqui está uma das citações da ação de graças: “Lembrando tudo o que nos aconteceu: a Cruz, o Túmulo, a Ressurreição de três dias, a Ascensão aos céus, o Trono à Direita, a Segunda e Gloriosa Vinda”. A Segunda Vinda também é lembrada! O sacerdote ou bispo celebrante transcende as convenções do tempo e se torna um participante ativo em toda a história da humanidade.
Todos os acólitos são chamados a isso, embora nem todos compreendam ou sintam. Assim como muitos se banham no mar, apenas alguns mergulham nas profundezas e recuperam tesouros do fundo. João mergulhou nas profundezas e recuperou verdadeiros tesouros.
***
Pode-se afirmar, sem receio algum, que ele é um bispo pan-ortodoxo. Seu coração estava repleto não apenas das preocupações e problemas da comunidade russa emigrada, nem apenas de reflexões sobre o destino de sua pátria abandonada, mas também da preocupação com a própria Ortodoxia. Em sua busca pela profunda unidade dos cristãos em oração e fé, o Arcebispo João desenterrou e limpou poços repletos das areias do esquecimento histórico. Trata-se da memória daqueles santos que brilharam no Ocidente antes do Grande Cisma do século XI. São Dunstano, São Columba, Ansgar de Bremen, Patrício da Irlanda e muitos outros santos antigos do Ocidente são representantes da genuína Ortodoxia universal, cujo esquecimento empobrece enormemente nosso senso de espiritualidade. O Bispo João buscou e republicou suas vidas, encontrou orações a eles dirigidas, visitou os locais de suas labutas e sofrimentos e adquiriu fragmentos de suas relíquias. Este trabalho precisa ser continuado, e seus frutos serão surpreendentes. Mas começar é sempre difícil. Começar é ousar. Começar significa vencer a inércia de séculos e dissipar a doce névoa do isolamento local. Isso requer um espírito apostólico e uma adesão orante à Cabeça da Igreja — Cristo.
***
Poucos são capazes de orar como Vladyka. Em seus trabalhos monásticos, ele emulava seu compatriota, Meletios de Kharkov, que passava as noites em pé, orando, e dormia apenas sentado em uma cadeira. Em nossa época de relaxamento, em nossa era de fascínio pela paz e conforto materiais, tais trabalhos ascéticosparecem simplesmente impossíveis. Mas eles existiram. Muitos testemunham isso. O Metropolita Antônio (Khrapovitsky) ficou maravilhado com o espírito ascético do Hieromonge João, então ainda monge, e o chamou de anjo em carne e osso. Um sol radiante da terra sérvia, um grande homem de sabedoria e ele próprio um asceta, o Bispo Nikolai (Velimirovich) apontou para João (Maximovich) quando questionado se havia santos hoje semelhantes aos antigos.
O primeiro amor do futuro asceta foram as Vidas dos Santos. Ele os leu durante toda a sua vida e os conhecia tão bem como se tivesse vivido entre eles. Além disso, desde o momento em que fez seus votos monásticos, ele nunca se separou da Bíblia. O santo podia sempre ser encontrado lendo atentamente as Sagradas Escrituras em sua cela. Ele procurava ler ou ouvir todo o ciclo de serviços diários. Onde quer que estivesse — em um avião ou em um carro — às três horas da tarde, ele sempre abria seu livro de horas de viagem e lia a nona hora. O que muitos disseram sobre o Padre João de Kronstadt em memórias e elogios póstumos pode ser dito dele: ele vivia na Igreja. Ou seja, ele não frequentava a igreja, não trabalhava na Igreja, não vivia às custas da Igreja e não a respeitava de longe. Ele se esforçava para viver a Igreja a cada instante e tornou-se inseparável dela.
***
De etnia, ucraniano; de vida, exilado e cidadão do mundo. Em espírito, era um santo ortodoxo russo, bem como um monge asceta e até mesmo um louco por Cristo, combinando em sua curta vida quase tudo o que melhor se associa ao conceito de Ortodoxia. Pela vontade de Deus, o Bispo João revelou ao mundo ocidental essa riqueza da Ortodoxia em geral e da Ortodoxia Russa em particular.
