CONFISSÃO CORRETA E INCORRETA
Para começar esta reflexão sobre a Confissão correta e incorreta, abordemos brevemente a prática bastante comum de se confessar durante a Divina Liturgia, algo especialmente notório em nossas igrejas durante os períodos de jejum, quando muitas pessoas comparecem que não participaram dos cultos durante o resto do ano. Esse fenômeno é uma concessão extrema e, essencialmente falando, uma irregularidade, até mesmo uma contradição à ordem sacramental da Igreja. Esse tipo de Confissão deve ser evitado a todo custo e utilizado apenas em casos de extrema necessidade, com a consciência de que se trata de um grande ato de condescendência da Igreja para com aqueles que não são suficientemente instruídos no significado e no processo da Confissão, e que podem estar se confessando pela primeira vez. Particularmente preocupante é o fenômeno de cristãos que, durante anos, frequentam regularmente a Divina Liturgia e, de tempos em tempos, fazem sua Confissão durante o próprio culto (o que significa que, em circunstâncias normais, estão utilizando uma abordagem própria apenas para uma emergência), algo que é tanto um erro quanto um pecado, e que causa enorme prejuízo à vida da Igreja. Aqui, é preciso deixar as coisas bem claras: se um cristão litúrgico persiste na prática de se confessar durante a Divina Liturgia, isso não é apenas uma forma de esquizofrenia espiritual, mas também o pecado da irreverência para com as coisas sagradas e uma perturbação deliberada do serviço mais sagrado do mundo. Além disso, o sacerdote que ouve confissões durante a celebração também é arrastado para esse estado esquizofrênico, pois, por natureza, deveria estar concelebrando com seus irmãos naquele momento. Ademais, façamos uma pergunta puramente prática: o que uma pessoa pode confessar nos dois ou três minutos que essas “confissões litúrgicas” duram em média (e não podem durar mais, já que durante os jejuns dezenas de pessoas costumam se confessar)? Portanto, mesmo que exista na prática por certas razões, a Confissão durante a Divina Liturgia é uma espécie de circunstância extraordinária que deve ser reduzida ao mínimo, esclarecendo liturgicamente os fiéis, e eventualmente abolida por completo. 1
Um segundo aspecto da abordagem inadequada à Confissão é um problema sério e frequente em nossos dias, a saber, a Confissão superficial de pecados. Um número considerável de pessoas que se confessam dessa maneira inicia sua conversa com o sacerdote com palavras de auto-justificação que soam mais ou menos assim: “Eu não matei ninguém, não roubei nada, não cometi adultério…”, após o que geralmente se segue algo como: “Não tenho nada de particular para confessar; só tenho pecados do dia a dia”. Perguntemo-nos: as coisas são realmente como são apresentadas nessas “fórmulas” familiares?
Para começar, confirmemos que, na confissão, deve-se mencionar primeiramente os pecados mortais e evidentes — se tais pecados existirem —, sabendo que não há pecado que Deus não perdoe se a pessoa se arrependeu, confessou e passou a odiar esse pecado. Quantos ex-assassinos, ladrões, fornicadores e libertinos, após profundo arrependimento, passaram por uma transformação completa e se tornaram pessoas de vida santa! De fato, o primeiro homem a entrar no Paraíso foi o ladrão arrependido (cf. Lucas 23:42-43). Se, porém, a pessoa não tem tais pecados graves em sua alma, não há necessidade de enfatizar o fato de que não os tem — na Confissão, declara-se o que se tem, não o que não se tem a confessar. Contudo, quando se trata da conhecida fórmula: “Não matei, não roubei, não cometi adultério”, a grande maioria daqueles que a proferem não reflete profundamente sobre o que estão dizendo, pois um exame mais atento muitas vezes revela uma realidade bem diferente.
Comecemos pelo pecado do assassinato, um dos mais graves — tão grave que um Padre comum, ao longo da vida, ouviu Confissões desse tipo apenas algumas vezes (sem contar, é claro, os capelães prisionais, que as ouvem regularmente). O aborto deliberado e intencional não é também um assassinato? Quantos milhões de bebês não nascidos foram mortos na Sérvia desde o fim da Segunda Guerra Mundial até os dias de hoje, sob a influência da ideologia ateia que foi violentamente imposta a essas terras? Além disso, o pecado de matar um nascituro não é apenas o pecado da mulher, mas também do marido que consente. Quantos maridos na Sérvia hoje sequer têm consciência disso?
