UM BREVE GUIA PARA A CONFISSÃO – PARTE 3

PREPARAÇÃO PARA A CONFISSÃO

Não há homem que viva sem pecar, como diz uma oração da Igreja. Isso, porém, deve ser compreendido corretamente: como um chamado para nos purificarmos do pecado o mais completamente possível, para repetirmos os pecados o mínimo possível no futuro e jamais repetirmos pecados mortais depois de os termos confessado. Quando adquirimos essa consciência da necessidade de purificação e, então, manifestamos um arrependimento ativo, é hora de nos prepararmos para a Confissão e procurarmos um sacerdote experiente. Comecemos, portanto, pela preparação para a Confissão.

A preparação é sempre necessária para a Confissão, pois esta é (e enfatizemos isso mais uma vez) um ato terapêutico destinado a purificar e curar as feridas da nossa alma, para que não infeccionem, apodreçam e — Deus nos livre — sejam levadas para a eternidade nesse estado, quando não poderão mais ser curadas. Nesse sentido, ao nos prepararmos para a Confissão, devemos ter em mente que o sacerdote não é um policial que nos interroga para estabelecer algum tipo de culpa, nem um juiz que pronuncia punição por uma ofensa comprovada, mas um médico que escuta atentamente a natureza da ferida pecaminosa da alma, para que, consequentemente, possa limpá-la, aplicar-lhe bálsamo, enfaixá-la e, então, oferecer terapia espiritual concreta pela qual nós mesmos possamos continuar a tratar essa ferida. Aqui, a analogia com a medicina é quase completa, sendo o sacerdote apenas um servo do Verdadeiro Médico da alma e do corpo — o Senhor Jesus Cristo. Portanto, é muito importante encontrar um sacerdote que tenha experiência espiritual, para que ele possa tratar adequadamente as feridas de nossa alma.

Todo sacerdote deve ser tratado com o devido respeito, porque todo sacerdote (desde que seja canônico e professe a verdadeira fé) tem a graça de realizar ritos sagrados. Contudo, nem todo sacerdote é também um Pai Espiritual, pois esse é um dom especial e, em parte, também requer experiência. Assim, é aconselhável escolher o Confessor com cuidado. Por outro lado, isso não significa que se deva ser excessivamente seletivo quanto ao local da Confissão, pois, no fim, corre-se o risco de permanecer sem confessar. Muitas vezes, basta recorrer ao pároco, a quem a Igreja confiou o cuidado daquela paróquia. Se ele for apenas um “clínico geral”, isso já será suficiente para curar a maioria das feridas da alma, enquanto, para as mais graves e complexas, ele nos encaminhará a um “médico especialista” com maior experiência espiritual.

Todos nós já precisamos, pelo menos uma vez na vida, ir a um exame médico de rotina, e sabemos que às vezes é desejável, e outras vezes necessário, ir preparado com exames laboratoriais e tudo o mais que possa ajudar o médico a chegar a um diagnóstico o mais preciso possível e a prescrever o tratamento adequado. Também entendemos que, durante esse exame, descrevemos nossa condição médica, nossos sintomas e tudo o que acreditamos que o médico deva saber — tudo o que facilite seu trabalho e o permita chegar ao melhor diagnóstico possível. Se o médico tiver alguma dúvida adicional, ele a terá, e nós responderemos sinceramente — para nosso próprio benefício.

Agora, imaginemos um cenário completamente diferente: um paciente chega ao consultório médico totalmente despreparado, sem trazer nenhum dos documentos necessários e, quando questionado sobre seu estado de saúde, fala apenas em termos vagos — talvez sinta alguma dor, embora ele próprio não tenha certeza se dói ou onde dói — e, por outro lado, sabe precisamente quem em sua família, parentes e vizinhos tem qual doença, enquanto ele próprio (ao contrário deles) é, em princípio, saudável e sofre apenas de pequenas queixas cotidianas. Quando perguntado por que veio para o exame e marcou uma consulta que outros estão aguardando, o paciente responde que veio apenas para cumprir uma exigência formal de fazer um check-up anual (em outras palavras, veio apenas por formalidade). Por mais bizarra que essa situação possa parecer, algo semelhante ocorre todos os dias na vida da Igreja quando se trata de Confissão.

