Existe aquele meme: “Eu sou mais da área de humanas”. Pois é, eu sou mais da área de humanas. Minha relação com a matemática azedou logo cedo. Eu decorava a tabuada sem qualquer entusiasmo e a esquecia rapidamente; resolvia certos tipos de equações do jeito que bem entendia e, finalmente, nos últimos anos da escola, estagnei de vez no meu aprendizado de matemática. Até hoje não entendo por que não se pode dividir por zero… nem perca tempo tentando me explicar! Sei que não pode, mas, por algum motivo, ainda acho que dá para dividir por zero… às vezes.
Foi assim que Valentina Feodorovna se tornou minha professora de matemática e regente de turma na quarta série. Uma mulher imponente, de olhos escuros e cachos volumosos e escuros… Ela tinha cerca de cinquenta anos na época. Sem dúvida, Valentina Feodorovna logo percebeu minha inaptidão matemática. Mas é preciso reconhecer que ela descobriu imediatamente meus talentos em outra área: eu tinha jeito para organizar o mural da escola e fazer todo tipo de projeto artístico amador, que eu ilustrava com versos de minha própria autoria. Começamos a fazer uma troca de favores: sempre que nossa turma se destacava em festivais de arte amadora, eu, em contrapartida, recebia notas decentes em matemática.
Líder do Komsomol na juventude, na vida adulta Valentina Feodorovna também adorava fazer sermões e falar sobre os percalços da vida. Ela costumava aproveitar os horários de regência de turma para discorrer sobre esses assuntos. Às vezes, Valentina Feodorovna divagava sobre temas alheios à matéria durante as aulas. Lembro-me de como fiquei impressionada, certa vez, com uma história de amor infeliz. Devo esclarecer: era a história de amor dela mesma. Esse relato breve foi compartilhado conosco logo após o professor de educação física interceptar e tornar público um bilhete amoroso de alguém:
“Sabem, crianças, quando eu tinha a idade de vocês, eu gostava de um menino, meu vizinho. Para ser mais precisa, eu estava muito apaixonada por ele. Eu realmente queria, de alguma forma, dar a ele um sinal dos meus sentimentos. Mas não tive coragem. Depois de nos formarmos, ele foi estudar em outro lugar. Casou-se e teve filhos. Eu também me casei com um militar; tivemos filhos e, por muito tempo, viajei com meu marido para diferentes bases militares. Então, sete anos atrás, quando nossa família já estava estabelecida de volta à nossa cidade natal, encontrei meu primeiro amor sentado em um banco em frente à casa. Ele estava balançando o carrinho do neto. Bem, aquilo já era coisa do passado, então me aproximei e disse: ‘Você fazia ideia de que, enquanto crescíamos, eu era apaixonada por você?’ Ele quase chorou e respondeu que também me amava, mas tinha medo até de se aproximar: achava que eu era boa demais para ele. Por isso, crianças… Apressem-se em expressar seus sentimentos sinceros enquanto ainda são jovens. Não deixem para depois. A vida é curta demais.”
É pouco provável que alguém da nossa turma tenha refletido sobre as questões da vida naquele momento: todos começaram a cochichar, animados com a pausa na resolução de problemas de matemática, e eu fui a única que perguntou à professora:
“O que aconteceu depois com o seu amor?”
Ao que Valentina Feodorovna respondeu:
“Nada. A vida seguiu.”
Devo explicar por que fiquei tão impressionada com a história dela: desde a terceira série, eu estava encantada pelo filho de uma amiga da minha mãe, que às vezes nos visitava e me ajudava a resolver problemas de matemática que eram complexos demais para a minha cabeça.
Quando eu estava na sétima série, meus pais me transferiram para outra escola, onde o nível do meu conhecimento em matemática ficou evidente para todos. Arrastando-me com notas baixas (Ds e Cs), consegui chegar aos trancos e barrancos ao décimo ano — já sob o novo sistema escolar —, quando recebi a garantia categórica da direção da escola e do meu professor de Matemática de que eu não passaria no exame final do décimo primeiro ano.
Enquanto ponderava se deveria abandonar a escola ou desaparecer do convívio social — perdendo, assim, mais um ano —, eu caminhava pensativa pela avenida, de cabeça baixa.
Alguém tocou minha mão:
— Oksana! Como você está?
Levantei a cabeça e vi os olhos escuros de Valentina Feodorovna fixos em mim. Ao saber que as coisas não iam muito bem para mim, ela sugeriu imediatamente:
— Venha me visitar. Moro sozinha: meu marido faleceu e meus filhos moram em casas separadas. Anote meu endereço. Venha duas vezes por semana, depois das 18h. Digamos, às terças e quintas; pode ser?
