Conversar sobre fé com alguém que não crê na existência de Deus e explica o mundo puramente através de uma lente materialista pode ser desafiador. Isso é especialmente verdadeiro quando nossos interlocutores entendem não apenas a origem do mundo e da humanidade de forma diferente, mas também os próprios fundamentos do conhecimento, da moral e do sentido da vida. No entanto, uma conversa cristã não é um debate que precisa ser vencido a qualquer custo. Seu objetivo, antes de tudo, é ouvir a outra pessoa, entender quais perguntas e convicções estão por trás de seus pontos de vista e testemunhar silenciosamente o que a Igreja crê. Como devemos falar de Deus com materialistas convictos? Pedimos a alguns sacerdotes abençoados com o dom da palavra e longos anos de serviço no altar de Deus que compartilhassem suas experiências.
Arcipreste Igor Fomin, professor da Academia Teológica Sretensky e reitor da Igreja de Santo Alexandre Nevsky no Instituto Estatal de Relações Internacionais de Moscou (MGIMO):
Um materialista também é um crente. Ele acredita que Deus não existe e que tudo é regido pelo acaso. Ele defenderá sua posição, e nós defenderemos a nossa como cristãos ortodoxos que creem em Deus, na Santíssima Trindade. E, muitas vezes, essas posições são, obviamente, diametralmente opostas. No entanto, a posição do ateu se baseia na negação daquilo que temos. Não se baseia em seus próprios argumentos e observações porque, para ele, Deus não existe — e não se pode construir uma posição sobre algo que não existe. Só se pode construí-la sobre a negação de quem ou do que se está rejeitando. Isso significa que um ateu deve primeiro reconhecer que Aquele de quem se fala existe, e só então tentar provar Sua inexistência. Este é provavelmente o único ponto de vista a partir do qual podemos dialogar com um ateu.
Naturalmente, nosso objetivo não é convencê-lo da existência de Deus. Nossa posição é que devemos dar a ele a oportunidade de perceber, ver e refletir sobre isso por si mesmo e, claro, tomar sua própria decisão. Da perspectiva dele, isso significa plantar sementes de dúvida sobre suas próprias crenças, mas da nossa, significa abrir o véu para uma compreensão mais profunda de Deus. A compreensão de Deus só pode vir por meio da experiência pessoal.
Por exemplo, podemos analisar o Livro de Job, no Antigo Testamento. Em meio ao sofrimento e à perda de tudo, o justo Job conversa primeiro com seus amigos religiosos — frequentemente descritos como dogmáticos. Em teoria, tudo o que eles dizem está correto, mas Job permanece insatisfeito. Em vez disso, ele exige um encontro e uma conversa com Deus. E essa conversa, naturalmente, acontece. Os amigos de Job dizem tudo certo, mas deixam de lado um ponto crucial que provavelmente deveríamos aplicar às nossas próprias conversas: eles não tentam orar por Job para que o Senhor lhe dê uma resposta. Nosso diálogo deve ser construído como uma oração por essa pessoa. Não é preciso dizer “Vou orar por ti” ou algo do tipo. Em vez disso, devemos começar genuinamente a nos importar com nosso interlocutor e a sentir compaixão por ele do fundo do coração. Essa é uma condição vital para uma conversa com um ateu. Este é o primeiro ponto: não conversamos com ele para provar que estamos certos, mas para que ele também encontre a felicidade e a salvação.
O segundo ponto, que é obviamente muito importante, é saber ouvir a pessoa. Ela pode estar falando bobagens do nosso ponto de vista, apresentando argumentos confusos, mas ainda assim precisa ter a oportunidade de falar — dentro da razoabilidade, naturalmente. Ela deve expor sua posição, e não precisamos necessariamente aceitá-la, mas sim analisá-la por meio do diálogo. Estou falando de respeitar nosso interlocutor.
O terceiro ponto é que precisamos ter argumentos fortes. O argumento mais forte em uma conversa com um ateu são nossas próprias orações e práticas espirituais. Se dizemos ou fazemos algo, devemos acreditar nisso, testar em nós mesmos e praticar o que pregamos. É um argumento muito poderoso quando não falamos de verdades abstratas, mas do que vivenciamos pessoalmente. Na minha opinião, este é um aspecto muito importante.