Se fizéssemos uma pesquisa entre os padres e lhes perguntássemos qual é a maior dificuldade em sua vocação, quase certamente descobriríamos que, na maioria dos casos, a resposta seria a Confissão. Mas não por causa dos pecadores que verdadeiramente se arrependem, isto é, daqueles que vêm preparados para a Confissão e buscam a cura para a sua alma; antes, por causa dos autoproclamados “justos”, que vêm se confessar despreparados, ou para se vangloriar da sua suposta saúde espiritual, ou para falar das doenças espirituais dos seus vizinhos (ou tudo isso junto). Contudo, quando uma pessoa vem preparada para confessar-se sinceramente, o sacerdote fica completamente desimpedido, e tudo o que lhe resta é escutar atentamente, em oração interior, aquele que está diante dele, oferecer aconselhamento espiritual concreto e ler a oração de absolvição pelos pecados específicos que foram confessados.

A situação mais difícil para um sacerdote é quando ele precisa gastar a maior parte de sua energia tentando persuadir um fiel de que realmente deveria confessar algo concreto, visto que já se confessou, e que não deveria falar sobre os pecados dos outros. Após apenas uma dessas provaçãos com um presunçoso, o chamado “justo”, que não sente necessidade de arrependimento, mas mesmo assim se confessou, o sacerdote geralmente perde tanta energia quanto precisaria para confessar dez penitentes sinceros, e não raro sente necessidade de trocar a camisa que usa por baixo da batina, porque muitas vezes está encharcada de suor por “lutar” com o orgulhoso e autoproclamado “justo” (razão pela qual, em tais situações, o sacerdote também precisa de um copo d’água para se recuperar um pouco). Portanto, se alguém se confessa, não deve se permitir o luxo de exigir que o sacerdote o convença a confessar — ​​tal situação é, em si, bizarra.

Se realmente não sabemos o que devemos confessar, mas ainda assim sentimos a necessidade de nos confessar, então, de início, devemos nos perguntar quem são as pessoas que melhor nos conhecem e o que elas acreditam que precisa ser corrigido em nós. O ambiente familiar, em particular, é um bom ponto de partida para a autocrítica e, portanto, para começar, podemos nos fazer algumas perguntas iniciais enquanto nos preparamos para a Confissão: Honro meus pais? Dou um bom exemplo aos meus filhos? Cumpro meus deveres conjugais conscienciosamente? Permaneço fiel ao meu cônjuge? Essas questões são compreendidas por quase todos, e as pessoas geralmente as reconhecem em si mesmas.

Há ainda outro critério simples que pode nos ajudar desde o início a nos prepararmos, mesmo antes de abordarmos as questões mais profundas da Confissão. Ele diz respeito a se somos misericordiosos ou se somos governados pela avareza, pelo desprezo pelos pobres, pela insensibilidade, pela dureza de coração e pela indiferença ao sofrimento alheio. Um cristão é alguém que, além de professar a sua fé, prova-se a si mesmo pelas obras de misericórdia. Ademais, o Senhor Jesus Cristo nos adverte claramente que a misericórdia será o critério fundamental quando formos julgados no Juízo Final, quando nos perguntarão se alimentamos os famintos, demos de beber aos sedentos e visitamos os enfermos e os presos (cf. Mt 25,31-46). Estas são apenas algumas das perguntas que podemos nos fazer inicialmente, caso realmente não saibamos por onde começar.

É sempre aconselhável consultar um manual sobre Confissão antes da própria Confissão, pois isso esclarecerá o que deve e o que não deve ser confessado, permitindo uma reflexão mais profunda. Ao saber o que precisa confessar, a pessoa deve ser prática e combinar com o pároco ou Pai Espiritual um horário para a Confissão. Isso porque uma confissão completa exige tempo e não pode ser realizada presumindo-se que o Padre estará disponível a qualquer momento. É preciso dar ao Padre tempo suficiente para se organizar, assim como se faz com um médico, usando analogias simples e compreensíveis do cotidiano. Além disso, o horário marcado para a confissão deve ser aproveitado da melhor maneira possível. Portanto, ao nos confessarmos, devemos fazê-lo exclusivamente para a Confissão e nada mais. Se sentirmos necessidade de conversar com o Padre sobre diversos assuntos, inclusive questões espirituais, devemos reservar outro dia e outro contexto para isso. É precisamente neste ponto que algo deve ser dito sobre a Confissão correta e incorreta no que diz respeito à Confissão de pecados específicos.


Rev. Sacerdote Dr. Oliver Subotich
tradução de monja Rebeca (Pereira

Facebook
Twitter
WhatsApp
Telegram
Picture of Aurora Ortodoxia

Aurora Ortodoxia

Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

Picture of Aurora Ortodoxia

Aurora Ortodoxia

Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

2 visualizações

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Recentes