A HISTÓRIA DA SALVAÇÃO NO LIVRO DE JONAS
O profeta Jonas é mais conhecido pelos seus três dias no ventre do grande peixe, o que prefigurou claramente os três dias do Senhor no ventre da terra. Assim como Jonas foi então vomitado pela besta, Cristo ressuscitou. O próprio Senhor fala desse “sinal do profeta Jonas” cinco vezes nos Evangelhos de Mateus e Lucas, e todo o livro do profeta Jonas é lido na Divina Liturgia do Sábado Santo.
Mas cada palavra das Escrituras é divinamente inspirada por Deus, e há outras imagens e lições que podemos extrair do breve livro do profeta Jonas.
Assim como a vida de Jonas se conecta à de Cristo Encarnado, ela também guarda paralelos com eventos anteriores e prefigura eventos posteriores à Ressurreição. As Escrituras nos mostram que Deus não é simplesmente o autor de simbolismo literário; na verdade, Ele preenche toda a criação e a história com um simbolismo que revela a Sua presença e a verdade da fé cristã. A Escritura retrata a história simbolicamente porque a providência de Deus guia a história simbolicamente.
Sodoma, Gomorra e Nínive
O livro de Jonas começa assim: “Veio a palavra do SENHOR a Jonas, filho de Amitai” (Jn 1,1), e essa fórmula se repete após a desventura de Jonas no mar (3,1). Deus chama Jonas para pregar o arrependimento a Nínive, pois a maldade deles “subiu à minha presença” (1,2).
Primeiramente, é notável que o Senhor não fale simplesmente com Jonas; em vez disso, a palavra do SENHOR veio a Jonas, o que sugere, no mínimo, uma existência “distinta” da palavra do Senhor. Como cristãos que desfrutam da plenitude da revelação de Deus, podemos ver indícios da Santíssima Trindade já no Antigo Testamento. Como o Evangelho de João nos diz explicitamente, Cristo é o Verbo hipostático de Deus e, segundo a Tradição Ortodoxa, foi o Cristo pré-encarnado quem apareceu aos profetas.
Da mesma forma, quando três anjos visitam Abraão no Carvalho de Manre, somos informados de que o SENHOR lhe apareceu (Gn 18:1). Mais tarde, o SENHOR fala dos pecados graves de Sodoma e Gomorra, cujo clamor é grande e chegou até Ele (18:20-21).
Assim, vemos que Nínive é uma nova Sodoma e Gomorra; contudo, enquanto não se encontravam sequer dez justos em Sodoma e Gomorra — e o pecado persistente delas levou à sua destruição —, toda a cidade de Nínive estava pronta para jejuar e arrepender-se, desde o rei até os animais, e por isso foi poupada (e, de fato, por ter sido poupada, Nínive, como capital do Império Assírio, tornou-se mais tarde o instrumento pelo qual os Reinos de Israel e Judá foram devastados).
O esvaziamento do rei
Jonas 3:6-7 nos mostra que o rei de Nínive não apenas proclamou um jejum para toda a cidade, mas ele mesmo levantou-se de seu trono, despiu-se de seu manto, cobriu-se de pano de saco e assentou-se sobre cinzas. O rei não permaneceu distante de seu povo, mas identificou-se com eles e uniu-se a eles em sua humilhação.
Da mesma forma, Cristo, o Rei, deixou de lado a Sua glória, revestiu-se da forma de servo e tornou-se semelhante aos homens (Fp 2:7), que são feitos do pó da terra.
Um outro Adão
Retornando ao chamado inicial de Deus a Jonas, vemos que ele foge da presença do SENHOR. Isso remete claramente a Adão e Eva, que ouviram a voz do SENHOR Deus, que passeava no jardim pela viração do dia, e esconderam-se da presença do SENHOR Deus (Gn 3:8). Assim como Jonas foi engolido pelo grande peixe por ter fugido de Deus — uma imagem da morte —, também Adão e Eva, e todos nós depois deles, começamos a morrer; tal fato é frequentemente retratado nas Escrituras como ser engolido pela terra.2
Por outro lado, Cristo desceu ao ventre da terra não porque tivesse fugido de Deus, mas precisamente porque obedeceu a Deus perfeitamente. Assim, embora tenha morrido em sua natureza humana, Cristo não foi engolido pela morte; pelo contrário, Ele engoliu a morte em vitória (Is 25,8).
Que resgata a tua vida da corrupção
Embora Jonas seja um novo Adão — na medida em que imita o desejo de Adão de se esconder de Deus, como já mencionamos —, a sua vida também prefigura a de Cristo, que é o Novo Adão por trazer vida em vez de morte.
Após ser libertado do ventre do grande peixe, o profeta Jonas proclama: “Fizeste subir a minha vida da corrupção, ó SENHOR, meu Deus” (Jonas 2:6). Isso ecoa o Salmo 102:4, que glorifica o Deus “que resgata a tua vida da corrupção” e que é cantado como a Primeira Antífona na Divina Liturgia — a celebração da Ressurreição do Senhor.
Enquanto Jonas foi resgatado da corrupção, Deus não permitiu que o Seu Santo visse a corrupção de forma alguma, como pregou o santo Apóstolo Paulo ao citar outro Salmo (15:10). Sendo o Senhor da Glória, o Corpo de Cristo não sofreu qualquer corrupção, embora tenha permanecido no sepulcro.
Acalmando o mar
A causa direta de Jonas ser lançado ao mar e engolido pela besta é a grande tempestade enviada pelo Senhor, que ameaça a vida de todos a bordo do navio que navegava para Társis. Quando o mestre do navio vê que Jonas dorme enquanto todos os outros marinheiros e passageiros clamam aos seus respectivos deuses, ele diz: “Que fazes tu, ó dormente? Levanta-te, invoca o teu Deus; talvez assim Deus se lembre de nós, para que não pereçamos” (Jonas 1:4-6).