Uma conclusão semelhante pode ser alcançada em relação ao roubo, que, depois do assassinato, é frequentemente citado como um dos pecados cuja não prática supostamente “absolve” a pessoa de fazer uma Confissão completa. Mas existe alguém na Sérvia que nunca tenha colado em uma prova na escola ou na universidade? Não seria a trapaça um roubo do conhecimento alheio e um meio desonesto de obter boas notas? E o que dizer dos casos generalizados de corrupção sistêmica e dos controversos “acordos” comerciais em que contratos são garantidos mediante suborno de funcionários? Não seria essa uma forma desonrosa de obter renda? Ou como comentar a prática especialmente destrutiva do peculato habitual do Estado (que nas últimas décadas assumiu um caráter endêmico nos Balcãs), seja o “empréstimo” de materiais de produção de menor valor das fábricas por operários ou a “arranjo” de grandes contratos de venda por aqueles em cargos de gestão? São Nikolai, em sua famosa homilia “Não roubem do Estado, pois ele foi caro pago” (que deveria ser adotada como leitura obrigatória nas escolas secundárias sérvias e, ao mesmo tempo, impressa em milhões de exemplares e distribuída por toda a Sérvia), explica eloquentemente que roubar do Estado é um pecado muito mais grave do que roubar de um indivíduo. A razão é simples: quando um homem rouba do Estado, ele peca não contra uma pessoa, mas contra milhões; e o que é mais grave, entre elas, ele peca também contra o sangue dos mártires que encharcou o solo do Estado, e contra as lágrimas de mães, viúvas e órfãos daqueles que pereceram em defesa da fé e da pátria (a Sérvia é, neste caso, um exemplo particularmente marcante de um Estado que pagou um preço altíssimo). Será que alguém, numa sociedade em que prevalece há muito tempo a mentalidade de que “os bens do Estado não pertencem a ninguém” e que todos devem “apoderar-se” do Estado o máximo que puderem, sequer reflete sobre tais questões durante a confissão?
O mesmo se aplica ao pecado do adultério, cuja não prática, juntamente com os dois pecados anteriores, é geralmente apresentada como uma espécie de “absolvição” perante o sacerdote, que evidentemente não é visto como um médico, mas como um investigador criminal. Certamente, um sacerdote ouvirá, de tempos em tempos, a confissão de adultério consumado; contudo, muito mais frequentemente ouvirá que este não foi cometido (e isso será enfatizado logo no início da Confissão, para que fique claramente estabelecido). O que geralmente se esquece, porém, é que o adultério não se resume a um ato exterior, mas também ao que se passa no coração — o Senhor Jesus Cristo nos adverte claramente que todo aquele que abriga no coração o desejo de entrar numa relação íntima com alguém que não lhe pertence segundo a lei de Deus já é culpado de adultério (cf. Mt 5,28). Aqui, a lógica deste mundo é completamente diferente, pois perante um tribunal terreno, alguém que nunca tenha de fato traído seu cônjuge, mas que diariamente e conscientemente fantasia com outras pessoas e nutre pensamentos lascivos por elas, seria declarado inocente — contudo, perante o Juízo de Deus, tal cônjuge é infiel, porque comete adultério em seu coração, que é o centro espiritual do ser humano.
Igualmente problemática é a segunda das “fórmulas” mencionadas, do tipo: “Não tenho nada em particular a confessar; só tenho pecados cotidianos”. O que se esquece aqui é que mesmo esses “pecados cotidianos” podem ser perigosos se se acumularem a tal ponto que, em algum momento, se tornem parte da natureza da pessoa. Um homem, por exemplo, conta pequenas mentiras todos os dias, inventa histórias, fala meias-verdades e, no fim, torna-se um mentiroso e um enganador, de modo que isso se torna uma característica do seu próprio caráter — ou melhor, da sua falta de caráter. Outro briga todos os dias, discute, levanta a voz e, em certo ponto, torna-se tão difícil para os que o rodeiam que é muito difícil conviver com ele, e todos o evitam ao máximo porque ele causa constantemente sofrimento emocional aos outros. E assim por diante, com cada um desses pecados aparentemente “pequenos” que são, de alguma forma, dados como certos. Nesse sentido, não faz diferença se um homem carrega em sua mochila uma única pedra pesando cem quilos (isto é, algum pecado grave em sua alma) ou mil pedrinhas pesando cem gramas cada (isto é, mil pecados “pequenos” acumulados): em suas costas, ele carregará o mesmo peso.