Esses argumentos também incluem nosso conhecimento intelectual, que confirma nossa fé. Em tais conversas, ao falar sobre assuntos pessoais, em vez de dizer “A Igreja ensina isso e aquilo”, às vezes é melhor dizer: “Houve um momento na minha vida em que eu…”, e assim por diante. Naturalmente, tudo o que dizemos deve ser verdade. Não deve haver absolutamente nenhuma suspeita de que você inventou algo ou está mentindo. Você não deve ter medo de admitir que não sabe algo ou não entende certos mistérios da fé.
O que é absolutamente inaceitável? Insultar o interlocutor (por exemplo, “Você é um tolo”, “Você é um ímpio”) ou explorar o medo (por exemplo, “Você vai para o inferno”). Em outras palavras, não devemos intimidá-lo. E acredito que o segredo fundamental da nossa conversa é o amor por essa pessoa. Compaixão, amor e empatia por ela — tudo isso importa. Em hipótese alguma devemos zombar das crenças e questionamentos de outra pessoa. Para um ateu, o Evangelho não é uma prova, mas é justamente a partir da perspectiva do Evangelho que devemos falar com ele. Por mais paradoxal que pareça — se não é um argumento, nem uma autoridade, nem uma prova para ele, por que deveríamos usá-lo? Porque a Palavra de Deus cura absolutamente todos que entram em contato com ela. E as citações das Sagradas Escrituras influenciam as pessoas de uma maneira verdadeiramente maravilhosa.
A única maneira de explicar a um descrente que Deus está continuamente presente em sua vida é traçando paralelos com sua experiência cotidiana. Por exemplo, considere a relação entre pais e filhos. Uma criança pensa (e quanto mais nova, mais convicta) que faz tudo sozinha na vida. Na realidade, ela está sob o cuidado e a proteção constantes de seus pais. Assim como um bebê humano não pode sobreviver sem os pais, também em nossas vidas acreditamos que podemos realizar coisas por conta própria, mas, em última análise, se não fosse pelo Senhor, teríamos desaparecido da Terra há muito tempo. Embora não possamos provar isso, podemos apenas demonstrar. Um materialista não acreditará em nós de imediato, mas quando algo semelhante a um milagre lhe acontecer, poderá parar e perceber que isso é realmente verdade. Como diz o apóstolo Paulo, a fé vem pelo ouvir (Romanos 10:17).
Mas não provaremos nada com milagres. Há até um ditado entre os cristãos ortodoxos: “Milagres não provam nada — apenas demonstram”. É por isso que devemos ler o Livro de Job. No final do livro, Job conversa com o Senhor. E para Job, essa conversa é verdadeiramente salvadora — explica absolutamente tudo para ele. No entanto, nós não entenderemos nada dessa conversa. É incrível!
O principal é demonstrar amor, mostrar a um descrente que você é uma pessoa de fé e que o ama. Esse é o único caminho. Não provaremos nada — palavras vazias só terão um efeito negativo. Mas demonstrar que o amamos é uma abordagem verdadeiramente poderosa. Devemos falar sobre Deus? Quando se trata de crianças e adolescentes, precisamos falar com Deus sobre nossos filhos mais do que falamos com eles sobre Deus. Embora, é claro, ainda devamos falar com as crianças sobre Deus constantemente.
Todo descrente — e, na verdade, toda pessoa — tem suas próprias prioridades. Alguns são ligados em tecnologia, outros são filósofos e outros são pessoas simples. Na medida do possível, precisamos falar com eles no nível deles. Isso não significa julgar sua educação, mas sim falar a linguagem que eles entendem. É isso que cria um efeito verdadeiramente poderoso e profundo. Mas deixe-me repetir: sem amor e oração, não podemos realizar nada. É imprescindível que a pessoa que fala sobre Deus e a fé não demonstre nenhum orgulho ou sentimento de superioridade em relação aos outros: “Agora vou contar, mostrar e explicar tudo para vocês, e vocês finalmente vão entender! Vejam como sou inteligente e maravilhoso!” Você não deve estar presente na conversa. Você deve fazer isso unicamente para a glória de Deus e por amor a essa pessoa.
Arcipreste Igor Fomin
tradução de monja Rebeca (Pereira)







