Leitura do Santo Evangelho segundo São Lucas (8,41-56)
A leitura de hoje é familiar para muitos de nós. É uma bela história sobre cura. A primeira cura é notável, pois uma mulher é curada de uma doença que a afligia há doze anos, simplesmente por tocar com fé a orla da veste do Senhor. Aliás, foi assim que alguns fiéis aprenderam o costume de tocar a orla das vestes do sacerdote durante a entrada triunfal da Divina Liturgia. Não porque considerem o sacerdote pessoalmente santo ou porque gostem de sua personalidade, mas porque o sacerdote representa Cristo na paróquia e participa do sacerdócio de Jesus Cristo. O sacerdote serve, mas é o Senhor quem realiza a obra.
A segunda cura que ocorre é uma das mais significativas do Novo Testamento, pois nosso Senhor Jesus Cristo realiza um dos milagres mais raros, ressuscitando uma jovem de apenas 12 anos. No contexto da nossa fé cristã e da nossa compreensão de quem Jesus é, nenhum desses milagres é muito surpreendente. Estamos acostumados a ouvir histórias assim. Mas para aqueles que presenciaram os acontecimentos, isso foi algo absolutamente extraordinário. E para aqueles que conheceram o Senhor Jesus Cristo através dos Evangelhos, foi igualmente algo completamente surpreendente.
Quando pensamos em cura, frequentemente pensamos em milagres de cura física. De fato, alguns de vocês já experimentaram curas grandiosas e milagrosas ao longo de suas vidas. Mas quero lembrar que a forma como Deus nos cura nem sempre é como imaginamos. O propósito fundamental da Igreja é a cura da pessoa humana. A razão pela qual Deus Se fez carne e se tornou homem foi porque Ele desejava curar a humanidade.
Será que o Senhor está interessado apenas na condição dos nossos corpos e na nossa saúde física? Não. O ser humano é mais do que um mero corpo. Ele também tem uma alma. Portanto, não podemos pensar em cura sem perceber que a verdadeira cura começa na alma. A Igreja é o hospital do Divino Médico Jesus Cristo. Dentro da Igreja, aqueles que se aproximam com fé recebem diversos remédios que vêm pela graça do Espírito Santo e são administrados pelos sacerdotes e diáconos aos fiéis. Mas, como eu disse, às vezes a cura oferecida por Deus através da Igreja não é exatamente como esperamos. Há uma bela citação que me foi compartilhada esta semana por um irmão sacerdote. É de um santo Ancião moderno chamado Padre Panagiotis Tsiolis. Ele diz:
“O homem moderno vem à igreja não como um doente, mas como um cliente. “Gostei”, “Não gostei”, “Foi muito longo”, “Ele falou muito alto”, “Não senti nada”. Dessa forma, a pessoa avalia a Liturgia como se fosse um produto. Ela não vem mais para ser curada, mas para ser satisfeita. Se o sermão a magoa, ela vai embora. Se lhe pedem para mudar, ela se irrita. Se lhe pedem para ter paciência, ela procura outro lugar. Ela se esqueceu de que a Igreja não é um teatro nem um restaurante espiritual. É um hospital; e ninguém vai a um hospital para ser aplaudido, mas para se submeter a uma cirurgia — para ser curado, para ser sarado.”
Quem entra na Igreja sem humildade sai sem cura. A graça não opera segundo os gostos da pessoa, mas segundo as suas feridas. No entanto, o homem moderno já não quer que as suas feridas sejam tocadas, porque dói. Busca consolo sem verdade, perdão sem arrependimento e Comunhão sem Confissão. E quando não obtém o que quer, afirma que “já não sente nada”. Não é a Igreja que se tornou fria — é o coração que se fechou… O hospital continua o mesmo. O médico continua o mesmo. O tratamento continua o mesmo. Contudo, o paciente recusa a cirurgia — e depois pergunta-se por que a doença persiste.
Essa poderosa citação nos lembra da realidade espiritual mais profunda da cura na Igreja. A cura requer nossa cooperação com a graça de Deus. A cura requer nossa participação, assim como exigiu a participação da mulher que veio com fé para tocar o Senhor. Requer que sejamos humildes e que desejemos mudar, ser curados. A cura da alma muitas vezes requer alguma dor. Pode exigir alguma correção gentil. Às vezes, requer que sejamos quebrantados e transformados por Deus. “Um coração quebrantado e humilde, Deus não desprezará.”
É um processo. Leva tempo, exige esforço, requer introspecção, requer confissão sincera, requer oração sincera. Mas não se engane, Deus está pronto e disposto a lhe oferecer a mesma cura que ofereceu à mulher com hemorragia e à jovem que havia morrido. O Senhor veio ao mundo precisamente por esse motivo, para nos curar, não segundo a nossa própria definição humana de saúde, mas para nos conceder a Sua cura, que é infinitamente maior. Ele deseja santificar cada um de nós. Fazer de você um santo. Mas você deseja isso? Você realmente quer ser curado? Se sim, corra para Cristo, como a mulher correu atrás d´Ele para tocar em Suas vestes. Corra em direção a Ele como Jairo, cuja filha estava morrendo. Corram para os Seus ensinamentos, corram para a Sua Igreja e para os seus sacramentos, corram para os Seus santos. Porque ninguém que corre para Cristo de todo o coração jamais será rejeitado. Glória a Deus. Amém.
Sacerdote James Guirguis
tradução de monja Rebeca (Pereira)