Naquela época, aulas particulares não eram tão comuns, mas presumi que a dedicação de Valentina Feodorovna precisaria ser remunerada por mim ou pelos meus pais; como não tínhamos dinheiro, hesitei em dizer qualquer coisa.
— Não vou cobrar nada de você, Oksana. A culpa é minha: fui muito condescendente com você. Venha, por favor. Amanhã, está bem? Vou esperar por você. Conversaremos então. Preciso ir agora.
— Está bem — respondi, como se estivesse em câmera lenta.
Durante todo o ano letivo que antecedeu os exames de conclusão, frequentei a casa de Valentina Feodorovna. Eram os primeiros anos da década de 1990 e a comida estava escassa. Ela me oferecia refeições e chá. Mostrava-me os pintinhos que chocava em casa e a “pastagem” deles dentro da banheira. E, entre uma coisa e outra, havia a aula de matemática. Passei no exame dessa matéria maldita e tirei nota B.
Quase vinte anos se passaram desde então. Conquistei sucesso na área de Artes e Humas. De vez em quando, eu ligava para Valentina Feodorovna para cumprimentá-la pelo Ano Novo e pelo Dia do Mestre.
Em uma dessas ligações, perguntei:
— Posso visitá-la?
— Em casa, sim — concordou minha professora. — Não posso receber visitas em nenhum outro lugar.
— Posso passar aí amanhã?
— Tudo bem. Só uma coisa… se eu demorar um pouco para abrir a porta, espere por mim: ando devagar. Mas talvez minha filha esteja em casa nessa hora e possa ajudar. De qualquer forma, venha, por favor!
No dia seguinte, fiquei parada diante da porta da casa de Valentina Feodorovna por uma hora e meia. Ouvi ruídos lá dentro e, às vezes, ela exclamava: “Espere por mim! Só mais um instante!” — então, continuei esperando.
Finalmente, a porta se abriu e minha professora surgiu diante de mim, vestindo uma camisola branca como a neve.
— Oksana! Ajude-me a voltar para a cama agora.
Descobri que Valentina Feodorovna estava acamada havia seis meses. Ela estava acamada! Soube disso mais tarde, por meio da filha dela, que estava em choque com a possibilidade de a mãe ter caído, batido a cabeça, perdido a consciência, e assim por diante.
Mas, naquele momento, atônita, ajudei minha professora a voltar para a cama e sentei-me na cadeira ao lado. Conversamos por uma hora. Soube que a filha e uma assistente social visitavam Valentina Feodorovna; ela se sentia bastante fraca, mas estava feliz por ter preservado a memória.
Relembramos o passado. Então, de repente, perguntei a ela:
“Lembra-se, Valentina Feodorovna, de quando estávamos na quarta série e a senhora contou a história do seu primeiro amor? Sabe, aquela história acabou sendo profética. Naquela época, eu estava apaixonada por um menino. Assim como a senhora, eu também tinha medo de dizer a ele que gostava dele. Mas agora tenho marido e filhos, e ele também tem família. Parece que está tudo bem, mas, às vezes, dá a sensação de que algo passou batido — e o único motivo é que deixamos de dizer algo realmente importante.”
“É… A vida é assim. Ele ainda está vivo, meu primeiro amor; continua sendo meu vizinho. Embora com dificuldade, ele ainda consegue andar.”
Uma hora depois, a filha de Valentina Feodorovna chegou, explicou a situação da mãe, anotou meu número de telefone e fechou a porta atrás de mim.
Duas semanas mais tarde, Svetlana ligou para avisar que a mãe havia falecido.
O funeral não atraiu multidões: já fazia muito tempo que Valentina Feodorovna havia deixado o magistério.
Houve uma cerimônia religiosa. A falecida parecia muito pálida e incrivelmente magra. No entanto, em nosso último encontro, Valentina Feodorovna parecia até um pouco mais cheinha. Depois que o Padre fez o elogio fúnebre e outras pessoas se aproximaram para se despedir, um idoso apoiado em uma bengala chegou perto do caixão. Lutando para controlar o tremor das mãos, ele ficou ali contemplando o rosto da falecida — a mecha rebelde de cabelo branco que escapava do lenço, o corpo mirrado —, depois balançou a cabeça e saiu. Ouvi uma das idosas que estavam por perto dizer a ele, com voz trêmula:
“Então, você não reconhece a sua Valentina?”
“Não, não reconheço”, soluçou o velho, balançando a cabeça. “Não consigo acreditar que seja ela.”
“É ela, com certeza! E como você a amava! Todo mundo sabia disso.”
