COMO AJUDAR SEU FILHO A NÃO PERDER O EQUILÍBRIO

A raiva em uma criança é frequentemente vista como um problema comportamental comum, mas, na realidade, ela afeta as camadas mais profundas da alma. Como podemos ajudar as crianças a lidar com explosões de irritação e a preservar a paz interior no dia a dia?

Parece que as crianças de hoje em dia se irritam com mais frequência e intensidade. Uma palavra áspera, uma porta batida, uma caneta arremessada, lágrimas por algo trivial, uma explosão de agressividade diante de um comentário corriqueiro — pais e professores se deparam com tudo isso atualmente. Às vezes, os adultos pensam: “Ele simplesmente não sabe se comportar”. No entanto, a raiva das crianças quase nunca nasce da raiva em si, mas sim de uma sensação de impotência interior, fadiga, ressentimento, ansiedade ou da incapacidade de lidar com os próprios sentimentos.

Na tradição ascética ortodoxa, a ira é considerada uma das paixões. “A ira é uma paixão feroz e dolorosa”, escreve São Tikhon de Zadonsk. “Outras paixões podem ser facilmente ocultadas, mas a ira não pode ser escondida.” Contudo, é importante compreender que a própria faculdade irascível da alma foi dada por Deus com um propósito. Ela deve nos ajudar a rejeitar o mal, proteger o bem e resistir à injustiça; existe até o conceito de “ira justa”. No entanto, a paixão surge quando o ser humano perde o autocontrole, quando a ira obscurece a razão e começa a destruir tanto o próprio indivíduo quanto aqueles ao seu redor.

Isso é particularmente evidente nas crianças, que ainda estão aprendendo a compreender a si mesmas. Seus sentimentos são mais intensos do que sua experiência de vida. Elas não sabem como parar a tempo, como expressar em palavras o que as ofendeu ou como distinguir entre fadiga, ciúme, medo e um motivo real para a indignação; por isso, sua ira é frequentemente direcionada para o lugar totalmente errado.

Por exemplo: um professor faz uma pergunta à turma. Um aluno não consegue responder a tempo e imediatamente se exalta: sente-se ofendido, irrita-se e demonstra isso de forma ostensiva. Obviamente, não é razoável esperar que se possa perguntar a todos os trinta alunos ao mesmo tempo, mas, no momento da ira, a criança já não consegue recorrer à razão. A emoção se sobrepõe ao bom senso.

Às vezes, os adultos ajudam involuntariamente essa paixão a criar raízes. Quando uma criança é pequena, é mais fácil parar rapidamente sua irritação: distraia-a, dê-lhe um telefone, grite com ela – desde que ela não incomode você e destrua seu conforto. Mas se você não descobrir o que causou isso, a criança não aprenderá a vivenciar seus sentimentos corretamente. Ele aprende apenas uma coisa: as emoções devem ser suprimidas ou descartadas.

Há outro extremo, quando um pai começa a inflamar a raiva de um filho com seu próprio orgulho: “Como ele pôde fazer isso com você?” “Você não deveria ter que aturar isso!” “Você mostra a ele!” Assim, em vez de humildade e força interior, a criança aprende a ficar constantemente ofendida e irritada.

Às vezes, a raiva das crianças tem outras causas que não são tão óbvias. Um deles é a formação da autoestima. Uma criança que ainda não tem um senso de estabilidade interior é muito sensível a qualquer observação, fracasso ou comparação. Enquanto um adulto pode dizer calmamente a si mesmo: “Não se preocupe, vai dar certo da próxima vez”, uma criança pode perceber isso como uma injustiça interior ou até mesmo uma humilhação. E então a raiva se torna um meio de proteger você mesmo, seu valor, seu “eu”.

Outro motivo é testar os limites. Uma criança tenta intuitivamente descobrir onde estão os limites – o que é permitido e o que não é, onde os adultos se mantêm firmes e onde cederão sob pressão emocional. E se os limites de uma família não são claros, ou mudam dependendo do humor dos adultos, a criança começa a “testar” a sua durabilidade através da irritabilidade, dos gritos e da resistência. Nesses casos, a raiva não é apenas uma emoção, mas um meio de influenciar todas as outras pessoas.

