Leitura do Santo Evangelho segundo São Mateus (9,1-8)
Na leitura do Evangelho de hoje, encontramos a história de um homem paralítico. Não nos é dito seu nome nem nada sobre ele. Apenas uma coisa sabemos com certeza: ele está paralítico e não consegue andar, muito menos se mover. Quando ouvimos essa história e outras semelhantes, somos impactados pela intensidade do sofrimento e pelas dificuldades causadas por tal doença. Olhamos para esse homem com nossos olhos tão humanos e pensamos que entendemos a situação, que entendemos o que realmente está errado. Contudo, glória a Deus, pois nosso Senhor Jesus Cristo, o Filho de Deus, não vê o mundo através dos nossos olhos meramente humanos. O Senhor vai muito além, muito mais fundo em Seu exame da pessoa que está diante d´Ele. Isso deveria nos fazer tremer e também nos alegrar. Deveríamos tremer porque Deus verá a verdade sobre nós. Deveríamos nos alegrar porque nessa verdade reside a nossa salvação e a nossa verdadeira cura. Na verdade de Deus, vemos quem somos e o que somos. Somos expostos diante de Deus, como Adão e Eva foram expostos no jardim. Contudo, isso é para o nosso bem, porque o que não é exposto diante de Deus não é curado.
Através da nossa compreensão humana, pensamos que o maior problema do homem é a sua paralisia. Mas o nosso Senhor Jesus Cristo dissipa essa compreensão. O maior inimigo desse homem não é a sua paralisia física, mas sim a sua paralisia espiritual. A paralisia da sua alma. Este é o ponto mais profundo do Evangelho. E somos profundamente consolados ao ouvir as palavras tão graciosas e belas proferidas pelo Senhor Jesus a este homem que sofre de uma forma muito mais profunda e intensa do que os observadores poderiam imaginar. Ele sofre com a doença dos seus pecados. Contudo, o Senhor vê este homem na sua totalidade e profere palavras de misericórdia, cura e vida: “Tem bom ânimo, meu filho; os teus pecados estão perdoados”.
Através desta passagem do Evangelho, aprendemos que o aspecto mais crucial para a nossa cura humana é a cura da alma, ainda mais do que a cura do corpo, embora as duas estejam intimamente ligadas. É o aspecto primordial e mais importante porque o nosso Senhor perdoa o homem antes de o fazer levantar-se e andar.
Todos nós lidamos com o pecado em nossas vidas, sejam pecados de palavras, ações ou pensamentos, sejam pecados grandes ou pequenos. Mas o pecado é um agente paralisante. O pecado torna impossível viver uma vida verdadeiramente humana, uma vida que nos revele como criados à imagem e semelhança de Deus.
Quando eu estava com algumas crianças no acampamento, fiz a elas uma pergunta simples: “Por que os mandamentos de Deus existem?” Recebi muitas respostas, muitas delas boas. Algumas diziam: “Eles existem para que os obedeçamos”. Mas eu as incentivei a refletir mais profundamente. Por que os mandamentos existem? Finalmente, revelei a resposta. Os mandamentos existem porque Deus nos ama e quer proteger nossas almas. Pecado não é o descumprimento da letra da lei. Trata-se de proteger a alma do dano, da corrupção e, em última instância, da morte. Mas não da morte em si, pois todos nós temos que morrer. Trata-se da morte da alma, uma morte eterna que permanece conosco para sempre.
Assim, no Evangelho, vemos muitos aspectos da verdade, embora muitas vezes estejam ocultos à primeira vista. Somos lembrados de que o pecado é a pior condição humana. E somos encorajados pelo Senhor a ter coragem. Não importa o quão ruins possamos parecer, não importa a vida que tenhamos vivido, não importa o que o mundo pense de nós, Deus ainda nos ama e quer nos curar. Ele quer nos redimir da corrupção. Ele deseja apagar nossos pecados e nos tornar íntegros. Para os cristãos ortodoxos, é claro que esse processo de perdão e cura completos acontece no contexto dos Sacramentos da Igreja, principalmente por meio da Sagrada Comunhão, da Unção dos Enfermos e da Confissão.
Alguns santos mencionaram que quanto mais profunda for nossa Confissão, quanto mais ousada, sincera e humilde ela for, maior será a cura que virá por meio do sacramento. Você ouve o Evangelho e deseja que o Senhor lhe ofereça essa cura e alivie seus fardos… então venha e confesse seus pecados e não os esconda. Deus já conhece a situação, mas você não demonstrou humildade e fé em confiar em Deus e nos Sacramentos da Igreja para lhe trazer cura e perdão. Se você tem medo de mencionar seus pecados e as coisas que lhe causam vergonha ao sacerdote, que é apenas um homem, durante a Confissão, como poderá comparecer perante o Deus vivo com pecados não confessados?
Na vida da Igreja, o sacerdote é como aqueles que carregam seu amigo em uma maca para levá-lo à presença de Cristo. O sacerdote faz isso durante a Confissão e o faz ainda mais profundamente durante a liturgia. O sacerdote se coloca diante da mesa para fazer uma oferta em nome de si mesmo, de todo o povo e de seus pecados, para que Cristo, que ama a humanidade, tenha misericórdia e veja nosso ato de fé através da adoração. A oferta não visa apaziguar ou apaziguar Deus, mas sim oferecer a nós mesmos, nossos corações, nossas mentes e nossos corpos, para nos unirmos à vida divina de Deus. Para fazer da vida de Deus a nossa própria vida.
São Paisios (cuja memória comemoramos hoje) disse: “Deus quer, acima de tudo, que sejamos felizes e desfrutemos de paz interior. Deus não é um tirano que nos importuna e intimida, mas sim que sejamos livres”. Cristo espera que compareçamos diante d´Ele com toda a nossa fragilidade e com o desejo de cura. Fazemos isso quando vamos à igreja e quando oramos em nossas casas com um coração puro e humilde. Ele não rejeitou o paralítico e também não nos rejeitará. Ele deseja nos perdoar, deseja nos curar, deseja estar conosco, então tende coragem.
Sacerdote James Guirguis
tradução de monja Rebeca (Pereira)