“Bem, então… Nós nos encontraremos lá em cima. Falta pouco agora.”
E o velho afastou-se com dificuldade, recusando-se a ir ao cemitério.
EXAME
“O que é a nossa vida? Um jogo!”, cantava Herman, da ópera *A Dama de Espadas*, de Tchaikovsky (vale lembrar que *A Dama de Espadas* foi escrita por Púchkin). A frase pegou e tornou-se uma expressão consagrada; ainda hoje, ouvimos frequentemente dizer que a vida não passa de um jogo… Quanto a mim, penso que a vida é um exame interminável, ou um conjunto de muitos exames. Alguns deles são, provavelmente, exames finais, enquanto outros são provas parciais.
A maioria das pessoas acha que as provas se restringem apenas a alunos do ensino fundamental e universitários. Hoje em dia, elas recebem siglas como “OGE”, “EGE” e “GIA”. Pais que não estão a par das novidades acabam descobrindo o significado dessas siglas de três letras durante as reuniões de pais e mestres. Na semana passada, participei de uma dessas reuniões na turma do meu filho mais velho, Mikhail. Como todos os alunos do nono ano, ele também terá de prestar o OGE, o exame estadual básico.
A reunião começou como na peça *O Inspetor Geral*, de Gogol: a professora responsável pela turma, Elvira Vladislavovna, anunciou com expressão pesarosa:
— Caros pais, teremos de enfrentar o OGE!
Os pais começaram a passar mal.
Ao perceber que seu anúncio surtira o efeito desejado, Elvira Vladislavovna recitou alegremente a lista de alunos e informou as datas e os locais de realização das provas. Cada exame seria aplicado em uma escola diferente. Os pais deveriam levar água engarrafada, copos e canetas de gel pretas. Não, nada de azul ou canetas esferográficas comuns; apenas canetas de gel pretas! Cada aluno receberia uma caneta dessas e — Deus me livre! — não poderia usar nenhum instrumento de escrita próprio. As calculadoras, nos casos em que fossem permitidas, deveriam ser retiradas aos poucos, sem movimentos bruscos, para que — Deus me livre! — os organizadores do exame não achassem que se tratava de um celular. O uso de celular acarretava uma punição severíssima, sem direito a recurso. É como portar uma arma em um local onde isso é estritamente proibido por lei. Se fosse preciso ir ao banheiro, só era permitido fazê-lo sob escolta. Havia câmeras de vigilância nas salas de aula e nos corredores. Todas as entradas e saídas eram vigiadas, e as salas não utilizadas, lacradas. A única forma de entrar e sair do prédio era utilizando um cartão de acesso. O OGE dura entre duas e quatro horas, dependendo da matéria. Não se podia levar nem sequer uma bala embrulhada — Deus me livre! — vai que alguém escrevesse uma “cola” no papel do doce com o conteúdo de química dos últimos dois anos de estudo? E, sim, é melhor não comer nada antes da prova. Houve casos de diarreia entre os alunos devido ao nervosismo. Por isso, é melhor que fiquem sem comer por mais tempo. Apenas por meio período. Mas vocês, pais, não têm motivo para se preocupar: nós, professores, preparamos seus filhos para o OGE durante todo o ano; eles aprenderam pelo menos alguma coisa…
A mãe de Vasia Shilov, que estava sentada à minha direita durante a reunião, suspirou e tomou dois comprimidos. O filho dela, que estudou o ano todo com ela e com professores particulares, tirou um “F” no último — o quarto — simulado do exame OGE de língua russa.
Meu filho teve resultados variados nos simulados (ou seja, exames para avaliar a preparação para a prova oficial). Ele tirou um “D” em uma prova e um “A” em outra. Ele tirou “A” quando escolheu respostas aleatórias para as últimas questões e acabou acertando. Portanto, no caso do meu filho, havia certa ambiguidade.
Tomei banho assim que cheguei em casa da reunião de pais e mestres. É o melhor lugar para refletir. Mais tarde, de roupão e com a cabeça enrolada numa toalha, entrei no quarto do meu filho. Ele estava ocupado arrumando soldadinhos de brinquedo na mesa para o irmão mais novo.
— Mishutka, querido — disse eu, de repente, dirigindo-me ao meu filho mais velho.
Mikhail olhou para mim com ar de dúvida.
— Meu raio de sol — continuei —, sabe, não se preocupe nunca com esse OGE! Afinal, não é o fim do mundo.
E, encostando o rosto no ombro do meu filho, acrescentei:
— Eu te amo. Isso é o que mais importa.
Oksana Vinogradova
tradução de monja Rebeca (Pereira)







