Hoje (no domingo passado), na Igreja Ortodoxa, comemoramos os Padres do Sétimo Concílio Ecumênico, que se reuniram na cidade de Niceia, no ano de 787 d.C., para resolver as questões e controvérsias em torno da veneração de ícones e daqueles que tentaram proibi-los e bani-los das igrejas.
Na terça-feira, iniciaremos nossas aulas de Introdução à Ortodoxia, e um dos aspectos da fé que abordaremos são as fontes de autoridade na vida da Igreja. A Bíblia é a única fonte de autoridade ou existem outras fontes? Fica claro para qualquer pessoa que estude um pouco da História da Igreja que a Bíblia não é a única fonte de autoridade. Existem outras fontes para esclarecer e explicar as palavras das Sagradas Escrituras e do Novo Testamento. Uma fonte de autoridade dentro da Igreja são os próprios bispos, que se reuniram em oração e com a orientação do Espírito Santo nesses Concílios Ecumênicos, a fim de conduzir e guiar a Igreja em meio às dificuldades, especialmente as de natureza doutrinal.
Quando alguém pega e lê as Escrituras do Antigo ou do Novo Testamento, pode facilmente interpretar ou compreender mal o texto. Pode até distorcer o texto e convencer a si mesmo e aos outros dessa leitura nova ou incorreta. No entanto, a Igreja nos lembra que possui certas salvaguardas para evitar tais problemas. Até mesmo o Apóstolo Pedro nos diz que nenhuma Escritura é de interpretação particular, mas está sujeita à comunidade em geral. Da mesma forma, os bispos da Igreja não são ilhas isoladas; são responsáveis uns pelos outros e por toda a comunidade cristã. Cada um presta contas ao outro e todos eles, como membros do Corpo de Cristo, tornam-se guardiões das sagradas tradições e ensinamentos da Igreja, conforme nos foram transmitidos. Não sei bem como posso despertar em vocês a consciência do dom maravilhoso que receberam por meio da Igreja e de sua fiel transmissão ou Tradição de nossa sagrada fé, mas compartilharei algumas palavras do Padre Alexander Schmemann para enfatizar esse ponto. Ele diz:
“Ortodoxia”, “a verdadeira fé”; se por um instante tentarmos compreender o que significa: o verdadeiro e pleno Cristianismo, tal como foi proclamado por Cristo e Seus discípulos; se a nossa Igreja preservou, ao longo dos séculos, a mensagem dos Apóstolos, dos Pais da Igreja e dos Santos na sua forma mais pura, então, meus caros amigos, eis a resposta às perguntas, aos problemas e aos sofrimentos do nosso mundo. Vocês sabem que o nosso mundo hoje é tão complexo. Está em constante mudança. E quanto mais muda, mais as pessoas temem, mais se assustam com o futuro, mais se preocupam com o que lhes acontecerá. E é aqui que a Ortodoxia deve responder ao seu problema; é aqui que a Ortodoxia deve aceitar o desafio da civilização moderna e revelar aos homens de todas as nações, a todos os homens do mundo inteiro, que ela continua sendo a força de Deus deixada na história para a transformação, para a deificação, para a transfiguração da vida humana.”
A Igreja comemora os Padres dos Concílios Ecumênicos porque eles defenderam e protegeram a fé que nos dá vida, e essa é a maior vitória que podemos ter como cristãos. São João, o Teólogo, escreveu: “E esta é a vitória que venceu o mundo: a nossa fé” (1 Jo 5,4).
Segundo a fé cristã, a crucificação e a ressurreição de Jesus Cristo são os eventos mais importantes de toda a história do universo. Contudo, para que sejam compreendidos como algo mais do que mito ou lenda, algo precisa ancorá-los à realidade. O que a Igreja entende como a âncora da nossa fé são os relatos das testemunhas oculares dos apóstolos. Eles deram suas vidas, foram para a morte pregando e ensinando que de fato viram, tocaram, ouviram e conheceram o Filho de Deus, a segunda Pessoa da Santíssima Trindade.
Os ícones, segundo os Padres do 7º Concílio, são parte essencial de toda a Liturgia cristã. Em nossa Igreja, oramos o que cremos e cremos no que oramos. Os fiéis ortodoxos sofreram muitos anos de dificuldades e perseguições nas mãos daqueles que acreditavam que o uso de ícones era proibido e errado, segundo sua interpretação das Escrituras (uma interpretação que, aliás, foi fortemente influenciada pela ascensão do Islã). Esses cristãos liam as Escrituras com uma visão limitada que negava a experiência vivida da Igreja cristã universal dos primeiros séculos. Contudo, a verdade prevaleceu.
