Há um diálogo real acontecendo entre nós e Deus, e é constante. Ele ordena, e fingimos não ouvir. Ele chama, e negamos. Ele desperta nossa consciência, e a acalmamos. Quando nossa consciência não está particularmente atormentada, a fome não ameaça e nossas botas não apertam, ousamos proferir perguntas teóricas ociosas sobre coisas além da nossa compreensão. Por exemplo: “Serão os pagãos salvos?”
Vamos imaginar que o Senhor nos dê uma resposta. E Ele a dá no espírito ao qual estamos acostumados: o espírito de um questionário vil, ou da participação em eleições, ou da votação em um programa de entrevistas: sim ou não. Você realmente acha que a brevidade e a enormidade dessa resposta o manterão vivo, ou ao menos não o incapacitarão?
“Sim, eles serão salvos.” O que isso significa? Inevitavelmente, surge a pergunta: qual o sentido de tudo isso? Jejum, festas, arrependimento, abstinência? Por que a Liturgia e não os mistérios órficos? Por que ler os Salmos de Daviд e não as homilias de Confúcio? Você entende que, se responder “sim”, abandonará a Igreja imediatamente? E se não imediatamente, então depois de um curto período?
E se a resposta for “não”? Isso é ainda pior. Então você tem o direito de assumir a pose de Ivan Karamazov ou de um nobre bem alimentado da era pré-revolucionária e, prolongando as palavras, proclamar com desenvoltura: “Recuso-me a acreditar no seu pequeno Deus. Para Ele, milhões e bilhões de pessoas são mera biomassa, condenadas a virar lenha na fornalha do diabo. Creio нш Еle, talvez, mas recuso-me a rezar para Ele e devolvo solenemente meu bilhete.”
E quantos caíram nesse abismo que se abre à distância! Quantas pessoas, pensando apenas em termos de “sim” ou apenas de “não”, caíram: algumas no poço da indiferença e da apatia em relação à fé, outras no pathos apaixonado da luta contra Deus e da “santidade” sem graça, como Lev Tolstói ou os revolucionários russos.
E quando uma pergunta é feita e apenas “sim” ou “não” é esperado como resposta, a pessoa perde de vista o fato de que Cristo foi crucificado por todos, embora nem todos sejam salvos. E a pessoa pode pensar que ama mais as pessoas do que a Deus, embora não tenha sido crucificada por elas e não queira ser crucificada. E se for crucificada, não ressuscitará e não redimirá ninguém, pois será apenas a morte de um pecador pelos pecadores.
Mas nós realmente conhecemos o amor de Deus no humilde Benfeitor, nascido da Virgem, crucificado na Cruz e ressuscitado dos mortos. Jesus Cristo assumiu Sua obra de serviço, tão sofrida, não apenas por um, mas por todos. Poderia alguém além d’Ele ser verdadeiramente digno do nome de Amante da Humanidade? Mas a mente está doente, o coração definha, e a pergunta continua sendo feita, e uma resposta de “sim ou não” é esperada.
Então, qual é o problema? O fato é que, em assuntos terrenos, podemos ir para a direita ou para a esquerda, e o dilema de “lá ou aqui?” corresponde ao dilema de “sim ou não?”. Mas em assuntos espirituais, além das coordenadas de “direita” e “esquerda”, existe a coordenada de “para cima”, e os nós terrenos são desatados graças à abertura inesperada dos Céus. “Para as alturas, para as alturas”, sussurrou Pushkin em seu leito de morte, querendo dizer “para cima, para cima”. “Luz, mais luz”, disse Goethe em seu leito de morte.
Lá em cima, no Reino da Luz, é o nosso destino. Lá, nossas perguntas sem resposta na Terra serão resolvidas. E não apenas “lá”, mas “somente lá”. Portanto, “ai de nós, de nossas mentes e corações!”
Finalmente, se um crente está verdadeiramente perturbado com o destino dos incrédulos, que ele, um crente, vá e pregue, aprenda línguas e proclame o Evangelho aos que estão perto e longe. E se ele for incapaz disso, que ao menos ore humildemente.
Arcipreste Andrey Tkachev
tradução de monja Rebeca (Pereira)