Quando um peixe é puxado para a praia, não faz diferença se foi apanhado numa grande rede ou fisgado por um pequeno anzol que lhe prendeu a barbatana — uma vez capturado, o método utilizado para retirá-lo da água perde a sua importância. Portanto, é importante que nos aproximemos da Confissão de tal forma que confessemos não só as grandes “redes” em que fomos enredados, mas também os pequenos “anzóis” em que tantas vezes somos apanhados, embora frequentemente lhes não prestemos atenção. Isto significa que não existem pecados “habituais” aos quais devamos nos habituar — todo o pecado é uma impureza que deve ser lavada da alma, e nenhum deve ser negligenciado como perigo, por mais insignificante que nos possa parecer.
Particularmente problemática é outra frase que também se tornou comum (juntamente com as duas anteriores), a saber: “Só preciso da oração da absolvição para receber a Comunhão”, juntamente com as suas muitas variações, que os sacerdotes também ouvem regularmente. Comecemos pela ideia absurda de que é possível recitar a oração de absolvição sem a confissão de pecados específicos. Mas de que, exatamente, uma pessoa deve ser absolvida se não está presa a nada? Em todo caso, mesmo um breve exame inicial de consciência mostrará que sempre temos pelo menos algo a confessar, pois pecamos em palavras, ações e pensamentos, consciente e inconscientemente. Se deixarmos de lado os pecados inconscientes e nos concentrarmos apenas nos conscientes (aqueles dos quais temos consciência e pelos quais reconhecemos nossa responsabilidade), perguntemo-nos quantas vezes pecamos apenas com a língua. Quem de nós nunca mentiu ou disse uma meia-verdade em algum momento da vida? Quem nunca fofocou ou julgou alguém? Quem nunca proferiu um palavrão ou xingou? Quem nunca discutiu ou levantou a voz contra alguém? Quem nunca insultou ou feriu alguém com uma palavra? Há alguém que nunca tenha participado de uma conversa fiada? Há alguém que nunca tenha zombado ou dito algo engraçado, porém inapropriado? Existe alguém que nunca tenha reagido de forma inadequada no trânsito? Aqui, “à primeira vista”, estão tantos pecados óbvios dos quais quase nenhum de nós está livre. Por essa razão, a ideia de ler a oração de absolvição sem nomear os pecados dos quais se busca absolvição deve ser descartada como um absurdo prejudicial.
O problema fundamental de uma abordagem superficial e inadequada à Confissão é que ela mantém a pessoa na falsa convicção de que curou sua alma, quando na realidade apenas colocou um filtro sobre uma ferida purulenta, criando um problema ainda maior, pois a ferida continuará a infeccionar. Portanto, é preciso enfatizar que a Confissão adequada pressupõe a Confissão sincera, concreta e pessoal dos pecados. Em primeiro lugar, deve ser sincera, acompanhada de um sentimento de arrependimento. Confissões reduzidas à mera leitura de listas sem qualquer contrição pelos pecados cometidos certamente não o são. Isso não significa que nunca se deva escrever os pecados no papel — pelo contrário, isso pode ser útil em alguns casos (especialmente se a pessoa não se confessa há muito tempo, de modo que tal lista sirva como uma espécie de lembrete) —, mas a Confissão não pode ser reduzida à mera recitação do que foi escrito.