A consciência secular ocidental exige benefícios práticos do Cristianismo, que entende como serviço social. Essa consciência secular não acredita na necessidade do ascetismo e no poder da oração, considerando-os supérfluos. O Bispo João demonstrou em si mesmo precisamente a Ortodoxia como ascetismo. Ele reviveu e tornou visível a própria história da Igreja. Ao mesmo tempo, a caridade, tão amada pelos filantropos não crentes, também se manifestou por meio dele. O Arcebispo João fundou orfanatos, visitava hospitais todos os domingos, organizava sopas para os pobres e até resgatava bebês de pais desamparados nas favelas de Xangai, providenciando posteriormente sua criação. Tudo o que se relacionava com a misericórdia fluía de seus trabalhos, como uma correnteza forte e fresca de uma nascente. Mas essa era uma misericórdia verdadeiramente milagrosa, nascida do ascetismo e da oração noturna, não do sentimentalismo ou do desejo de louvor.
***
O número de curas pelas orações do Bispo João é difícil de contar. Ao mesmo tempo, como um verdadeiro discípulo de Cristo, o Bispo João não privava os não-crentes da oração. Ao visitar hospitais, ele podia, a pedido dos familiares ou do próprio paciente, parar por um longo tempo para orar ao lado do leito de um católico, protestante ou judeu. Muitas vezes, pacientes antes considerados sem esperança recebiam alta do hospital no dia seguinte, para o espanto indescritível de todos. Mas, como sempre acontece com os santos, seu amor não se estendia à indiferença em matéria de religião. João de Xangai se opunha a casamentos mistos e à educação de jovens ortodoxos em escolas heterodoxas, pois isso ameaçava a perda da fé. Ele detestava novos costumes, como a celebração do Halloween, vendo neles um grau inaceitável de secularização. Em teologia, ele não era nem conservador nem liberal. Sua teologia era vibrante porque era litúrgica. Havia um sermão em cada culto. Suas mensagens ao rebanho não continham uma única palavra supérflua; tudo era direto ao ponto, tudo era clareza e rigor, equilibrados pelo amor. Um exemplo é significativo. Tendo sido convidado para um colégio jesuíta, o bispo parou diante de um ícone do Arcanjo Miguel. “Este é o nosso padroeiro”, disse o padre local. “Vocês apenas pensam que ele é o padroeiro de vocês”, respondeu o bispo. Conhecendo a proximidade de João com a vida celestial, é fácil entender que essas não eram apenas palavras. A fé dos Santos Padres, a fé de sua pátria profanada e distante, a Ortodoxia, era para ele a única Verdade. O que é especialmente comovente é que toda a vida do santo foi um testemunho disso.
***
Imitar João é difícil. Na maioria das vezes, é quase impossível. Você pode dar o primeiro passo, começar, mas depois se cansa, diminui o ritmo e volta ao ponto de partida. O que fazer? Não só é impossível para todos serem Mozart, como também é impossível para todos sequer tocarem Mozart. Que Deus permita ao menos ouvir Mozart, o que para muitos já é uma meta inatingível. O mesmo se aplica ao ascetismo.
O próprio Vladyka João reconhecia a impossibilidade de qualquer clérigo ou monge imitar seu modo de vida. Ele chegou a obrigar um jovem sacerdote, que se esforçava para cumprir o jejum mais rigoroso, a comer linguiça, ensinando-lhe assim que o jejum não é um fim, mas um meio. Mas não é apenas por imitação que se deve conhecer a vida dos ascetas. Há outros frutos gratificantes.
Por exemplo, este pensamento: A Igreja está viva! Tendo cruzado o terceiro milênio de sua história terrena, a Igreja, que dá à luz luminares como João Batista, está viva! Se conhecemos santos como João de Xangai, então duvidar da graça do Espírito Santo que alimenta o Corpo da Igreja é um pecado mortal. Temos fontes de sabedoria das quais podemos beber; temos fontes nas quais podemos nos lavar e ser purificados. Podemos ser brilhantes e fortes, pacientes e alegres, cada um à sua medida. Podemos beber sabedoria e extrair força das mesmas fontes que o sempre memorável bispo: da Divina Liturgia, das Escrituras e da Tradição, da devoção à Igreja errante e da comunhão com a Igreja Triunfante.
Arcipreste Andrey Tkachev
tradução de monja Rebeca (Pereira)