Do ponto de vista ortodoxo, é importante ver que por trás dessas explosões externas quase sempre há desordem interna na alma. Uma criança ainda não sabe distinguir entre os seus estados e, portanto, expressa-os da forma mais simples e poderosa – através da raiva. Portanto, o trabalho do adulto é ajudar gradualmente a criança a encontrar uma base interior e a aprender como distinguir os seus sentimentos e não se deixar abater por eles.

O que os pais devem fazer?

Antes de tudo, lembre-se de que é mais fácil prevenir a raiva do que contê-la quando já está em seu auge. Psicólogos afirmam que devemos prestar atenção aos primeiros sinais de irritação. Nas crianças, isso muitas vezes se manifesta fisicamente: o olhar muda, a voz se eleva, elas fazem movimentos bruscos, cerram os punhos ou jogam coisas. Nesse momento, ainda é possível ajudá-las a redirecionar a emoção.

Às vezes, coisas simples bastam: nomear calmamente os sentimentos da criança — “Você está muito irritado agora” —, oferecer uma saída para a situação, dar tempo para ela se acalmar, redirecionar sua atenção ou abraçá-la, se ela estiver receptiva. É fundamental que o adulto presente mantenha a calma. Gritar de volta com a criança quase nunca faz a raiva dela passar.

Se a criança já tiver tido uma explosão, o mais importante é não humilhá-la. Sim, o comportamento pode estar errado, mas não se deve rejeitar a criança em si nesse momento. Não é preciso dar longas lições de moral antes que ela se acalme. Primeiro, é preciso ajudá-la a recuperar a calma e, depois, resolver a situação tranquilamente: o que aconteceu e por quê, e como ela poderia ter agido de outra forma.

É útil ensinar a criança a expressar seus sentimentos em palavras — não apenas os bons, mas também os difíceis: “Fiquei ofendido”, “Fiquei com raiva”, “Isso me pareceu injusto”. Quando um sentimento é nomeado, ele deixa de ser tão destrutivo.

É importante falar também sobre rituais familiares e uma rotina estável. As crianças são muito sensíveis à repetição e à previsibilidade. Se houver regras claras e um ritmo diário tranquilo, é mais fácil para elas se sentirem seguras. Por outro lado, o caos, as mudanças constantes e a inconsistência dos adultos muitas vezes intensificam a tensão interna e levam as crianças a reagir de forma mais brusca. É por isso que tradições familiares simples, porém estáveis, são tão importantes: uma conversa em família à noite sobre o dia, uma preparação calma para dormir, aspergir o quarto com água benta, fazer o sinal da cruz antes de sair de casa, dizer palavras gentis antes da escola, rezar juntos de manhã e à noite. Os rituais familiares não devem ser formais ou rígidos. O objetivo não é o controle, mas a paz. Quando uma criança sabe que todos os dias terminam com a mesma tranquilidade, com atenção e carinho, sua tensão interior diminui gradualmente. Ela lidará com mais facilidade com emoções difíceis — incluindo a raiva —, pois tem a vivência da estabilidade e de um amor previsível.

Às vezes, os pais pensam que a vida espiritual é algo separado das emoções cotidianas. No entanto, é justamente nas situações triviais do dia a dia familiar que a criança aprende a encontrar a paz na alma. O principal fundamento para superar a raiva da criança não é apenas o método pedagógico, mas também o estado espiritual da própria família. As crianças percebem com especial sensibilidade a atmosfera interna do lar: paz ou tensão, irritação ou paciência, aceitação mútua ou confronto constante. Portanto, a formação da criança não começa com uma reação a um acesso de raiva, mas sim com a paz que os pais mantêm entre si e em seus próprios corações.

A tradição espiritual faz uma observação importante sobre a natureza da raiva e como superá-la. São Gregório do Sinai diz: “Nada doma e refreia tanto a raiva quanto a coragem e a misericórdia: eles esmagam os inimigos que sitiam a cidade – os primeiros, os externos, os segundos, os internos”.

Estas palavras podem ser entendidas num sentido muito prático e cotidiano. A misericórdia e as boas ações tornam-se não apenas um esforço moral, mas meios internos de fortalecimento da alma. Quando uma criança aprende a reparar nos outros, a ajudar, a simpatizar, a fazer algo gentil, não por obrigação, mas por cuidado genuíno, o egocentrismo que tantas vezes alimenta a irritabilidade e a raiva diminui gradualmente.


Ekaterina Silinskaya
tradução de monja Rebeca (Pereira)

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Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

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