Em segundo lugar, a Confissão deve ser concreta, o que significa não ser nem excessivamente genérica nem excessivamente detalhada. Por exemplo, quando uma pessoa diz em Confissão apenas que briga, isso é extremamente genérico e não significa muita coisa. Permanece incerto com quem ela briga, se ela mesma inicia a briga ou apenas reage, com que frequência se envolve em brigas, se reconcilia depois, e assim por diante. Mas quando uma pessoa, por exemplo, confessa que tem uma disposição briguenta, que frequentemente se vê brigando com familiares, colegas de trabalho e amigos próximos, e explica brevemente as situações típicas, então isso já é muito concreto e muito bem confessado, e dá ao sacerdote espaço para determinar uma terapia apropriada, proporcional à profundidade da ferida, após discernir se também há ressentimento, desejo de vingança e coisas do gênero. Há, no entanto, outro extremo também: quando uma pessoa começa a relatar em detalhes cada situação individual, a apresentar todo o “roteiro” e a citar na íntegra tudo o que foi dito. Ouvir tais relatos consome completamente a atenção e a energia do sacerdote, de modo que as árvores (a multidão de palavras) logo obscurecem a floresta (a totalidade do pecado), e o tempo destinado à Confissão se esgota rapidamente, deixando muito mais por confessar.
É preciso ter especial cuidado para evitar tanto o extremo da vagueza, por um lado, quanto o extremo do detalhamento excessivo, por outro, particularmente ao falar de pecados de impureza. Não basta confessar o pecado da fornicação de maneira geral, pois muitas coisas podem ser incluídas sob esse termo: desde a falta de continência dentro de um casamento legítimo em certos dias, ou o pecado da masturbação, até transgressões incomparavelmente mais graves, como relações sexuais extraconjugais ou fornicação contra a natureza (que é promovida publicamente hoje em dia). Nem tudo pode ser subsumido sob o termo único “fornicação”, nem a gravidade de cada forma de fornicação é a mesma; é preciso, portanto, ser concreto ao nomeá-la. As pessoas geralmente lutam contra a vergonha quando se trata de nomear com precisão esse pecado, e por isso é importante que tenham em mente que todo verdadeiro sacerdote (especialmente um Pai Espiritual) respeita profundamente aqueles que confessam seus pecados com sinceridade e franqueza, pois isso testemunha a sinceridade e a profundidade de sua fé. Repetimos mais uma vez: o sacerdote nunca tem problemas com pecadores arrependidos, mas sim com os orgulhosos “justos”. Por outro lado, entrar em detalhes durante a Confissão também deve ser evitado quando se trata de pecados de impureza, pois isso reacende a imaginação de quem confessa e introduz descrições desnecessárias de um pecado que deveria ser repudiado, enquanto para o sacerdote que ouve a Confissão, tal conteúdo é desnecessário — ele não está ali para ouvir os detalhes dos atos impuros, mas para curar a pessoa da paixão da impureza.
Por fim, é muito importante ressaltar que a Confissão deve ser pessoal, o que significa que a pessoa vem confessar seus próprios pecados, não os de outros. Isso deveria ser óbvio, embora na prática seja bastante comum as pessoas primeiro “confessarem” os pecados de seus vizinhos, cometendo, muitas vezes durante a confissão, um pecado grave — o julgamento alheio — sem sequer se darem conta disso. Aqui também se aplica a mesma regra de quando vamos ao consultório médico: falamos sobre nossa própria condição médica e sintomas, e sobre a saúde dos outros somente se o médico nos perguntar.
Por último, ao confessar-se, deve-se seguir a estratégia de nomear primeiro os pecados mais graves e sérios que afligem. Seria, de fato, inadequado, por exemplo, confessar primeiro conversas banais e somente depois o abuso psicofísico de outra pessoa. Poder-se-ia até dizer que, se houver algum pecado particularmente grave e sério, precisamente devido à profundidade da ferida, uma confissão separada deveria ser feita apenas para esse pecado, para que toda a atenção possa ser dedicada a resolver o problema em questão.
No próximo artigo, abordaremos a classificação dos pecados, suas inter-relações e subvariantes, bem como a diferença entre pecados externos e visíveis e pecados internos, que são mais difíceis de discernir, completando assim os temas deste breve e prático guia para a Confissão.
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1- Isso é muito comum na Rússia, simplesmente porque a Igreja Russa exige a Confissão antes da Comunhão, e pode haver tantos fiéis que não é realista confessá-los todos na noite anterior. Mas isso só acontece quando há sacerdotes suficientes para fazê-lo sem distrações.
Rev. Sacerdote Dr. Oliver Subotich
tradução de monja Rebeca (Pereira)