O Sétimo Concílio Ecumênico, um concílio universal do Oriente e do Ocidente, nos ensina que os ícones não são apenas bons, mas absolutamente necessários. Eles são um lembrete constante de que Deus não é mais compreendido simplesmente como um espírito invisível. Deus é compreendido como tendo um Filho, que assumiu a forma humana, a existência humana real. Que nasceu em um dia real da história, em um lugar real, com uma mãe humana real da qual recebeu seu DNA humano real. São Pedro escreve: “Porque não seguimos fábulas engenhosamente inventadas quando vos anunciamos o poder e a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo, mas fomos testemunhas oculares da sua majestade.” (2 Pedro 1:16)
No Antigo Testamento, Deus proibiu a criação de imagens para adoração porque o povo não tinha um entendimento adequado d´Ele. Ninguém jamais tinha visto Deus, pois Deus é Espírito. Para o povo tentar representar, ou pior ainda, orar diante daquilo que não tinham visto ou compreendido, seria uma grande blasfêmia, pois certamente representariam Deus incorretamente. Certamente adorariam algo falso. Mas o Senhor Jesus diz à mulher samaritana que chegará o dia em que os verdadeiros adoradores de Deus O adorarão em espírito e em verdade. Isso de fato aconteceu com a vinda do Salvador ao mundo. O apóstolo Paulo escreve que Jesus Cristo “é a imagem do Deus invisível” (Colossenses 1:15). Sua palavra original, em grego, não é “imagem”, mas “ícone”. É essa revelação do Filho de Deus em carne que torna a iconografia não apenas apropriada, mas necessária. Visto que a humanidade contemplou a face do Filho de Deus, habitou com Ele e testemunhou todos os eventos de Sua vida, sabemos que Ele é real. Proibir a iconografia é negar a encarnação, negar a encarnação do Filho de Deus. A Igreja nos lembra que aquilo em que cremos não é mito, mas verdade, e a verdade tem consequências.
São João Damasceno, escrevendo entre os séculos VII e VIII (centenas de anos antes da Reforma Protestante), disse: “Vocês que se recusam a se curvar diante das imagens também se recusam a se curvar diante do Filho de Deus, que é a imagem viva do Deus invisível (Colossenses 1:15), e Sua semelhança imutável. Eu me curvo diante das imagens de Cristo, o Deus encarnado; de Nossa Senhora, a Theotokos e Mãe do Filho de Deus; e dos santos, que são amigos de Deus.”
Deus Se fez homem e habitou entre nós. Essa é a nossa fé cristã. Não se trata de teoria filosófica, mas de experiência que inclui nossos sentidos. Não conhecemos a Deus por meio de livros. Conhecemos a Deus pela experiência. Na Fé Ortodoxa, temos uma experiência sensorial cada vez que entramos na igreja. Sentimos o gosto do Corpo e do Sangue do Senhor, inalamos o incenso, vemos e beijamos os ícones, ouvimos os hinos. Assim deve ser! Porque a nossa redenção e cura não acontecem apenas num nível cósmico distante, mas também no interior de cada pessoa, até mesmo em suas células. A santificação pela vida do Espírito Santo nos transforma em todos os níveis. À medida que uma pessoa participa da adoração, através do corpo, através dos seus sentidos, ela é curada. O Senhor Jesus Cristo, em Sua abundante misericórdia e amor pela humanidade, tornou essa cura possível ao assumir verdadeiramente a nossa carne humana e elevá-la ao Seu nível. A Sua ressurreição torna-se a nossa ressurreição. Tudo é curado. Tudo é transformado. Tudo se renova à luz da encarnação e ressurreição corporal de Jesus Cristo.
É por isso que nos lembramos do retorno dos ícones à Igreja. Porque não podemos chegar à ressurreição sem a encarnação. Não podemos chegar à fé salvadora a menos que os apóstolos tivessem primeiro testemunhado o Verbo encarnado e se convencido desse fato a ponto de estarem dispostos a morrer para proclamar essa verdade de Jesus Cristo. É um poderoso testemunho da verdade da nossa fé, e é essa fé que nos dá vida nova. É a essa fé que nos apegamos e abraçamos enquanto vivemos uma vida de arrependimento e oração, pedindo ao Senhor que abra nossos corações e mentes e faça dessas verdades parte do nosso ser.
Todas as semanas, durante as Matinas, cantamos estas belas palavras: “Deus é o Senhor e Se revelou a nós”. Acolhamos verdadeiramente o dom divino que nos foi concedido! Glória a Deus para sempre, AMÉM.
Sacerdote James Guirguis
tradução de monja Rebeca (Pereira)