Há também uma grande tempestade na vida do Salvador, quando Ele atravessa o Mar da Galileia com os Seus discípulos (Mt 8:23-27; Mc 4:35-41; Lc 8:22-25). Cristo também está dormindo no barco e precisa ser despertado pelos outros, que igualmente temem por suas vidas, assim como os homens que navegavam com Jonas. Mas, enquanto aqueles homens imploraram ao profeta Jonas que clamasse ao seu Deus, os discípulos aproximam-se de Cristo de maneira diferente: não Lhe pedem que clame a Deus, mas sim que Ele próprio os salve.
Cristo acalma a tempestade, e os discípulos se maravilham, dizendo: “Quem é este, que até os ventos e o mar lhe obedecem?” (Mt 8,27) — tal como o mar obedecera ao Senhor nos tempos de Jonas, levando aqueles homens a se maravilharem e a temerem diante d’Ele (Jn 1,15-16).
Um sacrifício voluntário
E, assim como Jonas se oferece voluntariamente em sacrifício (Jn 1,12) e desce ao ventre do peixe, também Cristo é o nosso sacrifício, descendo voluntariamente ao ventre da terra.3
A Grande Comissão
Por fim, podemos observar vários pontos em que a história do profeta Jonas aponta para a Grande Comissão, dada pelo Senhor aos Seus santos Apóstolos (Mt 28,19-20).
O chamado de Deus a Jonas para que se levantasse e fosse a Nínive (Jonas 1:2) guarda um paralelo com o chamado aos discípulos para que fossem e ensinassem todas as nações (Mateus 28:19). E a mensagem de ambos é a mesma: o arrependimento. No dia de Pentecostes, o santo Apóstolo Pedro clama: “Arrependam-se e sejam batizados” (Atos 2:38).
O livramento de Jonas das profundezas das águas e da corrupção e “morte” no ventre do peixe prefigura o Batismo pregado por São Pedro, o qual nos mergulha na morte de Cristo nas águas do Sacramento e nos ressuscita para uma vida nova, oferecendo-nos libertação do pecado e da morte. Após passar por esse tipo de batismo, Jonas está pronto para obedecer ao Senhor.
Embora inicialmente rejeite o chamado de Deus, ele acaba pregando a palavra de Deus ao povo de Nínive; eles a acolhem e são poupados da destruição. Da mesma forma, embora os Apóstolos tenham abandonado e traído o Senhor quando Ele foi entregue à morte, eles acabaram atendendo ao Seu chamado e pregando a palavra de Deus por todo o mundo conhecido, convertendo milhões que, assim, foram poupados da destruição espiritual.
Por fim, a palavra do Senhor aos Apóstolos — “estou convosco todos os dias, até o fim dos tempos” (Mateus 28:20) — é antecipada no cuidado constante de Deus para com Jonas, tanto quando o profeta O desobedece quanto quando Lhe obedece, e até mesmo quando ele está abatido e suplica ao Senhor que lhe tire a vida (Jonas 4:3).
Assim, vemos que toda a história da salvação está entrelaçada na vida do profeta Jonas, remetendo a Adão e apontando para Cristo e os Apóstolos, bem como para a trajetória de cada um de nós na Igreja. Quando se trata do Deus da história, o simbolismo não é um mero recurso literário, mas sim a manifestação da presença e da providência de Deus, chamando-nos à fé e à salvação.
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1 Esse paralelo não deve ser levado ao extremo, a ponto de sugerir que Cristo apenas aparentou assumir a natureza humana. Filipenses 2:7 nos diz que Cristo assumiu a forma de servo; em nossa Teologia Ortodoxa, entendemos isso como significando que Ele verdadeiramente se tornou homem, semelhante a nós em tudo, exceto no pecado (cf. Hb 2:17 e 4:15).
2 São Metódio de Olimpo ensina: “Mas Jonas, que fugiu da presença de Deus, é ele próprio o primeiro homem que, tendo transgredido a lei, fugiu para não ser visto despojado da imortalidade, tendo perdido, pelo pecado, a sua confiança na Divindade”. Veja: https://www.johnsanidopoulos.com/2009/09/prophet-jonah-in-writings-of-church.html.
3 São Cirilo de Jerusalém escreve: E, ao examinarmos a história de Jonas, vemos que a força da semelhança é grande. Jesus foi enviado para pregar o arrependimento; Jonas também foi enviado: mas, enquanto um fugiu, sem saber o que haveria de acontecer, o outro veio voluntariamente para proporcionar o arrependimento que conduz à salvação. Jonas dormia no navio e roncava em meio ao mar revolto; enquanto Jesus também dormia, o mar — segundo a providência de Deus — começou a se agitar, para demonstrar, na sequência, o poder daquele que dormia. Ao primeiro disseram: “Por que dormes? Levanta-te, invoca o teu Deus, para que Deus nos salve”; mas, no outro caso, dizem ao Mestre: “Senhor, salva-nos”. Lá disseram: “Invoca o teu Deus”; aqui dizem: “Tu, salva-nos”. Mas um diz: “Tomai-me e lançai-me ao mar; assim o mar se acalmará para vós”; o outro, Ele mesmo repreendeu os ventos e o mar, e fez-se grande bonança. Um foi lançado no ventre de uma baleia; mas o outro desceu por Sua própria vontade para onde está a baleia invisível da morte. E Ele desceu por Sua própria vontade, para que a morte devolvesse aqueles que havia devorado, conforme está escrito: “Eu os resgatarei do poder da sepultura; e da mão da morte eu os redimirei”.
Jesse Dominick
tradução de monja Rebeca (Pereira)







