Há uma antiga tradição hebraica que conta um incidente da época em que os judeus ainda eram escravos no Egito. Certo dia, uma cobra picou o Faraó e colocou sua vida em perigo. Um jovem judeu, que tinha conhecimento de medicina popular, conseguiu salvá-lo. O Faraó, encantado, disse: “Você salvou minha vida. Peça-me o que quiser e eu farei”. Ele esperava que o jovem pedisse liberdade, dinheiro e conforto, mas, para sua grande surpresa, a resposta veio: “Gostaria que todos entre 15 e 25 anos tivessem uma folga de duas horas todos os dias para que pudéssemos orar ao nosso Deus”.
O faraó sorriu indulgentemente para o que considerou a “piedade ingênua” do jovem e imediatamente fez como solicitado. Mas o jovem judeu foi alvo de zombaria e maldições de seus compatriotas quando souberam do ocorrido. Eles o xingaram porque ele perdeu a oportunidade de pedir ao Faraó coisas mais úteis do que orações. O mesmo aconteceria hoje com os “progressistas”. Eles gritariam: “Idiota! O que você estava pensando? A alma precisa de uma migalha, mas o estômago precisa de pedaços inteiros”.
Sem esperar que todos entendessem, ele respondeu calmamente:
“A oração é o que faz as pessoas:
* pensarem profundamente;
* enriquecerem o coração;
* e as libertar das circunstâncias externas”.
Aos 8 de novembro, comemoramos o Megalomártir São Demétrio, que perdeu uma oportunidade incomensuravelmente maior. Ele teve a chance:
* não apenas de sair por duas horas por dia da masmorra para a qual fora lançado por causa de sua fé;
* não apenas de deixar a prisão para sempre e ser um homem livre novamente;
* mas também de ser honrado com uma patente e posição muito mais elevadas no exército romano.
Tudo o que ele precisava fazer era renegar sua fé e fazer um sacrifício aos ídolos. Era algo tão simples. Apenas um pequeno sacrifício aos deuses e tudo estaria perfeito.
Mas São Demétrio, que passou a amar a oração ao verdadeiro Deus, conquistou os três tesouros que o jovem judeu havia identificado séculos antes na história que contamos:
Ele havia aprendido a ser consciencioso e a pensar profundamente.
Enriquecera seu coração com amor genuíno por Deus e pelas outras pessoas.
Tornar-se-a completamente livre de circunstâncias e dificuldades externas, mesmo sob ameaça de morte.
Assim, em pleno domínio de suas faculdades, rico e livre, rejeitou a “isca” do imperador, a glória e a autoridade terrenas. Preferiu ser martirizado por Cristo. Dessa forma, com seu exemplo, ensinou que a alma certamente não pode ser satisfeita com migalhas. Migalhas não bastam para a alma. A alma anseia por pedaços grandes.
E mais. Quando a alma se alimenta com pedaços maiores do que os exigidos pelo estômago, ela não apodrece na terra, mas pode se tornar uma fonte inesgotável de mirra, como é o caso das relíquias de São Demétrio.
Arquimandrita Varnavas (Lambropoulos)
tradução de monja Rebeca (Pereira)






